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Maria Rita conta como Arlindo Cruz lhe deu 1º samba: "minha referência"

Daryan Dornelles/Divulgação
Imagem: Daryan Dornelles/Divulgação

Djalma Leite de Campos

Colaboração para o UOL, em São Paulo

04/12/2019 04h00

O samba que tocava nas rádios populares, nos anos 1990, encantou a menina Maria Rita Camargo Mariano. Filha de Elis Regina (1945-1982), a artista conheceu o ritmo que a tornou popular por meio da música de composições como as do grupo carioca Raça.

"Na adolescência, alguém me deu uma fita cassete do Grupo Raça. E esta fita tinha a música O Teu Chamego!", diz Maria Rita, que também lembra que um disco de Gilberto Gil foi fundamental no seu encontro com a batucada e o ritmo.

A cantora, que tinha pouco mais de quatro anos quando a mãe morreu, diz que o contato mais íntimo com o samba teve início num período entre o final da infância e o começo de sua adolescência. "Quando tocava Fundo de Quintal, eu ficava parada, ouvindo. E esquecia até de fazer o dever de casa."

A estreia de Maria Rita aconteceu em 2003. Com 12 faixas, o álbum homônimo trazia poucos sinais da guinada para o samba. A Maria Rita sambista tomou forma em 2007, em CD que incluía Tá Perdoado (Arlindo Cruz e Franco). A aproximação entre ela o samba ganhou ainda mais espaço em Coração a Batucar (2014) e Amor e Música (2018).

Aos 42 anos, Maria Rita acredita que o samba fez dela uma artista com trânsito entre públicos distintos, que inclui as escolas de samba e espaços com ingressos mais caros. "Foi a turnê do Samba Meu (2007) que fez isso. Aquela temporada de shows me levou fisicamente a lugares que eu não tinha chegado ainda."

Segundo ela, "saber chegar" foi uma das razões para ser aceita. A benção de Arlindo Cruz e as dicas da madrinha Mart'nália também abriram portas.

"A honestidade com a qual eu sempre conduzi minha música, e também a minha carreira, chega aos sambistas. E fica um entendimento de que eu posso, sim, agregar. Embora eu seja branca."

Em entrevista ao UOL, a cantora e sambista fala de paixão pelo samba, que a acolheu como um de seus principais nomes; explica o caminho que trilhou para se tornar sambista; e relembra o dia em que recebeu das mãos de Arlindo Cruz um de seus maiores sucessos.

UOL - Você lembra em que momento a paixão pelo samba despertou em você?

Maria Rita - Foi durante a infância, quase adolescência... E foi ouvindo essas rádios populares! Tinha Fundo de Quintal, que quando tocava e eu ficava parada, só ouvindo. E até esquecia do dever de casa. E isso era bem difícil para mim, porque eu amava fazer lição, gostava de ir bem na escola (risos). Mas de fato acontecia alguma coisa naquele som: era a sonoridade, era o batuque... Eu não sei o que era.

Maria Rita fundo cinza - Daryan Dornelles/Divulgação - Daryan Dornelles/Divulgação
Imagem: Daryan Dornelles/Divulgação

Durante a adolescência, quais a eram os sambas que você ouvia?

Eu ouvia rádio popular. Ficava na cozinha, ouvindo o que vinha da vizinha, e o que vinha da própria cozinha. Não lembro exatamente o quê ou quais eram os sambas. E também tinha o Carnaval. Nesta época, eu ficava sentada no chão na frente da televisão, com as pernas cruzadas, hipnotizada pelas baianas e pelas porta-bandeiras. Mais tarde, já morando fora do Brasil, eu me apaixonei por um disco ao vivo do Gilberto Gil. Caçando aqui, na memória, foi o Gilberto Gil - Unplugged MTV (1994). Era o que eu ouvia quando sentia saudade de casa, especialmente os dois ou três sambas que estão ali registrados. Eu nem sabia muito bem o porquê daquelas faixas serem as que eu ouvia, mas instintivamente eu entendia o samba com uma afetividade que me salvava.

Alguém a iniciou no samba ou lhe deu algum disco/fita cassete do ritmo?

