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Como Papatinho virou o cobiçado produtor por trás de hits de Anitta a Black Alien

Papatinho, Anitta e Ludmilla - Artur Meninea/TV Globo/Divulgação
Papatinho, Anitta e Ludmilla Imagem: Artur Meninea/TV Globo/Divulgação

Maurício Dehò

Do UOL, em São Paulo

24/07/2019 04h00

Papatinho vive no estúdio. São 12h, às vezes 16h diárias atrás da mesa de som, criando beats, gravando, comandando artistas e compondo. O resultado poderia ser resumido a uma semana de abril deste ano, quando seu nome ganhou ainda mais força, em lançamentos que foram do rap raiz ao extremo do pop.

Ele foi o produtor e beatmaker do terceiro álbum de Black Alien, Abaixo de Zero: Hello Hell, e também de Onda Diferente, a faixa de Anitta que mais bombou no álbum Kisses. E estes são só os alguns dos pontos altos de uma carreira que fez do carioca um dos nomes mais disputados do mercado, muito por conta de sua criatividade e sua versatilidade de mexer com rap, funk, pop e o que mais for requisitado.

Aos 32 anos, Tiago da Cal Alves, o Papatinho, ficou conhecido primeiramente pela ConeCrew Diretoria. Ele é um dos integrantes do grupo de rap criado em 2006, que bombou com Chama os Mulekes e Rainha da Pista. Hoje, seu trabalho tomou outro rumo. Ele ainda é da ConeCrew e lançou carreira solo, mas fez da produção seu carro-chefe, montou uma gravadora e cria batidas para artistas brasileiros e norte-americanos.

Queimando CDs

A história do carioca com a música vem lá da adolescência. Seus amigos já faziam algumas rimas, e ele tinha curiosidade em poder participar do processo de fazer música. Diferentemente de hoje, os estúdios caseiros eram raros, era complicado ter equipamento para tal. Foi quando conseguiu um gravador de CDs que sua vida começou a mudar.

"Eu venho do tempo em que baixar música era um troféu, com Napster, Kazaa. Eu sempre fui curioso, gostava de tecnologia, mas não sabia tocar instrumento. Quando consegui esse gravador de CDs, passei a usar aqueles CDs que eu comprava por causa de um single pra montar umas coletâneas. Eu gravava e vendia, arranjava uma grana na escola", conta ele.

Aos 15 anos, ele encontrou um CD com músicas de funk em que havia várias faixas com as gravações separadas: bumbo, caixa, voz. Foi ao baixar um programa e começar a juntar esses sons que ele começou a criar as primeiras batidas, na tentativa e erro e ainda em casa.

Papatinho e a ConeCrew Diretoria - Divulgação
Papatinho e a ConeCrew Diretoria
Imagem: Divulgação

"Com 18 anos, meus amigos estavam escrevendo rap e me falaram: 'Você ainda faz aqueles negócios lá'? Então fomos até um amigo que tinha um estúdio em casa e eu levei meus cinco beats. Olha, se ele tivesse falado que não eram maneiros, eu teria parado ali", admite Papatinho. Mas não.

Os jovens gravaram as músicas, saíram felizes com um CD em mãos e viram um carro com um enorme sistema de som no porta-malas. "Pô, tem como botar nosso CD?", perguntou Papatinho. O dono do carro aceitou. "Foi uma cena mágica. Éramos só eu, um amigo e o dono do carro curtindo no meio da rua", relembra ele, sobre o "show" sem público. "Virei as madrugadas dos próximos dez anos criando música. Acho que desde lá, nunca passei mais que cinco dias sem abrir uma sessão de gravação".

Da ConeCrew pro mundo

A ConeCrew Diretoria cresceu com Chama os Mulekes, com direito à elegância do sample de I Put a Spell on You, de Nina Simone, e Rainha da Pista, hits que permitiram ao grupo tocar em grandes festivais, como o Lollapalooza e o João Rock, e ir para a Europa.

