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Como a música de O Rei Leão foi um capítulo espinhoso para a Disney

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Imagem: Reprodução

Maurício Dehò

Do UOL, em São Paulo

08/07/2019 04h00

A Disney sempre tentou manter uma imagem imaculada, preservando seu nome para um público família. Deu certo na maior parte do tempo e segue em pauta, com iniciativas mais comprometidas com a diversidade. E, às vésperas do blockbuster O Rei Leão voltar aos cinemas em forma de live-action, um documentário explora a fundo uma das manchas na biografia do estúdio: uma polêmica com a música The Lion Sleeps Tonight.

Mais um capítulo da série Remastered, da Netflix, que traz documentários musicais com desenlaces sociais e políticos, O Rei Leão e o Músico Esquecido conta como aquele "auimauê" que gruda na cabeça tem origem mais antiga do que se pensa e, principalmente, como as pessoas que deveriam ganhar pelos direitos da música ficaram desprovidas da bonança que a canção proporcionou para gravadoras nos EUA.

Um dos problemas é o tempo: a canção é muito antiga. O documentário narra a experiência de Rian Malan, um excêntrico jornalista e historiador branco, que sempre sentiu culpa pelo apartheid sul-africano e, individualmente, resolveu trabalhar para compensar pelas dificuldades raciais do país.

A música original, chamada Mbube (que significa leão, e depois virou em sua versão mais famosa Wimoweh), foi escrita em 1939 por Solomon Linda, um homem do povo Zulu, que no improviso criou as melodias em falsete que ficaram tão famosas. Na década de 1950, a gravação chegou a Nova York pelo grupo Weavers e fez mais sucesso com artistas diferentes, como o grupo Tokens, e no cinema, com O Rei Leão.

Solomon Linda é o homem alto, à esquerda - Divulgação
Solomon Linda é o homem alto, à esquerda
Imagem: Divulgação

Nos anos 1990, Rian Malan descobriu a origem da música e se deu conta de que as herdeiras de Solomon Linda viviam na pobreza na África do Sul.

O compositor morreu em 1962 e nunca teve contratos que fizessem jus ao seu papel em relação à música, complicando a vida dos familiares. Linda não teve nem chance de uma lápide para seu túmulo, já que sua mulher na época não podia bancar.

Sucessão de erros

Dirigido por Sam Cullman, o documentário traz um trabalho interessante de mostrar com riqueza de imagens como The Lion Sleeps Tonight foi e voltou no interesse popular, até explodir com O Rei Leão, tanto no cinema quando na montagem feita para a Broadway do filme. E também mostra como um caso de diretos autorais não é tão simples como parece.

"Eu experimentei alguns obstáculos na produção. E, conforme fomos descobrindo a história, tivemos de seguir a verdade, e não nossos corações", diz ele. Isso quer dizer que uma versão simplista de que Linda foi "roubado" não existe. O músico teve decisões infelizes e praticamente abriu mão dos direitos que tinha, caindo na conversa de empresários.

Em resumo: não havia um contrato para Wimoweh até a canção ficar famosa nos EUA, em 1952. No primeiro contrato, Solomon Linda já levou a pior, uma vez que a sua gravadora permitiu que George David Weiss, dos Tokens, ficasse com quase todo o dinheiro arrecadado pela canção.

Quando chegou a O Rei Leão, a situação tomou nova proporção. Já na década de 1990, Malan assumiu o papel de contratar advogados e tentar investigar tudo que podia sobre direitos autorais. Foi só em 2004 que a família de Linda entrou com um processo de US$ 1, 6 milhão (à época) contra a Disney, enfrentando o rico aparato do estúdio.

Um dos advogados sul-africanos encontrou uma lei de 1911, da época imperial britânica, que dizia que os direitos deveriam ser revertidos para a família do compositor 25 anos após sua morte. Mas como a Disney é norte-americana, os processos foram feitos em cima de tudo que a companhia tinha direitos na África do Sul, incluindo os personagens de outros desenhos. Se a Disney não pagasse, eles ficariam com os direitos de Mickey Mouse e Pato Donald, por exemplo.

O acordo - e os problemas

A pressão sobre a Disney foi grande por esse caso, principalmente por ser uma empresa poderosa contra-atacando com toda a força uma família simples, que vivia na periferia e sequer falavam inglês. E a brecha fez o estúdio fechar um acordo. Assim, sigilosamente, a Disney e os advogados da família Linda combinaram um valor nunca revelado - nem mesmo no documentário lançado neste ano.

O jornalista Rian Malan - Divulgação
O jornalista Rian Malan
Imagem: Divulgação

O fim do documentário da Netflix mostra um fim não tão feliz, com novas disputas. As filhas de Solomon sempre tiveram auxílio para cuidar do dinheiro do acordo, e foi aí que novos problemas surgiram, com direito a trocas de acusações: os mantenedores do fundo dizem que elas gastaram o dinheiro, enquanto elas dizem que pouco recebiam, acusando-os de desviar a grana.

Malan afirma que repassou todos os documentos disponíveis e que não encontrou fraude nos fundos. Já longe do tema O Rei Leão, ele encerra falando de política e sociedade, a base dos episódios da série de documentários da Netflix:

"Sou um cara que tem como oxigênio a verdade e tive de dizer: 'Desculpem desapontar a família, mas não achei nenhuma fraude'. Essa história não é sobre crimes grandiosos, mas sobre desencontros e expectativas frustradas. Infelizmente, as coisas na África do Sul terminam assim. As pessoas ainda não confiam umas nas outras e qualquer discussão pode virar algo sobre raça. Nada nesse país foi resolvido."

Estima-se que as filhas de Solomon receberam US$ 250 mil cada no acordo, que se encerrou no fim de 2017. A música será usada no remake de O Rei Leão, mas agora elas não têm mais direitos a receber.

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