Não. Ninguém teve esse momento comigo, não. O samba chegou para mim pelo povo. Quando eu fui conquistando minha independência, passei a pesquisar aqui e ali, toda atrasada na vida (risos). Teve ainda, na adolescência, alguém que me deu uma fita cassete do Grupo Raça. E tinha "O Teu Chamego"!!! Não me lembro quem deu. E não sei se esta pessoa teria me emprestado a fita ou se eu a tomei pra mim? Mais tarde um pouco eu entendi Paulinho da Viola... E segui, timidamente.

UOL - Qual tipo de samba mais a agrada?

Gosto da escola de Zeca, Arlindo, Almir, Fundo de Quintal, Leci Brandão, Paulinho, Monarco, Beth Carvalho...

Além do samba tradicional, você costuma escutar outras vertentes, como o pagode?

Escuto! Hoje em dia, embora eu escute pouca música em geral, escuto para entender a história do samba - comercial e culturalmente. E ouço também para estudar sonoridades, e saber o que os colegas estão produzindo.

UOL - O que você gosta de ouvir da nova geração do samba mais tradicional?

Pretinho da Serrinha, Nego Álvaro, Arlindo Neto, Diogo Nogueira, Os Prettos, Marcelinho Moreira, Fred Camacho, que está gravando um disco incrível - e que não vejo a hora de ser lançado.

Eu entendo que cheguei ao samba com muito respeito à história, aos sambistas. Não cheguei pisando em calo de ninguém

Existem sambas que você escuta quando se sente alegre? Recorre ao samba quando se sente triste?

Para os dias alegres, todos os sambas (risos). Porque o samba, mesmo que traga uma narrativa mais melancólica ou triste, fundamentalmente levanta a alma. Veja, por exemplo, "Coração em Desalinho". Quer história mais triste? Uma traição descoberta, uma perda dolorida. Mas não tem um que não se largue todo quando canto esta música nos shows, e chega as pessoas "chegam" (cantam junto) no refrão! Parece que, de alguma forma, sentimos um alívio na liberdade de gritarmos nossas dores. E o samba proporciona isso. Por isso, sempre digo que sou mais plena e completa por causa do samba é onde a poesia é mais bonita, é onde eu sou debochada e apaixonada e indignada e odiosa e malandra tudo ao mesmo tempo! Já para os dias mais tristes fico com "Lama nas Ruas" (Almir Guineto e Zeca Pagodinho), "Ainda é Tempo para Ser Feliz" (Sombra, Sobrinha, Arlindo Cruz), "Tendência" (Dona Ivone Lara e Jorge Aragão), "É, Pois é" (Almir Guineto, Luverci Ernesto, Luiz Carlos), "Nos Braços da Batucada" (Arlindo Cruz). Samba paras tristezas da vida é o que não falta.

Você é uma cantora de pele branca imersa em um universo de artistas, em geral, negros. Em algum momento isso gerou problemas ou críticas?

Nenhum. Nunca tive problema! Eu entendo que cheguei com muito respeito à história, aos sambistas. Não cheguei pisando em calo de ninguém. E honestamente: eu sinto que o fato de Arlindo Cruz ter "chegado junto" [apoiado], com tanta presença, me deu muita força. Nunca sofri nenhuma cobrança, muito pelo contrário. O samba me acolheu, e me acolhe, e me entende e me carrega, e me explica e me permite. Essa honestidade com a qual eu sempre conduzi minha música, e minha carreira, chega aos sambistas. E fica um entendimento de que eu posso, sim, agregar. Embora eu seja branca.

Acho que o samba representa a realidade maior que temos. A alegria infundada, a capacidade do povo de se reinventar, de sobreviver num dia a dia cruel, desafiador. O samba levanta, sacode, dá a volta.

Arlindo Cruz é sua principal referência no samba? Você teve algum padrinho?

Ele, Arlindo é minha referência. Zeca também é... E, das vozes femininas, Clara Nunes, Leci Brandão... É difícil — talvez impossível — falar em uma principal referência. Até porque eu sou muito grata ao samba e a tudo o que o samba me dá. Eu não sei se eu tenho um padrinho ou madrinha. Mas, se eu puder ousar nesta entrevista, digo que Mart'nália me pegou pela mão e me levou pro samba, me levou pra Lapa (ponto boêmio do centro Rio de Janeiro) pela primeira vez. O primeiro palco de samba onde eu pisei foi com Mart'nália. E, a convite dela, cantei um samba do meu repertório. Eu achei que ela estava doida, mas ela não estava (risos). Seguindo na ousadia, eu diria que o Arlindo seria o meu padrinho, por ter sido ele o compositor que me entregou o primeiro samba do álbum Samba Meu (2007). Isso ainda em 2006, quando o disco ainda nem existia!