O trabalho de Papatinho chamou atenção de gente grande. Marcelo D2 o contatou para os beats de Está Chegando a Hora (Abre Alas), que virou hit. Gabriel, o Pensador fez com ele No Ritmo, no Tempo, e o trabalho de produtor decolou.

Hoje, Papatinho faz visitas periódicas aos Estados Unidos. Fã do rap da Costa Leste, como Snoop Dogg, conheceu e trabalhou com o astro, que está em Onda Diferente, de Anitta - faixa ainda conta com Ludmilla. Tudo começou em uma viagem com a namorada, em que o plano era ir à Disney.

Ao chegar lá, Papatinho foi convidado para ir a uma rádio para conhecer o produtor Scoop DeVille, parceiro de Snoop Dogg, Kendrick Lamar, 50 Cent e outros, e deixou Mickey Mouse e companhia de lado. No encontro, eles "mediram forças".

"Eu mostrei um beat, ele botou outro, e a gente foi se alternando. E percebi que o que ele fazia, eu conseguia também. Depois, trocamos e-mail, comecei a mandar beats e hoje a cada três meses vou produzir coisas lá. Já estive em estúdio com o Snoop Dogg, com Travis Barker (Blink 182)", conta Papatinho, cuja conquista mais recente foi uma parceria com o The Game:

Segredos do workaholic

Papatinho figura entre os famosos e um dia pode ser visto em foto com Kevin O Chris, cada um com seus cãezinhos, e em outro entre Anitta e Pedro Scooby em uma festa junina. Mas o foco segue no estúdio. Ele estima ter 40 lançamentos neste ano, numa ampla gama de gêneros e de personalidades. Este último item é um dos mais importantes para ele.

Papatinho entre Anitta e Pedro Scooby em uma festa junina - Reprodução/Instagram
Papatinho entre Anitta e Pedro Scooby em uma festa junina
Imagem: Reprodução/Instagram

"Aprendi isso trabalhando em seis caras na ConeCrew. Tinha que ir gerindo as pessoas, para saber como agregar. Por que se você não souber lidar, você incomoda os artistas. Então, na ConeCrew eu tinha de descobrir como lidar com cada um. Uma vez, precisava cortar um verso, e fiz uma metáfora com a edição de um filme", explica o produtor. "Trabalhar com o Black Alien é uma coisa, porque ele vinha de um momento complicado de vida, e era preciso lidar com isso. Já a Anitta é outra coisa, uma menina, superstar. É um trabalho de psicólogo", explica o produtor.

Além do trato com artistas, a versatilidade é outro diferencial de Papatinho. "Os artistas gostam disso, principalmente fora do Brasil. Eles amam a levada da percussão. Música não é só para passar mensagem. É uma maneira de passar emoção. Tudo isso é arte", diz ele. O uso de sintetizadores e de samples virou uma marca registrada, criando uma identidade para o produtor.

O maior aprendizado veio de seu grupo original. "Com a ConeCrew, eu produzia tudo, e dali eu estudei tudo que podia do meu segmento e ampliei o leque para trap, R&B, funk. A ConeCrew foi pioneira, numa época que a internet estava começando a bombar mais, e me abriu todas as portas", explica Papatinho. "Com certeza esse é o melhor ano da minha carreira, indo de gravar um boom bap com o Black Alien para o extremo do pop com a Anitta. É engraçado que quando chega fã, eu não sei por qual música ele vai elogiar."

Produtor, beatmaker e líder da gravadora Papatunes, Papatinho também tenta emplacar seu nome em versão solo, como fizeram Dennis DJ e Khaled. O EP Rio, lançado neste ano, conta com quatro faixas, com parcerias com Kevin O Chris, Ferrugem e outros, e já totaliza mais de 33 milhões de views no YouTube e rendeu uma turnê na Europa, abrindo para a britânica IAMDDB.

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