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Dois Papas funciona ao retratar papas sofrendo com dramas bem mundanos

Leonardo Rodrigues

Do UOL, em São Paulo

30/10/2019 04h00

Joseph Ratzinger, então papa Bento 16 (vivido por Anthony Hopkins), e Jorge Bergoglio, futuro papa Francisco (Jonathan Pryce), são dois homens com angústias mundanas. O primeiro, prestes a renunciar, sabe que foi conivente com casos de abuso sexual dentro da Igreja Católica. O segundo, querendo abandonar o posto de arcebispo, sofre por ter colaborado indiretamente com a sanguinária ditadura militar argentina dos anos 1970.

O encontro entre os pontífices, que se dá em diversos momentos de Dois Papas, dirigido por Fernando Meirelles, resulta em um filme inteligente, sagaz, culto, reverente e também bem-humorado —especialmente no caso de Francisco. Acima disso, expressa duas igrejas em tensão constante: a conservadora e dogmática, expressa por Ratzinger, que envelheceu rapidamente, e a carismática/"progressista", de Bergoglio, que é tratada como norte.

O resultado desse "embate" real, que estreia dia 20 de dezembro na Netflix: os papas se perdoam, viram amigos e, mesmo sem chegar a um denominador comum claro, concordam sobre a necessidade de renovação. O tom conciliador, que desembocaria na eleição do argentino, é importante no entendimento de um filme que tem direção e diálogos impecáveis, mesmo quando parece pender para peça de propaganda da Igreja.

Anthony Hopkins (papa Bento 16) e Jonathan Pryce (papa Francisco) em cena de Dois Papas - Divulgação
Anthony Hopkins (papa Bento 16) e Jonathan Pryce (papa Francisco) em cena de Dois Papas
Imagem: Divulgação

A ação do filme começa com Bergoglio, segundo colocado no conclave de 2005, viajando à Roma para entregar sua carta de renúncia, já que suas ideias já não se conectavam mais com a do novo papado. Bento, já havia decidido abandonar o cargo, opta por não assiná-la, entendendo que, caso o fizesse, concederia uma vitória simbólica às ideias "modernas" do rival. Uma sinuca de bico.

O que se segue é uma tratativa muito bem amarrada pelo roteirista Anthony McCarten (indicado ao Oscar por O Destino de Uma Nação e A Teoria de Tudo), que colocam Hopkins e Pryce para brilhar intensamente em diálogos poderosos e contraditórios, permeados por flashbacks. Lutando contra velhas ideias e contra si mesmo, o futuro Francisco surpreende ao se mostrar um conservador negando a renúncia de Bento 16, enquanto o então papa, arredio, parece no fundo entender a urgência da mudança representada pelo argentino.

Anthony Hopkins e Jonathan Pryce em foto de Os Dois Papas, da Netflix - Divulgação
Anthony Hopkins e Jonathan Pryce em foto de Os Dois Papas, da Netflix
Imagem: Divulgação

Um dos maiores méritos da direção Fernando Meirelles é revelar os bastidores da renúncia de Ratzinger equilibrando com habilidade os mundos sagrados e mundanos dos papas, sem exageros ou caricaturas. Havia pouca margem de erro. Vez ou outra, atos e falas grandiosas e políticas abrem espaço para bons refrescos humorísticos. Até as santidades são humanas, afinal.

Fácil rir com Hopkins, no esplendor de seu anticarisma, contando uma piada e explicando que, por ser alemã, ela não precisa ser engraçada. Pryce tentando comprar uma passagem aérea por telefone e falhando miseravelmente, já que se apresenta como Jorge Bergoglio morador do Vaticano, também corta o drama de forma natural —tanto que o "causo" é contado duas vezes.

Por fim, com a sucessão decidida no Conclave, os papas selam a amizade e o futuro da forma mais secular possível: assistindo juntos pela TV à final da Copa de 2014, entre a Argentina e Alemanha, após devorarem "junk food". Não importa o resultado, a Igreja e o mundo precisam caminhar unidos. Em tempos de intolerância e de uma instituição em crise, perdendo cada vez mais fiéis para as neopentecostais, não deixa ser um recado consistente.

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