Como aconteceu este apadrinhamento?

Fui à casa dele sozinha, num final de tarde, e segui madrugada adentro com Arlindo e família Cruz. Até remédio de dor de ouvido eu pinguei no ouvido da filha dele. Em algum momento, ele pegou o violão, a letra [do samba] e cantou para mim. Ele disse que aquele samba era meu. Falou para que eu fizesse o que quisesse com a música. Era Tá Perdoado. Para o repertório de "Samba Meu, ele enviou mais nove, dez sambas. Destes sambas todos, eu gravei sete (risos).

Você acha que o samba pode representar algum tipo de utopia de Brasil ideal?

Não acho... eu acho que o samba representa a realidade maior que temos. A alegria infundada, a capacidade do povo de se reinventar, de sobreviver num dia-a-dia cruel, desafiador. O samba levanta, sacode, dá a volta. Não entendo como utopia. O Carnaval, sim, eu entendo como utópico... Especialmente pela noção de liberdade que vivemos naqueles dias.

Existe diferença entre o samba feito em SP e RJ?

Este é um assunto polêmico (risos). Eu entendo que, se há diferenças, são diferenças inerentes à realidade e às características de cada cidade, do dia a dia. Os Prettos, de São Paulo, por exemplo, fazem um samba inacreditável, suinguado, inteligente e musical. Eles inventaram uma festa [Quintal dos Prettos] que, na minha humilde opinião, vai entrar pra história do samba de São Paulo. Não dá pra dizer que, por ser feito em São Paulo, é diferente. Mas não tem como ser igual ao do Rio. É genuíno e verdadeiro. Eu não me apego a essas questões, a essas pequenas polêmicas porque eu entendo que isso pode diminuir a força e a importância do samba. Veja o que Beth Carvalho fez com os sambistas: bastava ter talento, ela trazia pra perto. E ela estava certa!

Considera o samba produzido atualmente muito diferente do samba que se acostumou a ouvir?

Acho que as diferenças relacionadas à temporalidade existem. Mas não tanto (risos). Porque tem uma galera que tem a inspiração maior na Velha Guarda do samba. Mas tem também uma galera que modernizou a sonoridade, trazendo elementos do hip-hop norte-americano, com uma linha de baixo mais presente, teclados, maneirismos ao cantar - modificando a linguagem. Porém, fundamentalmente, é samba. Acredito que há casos em que a sonoridade se aproxima demais do pop, mas a proposta artística e estética de cada artista é irretocável. A verdade é que temos um cenário rico, que está crescendo e [o samba] segue lutando num mercado cujo espaço é pequeno.

Você é uma cantora com que circula tanto em quadras de escolas de samba como em palcos com ingressos a preços mais caros. O samba ajudou a criar este caminho entre estes dois públicos?

Certamente. E foi a turnê do "Samba Meu" que fez isso. Aquela temporada de shows me levou fisicamente a lugares que eu não tinha chegado ainda. Durou dois anos e meio, com uma média de 10 shows a cada mês. É um volume de trabalho muito grande, considerando que o CD saiu em 2007 e o DVD, em 2008. Eu devo muito ao samba!

Existe alguma letra ou trecho de samba que a comova de forma mais intensa? Por quê?

"Quando a Gira Girou" (Serginho Meriti e Claudinho Guimarães) é um samba que mexe comigo, profundamente, desde a primeira vez que o escutei no disco do Zeca. E segue me emocionando sempre que o canto, sempre que o ouço. A mensagem vibra muito forte em mim, assim como a melodia. De certa forma, parece que a emoção seria a mesma sem a presença da letra (risos). "Conselho" é outra música que sempre mexe comigo... Porque é a maior verdade [cita versos da letra]: `Tem que lutar | Não se abater | Só se entregar a quem te merecer. | Não estou dando nem vendendo | Como o ditado diz | O meu conselho é pra te ver feliz.´ Serve para tudo, né?

* Esta entrevista faz da série Semana do Samba. Fique ligado para ver outras reportagens aqui no UOL.