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Brasil de Bolsonaro tem paralelo com V de Vingança, diz coautor da HQ

Cena de "V de Vingança" (2005) - Reprodução
Cena de "V de Vingança" (2005) Imagem: Reprodução

Ramon Vitral

Colaboração para o UOL

02/08/2019 04h00

Coautor de V de Vingança, clássico dos quadrinhos mundiais lançado entre 1982 e 1989, David Lloyd participa amanhã e domingo da ComicCon RS, em Canoas. E o quadrinista, que desenhou a obra escrita por Alan Moore, vê paralelo entre o futuro distópico protagonizado pelo anarquista revolucionário V com o Brasil de Jair Bolsonaro, os EUA de Donald Trump e o Reino Unido de Boris Johnson.

O quadrinho é ambientado em um futuro pós-apocalíptico do Reino Unido após uma guerra nuclear que devastou grande parte da população mundial. V tem como missão destruir o governo neofascista, LGBTfóbico, racista e fanático religioso que está no poder. A HQ virou filme em 2005, com Hugo Weaving e Natalie Portman no elenco e produção das irmãs Wachowski, diretoras da trilogia 'Matrix'.

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Imagem: Reprodução

Quais seriam essas semelhanças com o mundo atual? "A ascensão do populismo e de líderes oportunistas, é claro", disse o artista. "A exploração para benefícios políticos de um eleitorado desesperado e vulnerável está se espalhando como um contágio".

Hoje aos 69 anos e membro de uma geração de autores nascidos no Reino Unido que revolucionou os quadrinhos britânicos e norte-americanos, Lloyd é figura fácil em eventos de quadrinhos brasileiros. Ele costuma aceitar convites para convenções e festivais no país, e sua última passagem por aqui foi em dezembro do ano passado, antes da posse de Jair Bolsonaro. O que ele tem ouvido falar sobre o atual presidente brasileiro? "Coisas nada boas - e tenho certeza que ouvirei mais quando estiver aí", respondeu Lloyd em entrevista ao UOL.

A máscara de Fawkes

Divulgação/Panini Comics
Imagem: Divulgação/Panini Comics

Partiu de Lloyd a decisão de representar o protagonista de V de Vingança com uma máscara inspirada nas feições do revolucionário Guy Fawkes (1570-1606). Figura lendária do imaginário britânico, Fawkes foi torturado e morto pelas autoridades de seu país após ser capturado enquanto organizava um atentado que explodiria o Palácio de Westminster, sede do Parlamento Britânico.

A esperança de Lloyd em mudar o rumo das coisas está na democracia: "Se ela continuar existindo, uma boia salva-vidas sempre estará à disposição para evitar que nos afoguemos, se tivermos o bom senso de agarrá-la".

Quadrinhos digitais

Desde 2012 o foco maior de David Lloyd tem sido no site Aces Weekly, editora de quadrinhos digitais funcionando como uma espécie de Netflix de HQs originais e inéditas no papel. Ele também se mostra ligeiramente frustrado com o andamento do projeto. O artista disse que o crescimento não é tão rápido quanto ele gostaria e citou como maior obstáculo a resistência do público de quadrinhos às publicações digitais.

"É o mercado mais difícil no ramo dos quadrinhos, se você está produzindo como um negócio sério e não apenas fazendo isso por diversão, como muitos produtores de webcomics fazem", afirmou o autor. "Ninguém trabalhando com isso faz o tipo de sucesso que poderia fazer caso o público leitor de quadrinhos estivesse menos interessado em quadrinhos como objetos colecionáveis e mais interessados neles como uma grande linguagem para se contar histórias, como eles são, podendo ser publicados em qualquer superfície, não apenas em árvores mortas".

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