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5 "histórias secretas" do pop brasileiro reveladas na série de André Barcinski

Chacrinha e Gretchen no Cassino do Chacrinha - Geraldo Modesto/TV Globo
Chacrinha e Gretchen no Cassino do Chacrinha Imagem: Geraldo Modesto/TV Globo

Leonardo Rodrigues

Do UOL, em São Paulo

17/06/2019 04h00

Eles não estão nas capas de disco nem são citados nas fichas técnicas dos encartes, mas foram determinantes para a construção das sonoridades e dos caminhos percorridos pela indústria musical brasileira entre os anos 1970 e 1990.

Esses músicos, produtores e empresários, verdadeiros "outsiders" do nosso show business, são os personagens principais da série documental História Secreta do Pop Brasileiro, dirigida pelo jornalista André Barcinski e um dos destaques da programação do festival In-Edit.

Dividida em oito capítulos de 25 minutos, a produção mergulha nas entranhas da nossa música, resgatando histórias e figuras que, apesar de terem figurado por anos no imaginário pop coletivo, jamais obtiveram o devido reconhecimento.

Com narração de Arrigo Barnabé, a série também pode ser vista como um "acerto de contas" com uma época de ouro, quando o Brasil ostentava um mercado fonográfico rico, pujante e estruturado --ainda que de forma mambembe.

"Quando comecei a entrevistar essas pessoas para o meu livro 'Pavões Misteriosos', percebi que ali havia pequenas completamente negligenciadas. Um monte de pessoas que fizeram coisas interessantes, diferentes, que foram devidamente pesquisadas', diz ao UOL Barcinski.

Veja a seguir quatro histórias que fazem valer o documentário, que estreia hoje no CineSesc, em São Paulo, e já começou a ser disponibilizado gratuitamente na plataforma pública Spcine Play.

Gravadoras nanicas criaram "estrangeiros falsificados"

Nos anos 1970, época em que pop romântico reinava nas rádios americanas, houve um movimento de pequenas gravadoras nacionais, que não tinham dinheiro para licenciar grandes artistas, para suprir essa demanda com um "jeitinho brasileiro": lançar cantores daqui com nomes e letras em inglês. Abraçadas pelas trilhas de novela, as músicas dos "falsos gringos" fizeram muito sucesso no país, como "Feelings", de Morris Albert (o carioca Maurício Alberto).

Eles eram vendidos como estrangeiros e proibidos de dar entrevistas. Nomes famosos começaram "disfarçados" assim, entre eles Fábio Jr. (Mark Davis), Jessé (Tony Stevens) e Michael Sullivan --nome de batismo, Ivanilton de Souza. O fenômeno corria paralelo ao dos "clones" --brasileiros que faziam covers internacionais usando nomes artísticos semelhantes. O documentário resgata a história de Prini Lopez, versão brasileira de Trini Lopez.

Fábio Jr. nos tempos de Mark Davis - Reprodução
Fábio Jr. nos tempos de Mark Davis
Imagem: Reprodução

Composições eram feitas com "dicionário" na mão

O episódio da série sobre os "falsos gringos" ainda explora um grupo, a banda paulistana Pholhas, que começou executando covers e, para se lançar nesse mercado de sotaque inglês, também começou no idioma. Eles conquistaram relativo sucesso na década de 1970 com pop romântico e editando singles como My Mistake e She Made me Cry.

Havia um detalhe, porém: no início, ninguém da banda dominava o idioma. Para contornar o problema e compor em inglês, os integrantes recorriam a um livro didático que pertenceu ao pai do vocalista Bitão. "Pegava-se esse 'dicionário', se olhava a página, corria-se o dedo e se parava numa frase. Por exemplo: 'O que faz uma ratoeira em frente à minha porta? [Virava] What does the mousetrap in front of my door?", lembram os Pholhas.

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Imagem: Reprodução

Você pode até não saber quem é, mas já ouviu muito

O que há em comum entre músicas de sonoridade tão díspare quanto O Boi Vai Atrás (de João da Penha), Fuscão Preto (com Almir Rogério), Feelings (Morris Albert) e É o Amor? (Zezé di Camargo e Luciano)? Todas elas foram gravadas pelo grupo paulista Os Carbonos, verdadeiros mestres do ofício do estúdio. Por cerca de 30 anos, eles foram a banda mais atuante do país, lançando discos próprios, com pseudônimos ou tocando para outros artistas.

Pioneiros nacionais do segmento "banda cover" --daí o nome Carbonos-- e posteriormente produtores e proprietários de estúdio, eles não tomaram nota de todos os trabalhos feitos, mas estima-se que tenham gravado mais de cem discos próprios. Como banda de estúdio, segundo o documentário, o número chega a "milhares, incontáveis discos dos mais variados estilos".

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Como a cantora Céu pôs Djavan em "Superfantástico"

O hino infantil Superfantástico, do Balão Mágico", é uma cover de uma música italiana composta por Ignácio Ballesteros e Difelisatti. A versão brasileira foi criada por Edgard Poças, compositor ligado à bossa nova e pai da cantora Céu. O sucesso por pouco não veio. A CBS apostava as fichas em Juntos, também incluída no disco A Turma do Balão Mágico (1983). O presidente da gravadora, Tomás Munhoz, odiou a original em italiano.

"Tinha uma pasta com um monte de fitas K7 que me deram, e eu resolvi ouvir a que continha uma música que eles não tinham gostado. Era Superfantástico", lembra Poças, que no mesmo dia começou a compor a versão pensando em convidar Roberto Carlos, mas desistiu com receio de uma negativa. "Aí fui no quarto da Céu e vi um bonequinho que parecia o Djavan". Djavan aceitou.

Uma curiosidade: em um trecho da letra, as crianças do Balão chamavam o cantor pelo nome, mas, de última hora, ele foi substituído pela pela palavra superfantástico. Poças também tinha medo de Djavan recusar a participação.

Nome Gretchen é inspirado no cinema nacional

A hoje rainha da internet já foi rainha do movimento "bunda music", moldado pelo lendário produtor argentino Mister Sam. Foi ele quem colocou Gretchen, também uma "falsa gringa", para cantar em estúdios e rebolar na TV. "[Ele dizia] 'Não quero que você cante. Quero que você esqueça que é uma cantora. Quero que você dê uns gritinhos, que você faça uns sussurros. Que faça uns gemidos e canto básico'", explica Gretchen no documentário.

Era o final dos anos 1970 e, adolescente, ela ainda atendia por Maria Odete Brito de Miranda. Gretchen foi incumbida de sugerir seu nome artístico. Ela pensou em Jessica e Natalia, entre outras alcunhas, mas nenhuma delas satisfez Sam e gravadora. "Já estava cansada de escolher nome, já não sabia mais o que queria", conta ela.

"Aí um dia estava no ônibus passando pela praça da República [centro de São Paulo] e vi anunciado Aleluia, Gretchen [premiado filme de 1976 do diretor Sylvio Back, estrelado por Carlos Vereza]. Falei 'nossa esse nome é superdiferente'. Só que quando cheguei lá, eles odiaram a ideia. Disseram que ninguém ia conseguir falar, que ninguém ia conseguir lembrar. Mas no fim Gretchen deu certo."

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