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Estamos perto da distopia retratada em Bacurau? Para elenco, já começou

Leonardo Rodrigues

Do UOL, em Sâo Paulo

29/08/2019 04h00

O cenário é um minúsculo povoado encravado no interior nordestino, em um futuro não muito distante que mais parece o presente. Pelo simples prazer de ver o sangue jorrar, um grupo armado estrangeiro decide invadir o local e dizimar toda a população —crianças e cachorros primeiro—, como se os habitantes fossem apenas alvos móveis em um videogame de realidade aumentada.

Para o elenco de Bacurau, filme que chega hoje aos cinemas brasileiros, todo esse contexto violento e distópico, que conduz a história, não está muito distante de virar realidade. Na verdade, pode já estar acontecendo e sendo noticiado pelos meios de comunicação —nós é que nos acostumamos com ele.

"O mundo tem sido muito violento, e não é de hoje. A Segunda Guerra foi um momento de extrema violência que vitimou dezenas de milhões de pessoas. Mas hoje há um sentimento real de distopia que está mais em linha com o que a gente lia e via nos anos 1980, quando eu era adolescente", diz ao UOL o diretor Kleber Mendonça Filho, que ainda cita abusos cometidos pela Polícia Militar em ações em favelas do Rio.

Cena do filme "Bacurau", dirigido por Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles - SBS Distribution
Cena do filme "Bacurau", dirigido por Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles
Imagem: SBS Distribution

"Acho que a questão da violência, das invasões, dominações, faz parte do que nós somos. Foi assim que nossa sociedade foi construída. Toda sociedade ocidental surgiu tendo como base as invasões. Não se construiu o Brasil. Invadiu-se o Brasil. Dizimou-se uma população que já morava aqui em nome de outra ideia de civilização", diz a atriz Karine Teles.

Em Bacurau, a figura do político surge como uma caricatura, na forma de um prefeito populista, corrupto e insensível ao drama da população, que sofre com falta d'água e mantimentos. Um drama que muitas cidades brasileiras conhecem bem. "Eu, que venho do interior e conheço o sertão do Ceará, sei o que é o coronelismo. Ver pessoas amedrontadas por não estarem de acordo com o vereador, com o prefeito. É uma situação muito assustadora."

A atriz Barbara Colen vai além: as minorias, simbolizadas em Bacurau pelos habitantes do povoado, estão cada vez mais sendo ameaçadas e sofrendo com perseguições. "Não acho que Bacurau é um ponto em que a gente pode chegar. Eu acho que é um ponto em que a gente já chegou, há muito tempo. Existem minorias sendo dizimadas. Tanto nas cidades como nas periferias. A gente vê o genocídio da população negra, genocídio da população indígena."

Cena do filme "Bacurau", dirigido por Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles - SBS Distribution
Cena do filme "Bacurau", dirigido por Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles
Imagem: SBS Distribution

Como transformar esse cenário?

Se a violência está em alta no Brasil e no mundo, praticada por civis e muitas vezes referendada pelos próprios governantes, qual seria a saída viável dessa encruzilhada? Essa é uma questão complexa e que, para a equipe do longa, passa necessariamente por três pontos elementares: investimento em educação, fomento à arte e a necessidade de incentivar o diálogo.

"Precisamos de uma arte forte, porque a arte pode transmitir o pensamento do que aquilo te provoca. Pode fomentar o diálogo. Acho que o Bacurau é um exemplo disso. Pode ajudar as pessoas a contornar essa situação. Ou ao menos instigar a reflexão por meio das camadas que o filme te traz. Mas, claro, isso pode ser uma utopia também", contemporiza o ator Thomas Aquino.

"Para mim, a principal saída é a educação, que é um dos pilares do próprio filme. Através da educação você se entende muito melhor como nação. E é exatamente isso que está faltando no Brasil. O Brasil não está se entendendo. E a base dessa falta de compreensão do país é exatamente a falta de educação", conclui Kleber Mendonça Filho.

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