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Morre aos 88 anos João Gilberto, o pai da bossa nova

Do UOL, em São Paulo

06/07/2019 16h29

O cantor e compositor João Gilberto, considerado o pai da bossa nova, morreu hoje, aos 88 anos, no Rio de Janeiro. A informação foi confirmada por familiares do músico, como o filho Marcelo Gilberto e a neta Sofia, em mensagens publicadas nas redes sociais. A causa da morte ainda não foi divulgada, mas sabe-se que ele enfrentava problemas de saúde há alguns anos.

Baiano de Juazeiro, João Gilberto lançou discos clássicos como Chega de Saudade (1958), O Amor, o Sorriso e a Flor (1962) e Getz/Gilberto (1964), que revolucionaram a maneira de tocar violão e influenciaram gerações de artistas.

"Meu pai morreu. Sua luta foi nobre, ele tentou manter a dignidade à luz da perda de sua soberania", escreveu Marcelo Gilberto, em inglês, em seu perfil no Facebook.

"Tristeza, tristeza, profunda tristeza. Tudo que ele queria era estar aqui conosco e brincando com sua netinha, nos pedia isso todos os dias, uma coisa muito simples, momentos felizes que foram negados a ele", escreveu Adriana, mulher de Marcelo.

"Meu vovô foi o vovô mais amoroso e carinhoso que eu podia ter tido. Pedia pra eu ir pra lá todos os dias e quando estava tarde da noite e já estava na hora de eu ir embora, depois de eu já ter passado o dia todo com ele, falava: 'Mas já vai? Dorme aqui!'", escreveu a neta Sofia na página do Facebook mantida pela mãe.

Conhecido pelo temperamento difícil, João Gilberto estava há décadas recluso, não dava entrevistas e não recebia ninguém em casa, a não ser familiares. O cantor e compositor completou 88 anos no último dia 10 de junho. Uma das "organizadoras" da festança foi Sofia, que preparou brigadeiros para o avô.

Além de Marcelo Gilberto, ele deixa as filhas Bebel e Luisa.

João Gilberto completou 88 anos com a família e neta Sofia, em seu colo; à esq., a nora Adriana Magalhães e, à dir., Alice, filha de Adriana - Reprodução/Facebook
João Gilberto completou 88 anos com a família e neta Sofia, em seu colo; à esq., a nora Adriana Magalhães e, à dir., Alice, filha de Adriana
Imagem: Reprodução/Facebook

Interdição judicial

Desde o ano passado, ele estava sob interdição parcial, ou seja, não podia viver a plenitude de seus atos e direitos. A filha Bebel movia desde 2017 um processo de interdição do pai, motivada pela idade avançada e pela precária situação financeira em que ele vivia --ele chegou a ser despejado do apartamento onde morava no Leblon, zona sul do Rio de Janeiro, por dever anos de aluguel.

Em abril de 2018, de acordo com uma reportagem de O Estado de S. Paulo, a Justiça autorizou o arrombamento do apartamento, acatando requerimento de Bebel para verificar o estado de saúde do músico e para que ele pudesse ser citado formalmente no processo de interdição.

A ação tinha o objetivo de afastar Cláudia Faissol, ex-companheira do músico, do controle da vida de João. O caso corre em segredo de justiça na 5ª Vara de Órfãos e Sucessões do Rio.

Trajetória

João Gilberto de Prado Pereira de Oliveira nasceu em Juazeiro, no sertão baiano, em 1931. Com 18 anos mudou-se para Salvador, onde se tornou crooner da Rádio Sociedade da Bahia. Em 1950 foi para o Rio de Janeiro e fez parte de alguns conjuntos musicais, mas foi expulso por indisciplina.

Em 1958, fez participação como violonista no disco de Elizeth Cardoso, com canções de Tom Jobim e Vinícius de Moraes. Em março de 1959, lançou Chega de Saudade, considerado por muitos o marco inicial da bossa nova. No disco, João abriu um novo caminho para um novo estilo de tocar violão, com uma batida e uma harmonia diferentes e o canto doce que influenciou, como disse Tom Jobim, "toda uma geração de arranjadores, guitarristas, músicos e cantores".

Dois anos depois, lançou "O Amor, o Sorriso e a Flor", da faixa "Samba de Uma Nota Só". Em 1962, dividiu o palco com Vinícius de Morais, Tom Jobim e o grupo vocal Os Cariocas. Apresentou-se no Festival de Bossa Nova, no Carnegie Hall de Nova York, onde fixou residência e lançou vários discos de sucesso, como a parceria com Stan Getz, Getz/Gilberto, de Garota de Ipanema, pelo qual recebeu um Grammy de melhor álbum em 1965.

Apresentou-se em festivais e grandes casas de espetáculo, da Europa ao Japão, e fez parcerias ao redor do mundo. Em 1980, voltou a residir no Rio de Janeiro. Os últimos discos de João Gilberto foram João, Voz e Violão (2000), que recebeu o Grammy na categoria best world music album, e o João Gilberto in Tokyo (2004).

Depois de longo período fora dos palcos, em 2008 apresentou-se no Teatro Municipal do Rio de Janeiro, celebrando 50 anos da bossa nova.

João foi casado com as cantoras Astrud Gilberto e Miúcha --irmã de Chico Buarque, que morreu em dezembro do ano passado, aos 81 anos-- e com Cláudia Faissol, sua empresária.

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