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Clarice Falcão se despe do humor e canta sobre depressão em novo álbum

Pedro Pinho/Divulgação
Clarice Falcão lança seu terceiro disco, Tem Conserto Imagem: Pedro Pinho/Divulgação

Maurício Dehò

Do UOL, em São Paulo

2019-06-13T04:00:00

13/06/2019 04h00

Na última semana, foi ao ar o novo trabalho de Clarice Falcão nas telas, com a série Shippados, da Globo Play, em que vive uma jovem naturista e aparece algumas vezes com o corpo nu. Hoje, na música, ela lança seu terceiro álbum, Tem Conserto, em que ela se despe de outra forma: o nude agora é da alma.

Além da fama no Porta dos Fundos, Clarice fez sucesso como cantora desde o primeiro disco, Monomania (2013), com um pop/folk marcado pelas letras bem-humoradas, cheias de tiradas inteligentes e ironias, assim como se viu no segundo, Problema Meu. E, apesar de já haver uma dose biográfica naqueles trabalhos, nenhum chegou tão longe quanto Tem Conserto, com um conteúdo mais profundo, em que ela fala de como lida com ansiedade e depressão desde a adolescência.

Minha cabeça me faz
Crer que eu sou doida
E aí, me deixa doida
Vê só, a ironia

O trecho é de Minha Cabeça, que abre o álbum e dá tom a ele. Se os discos anteriores tinham músicas com banda, violão, sopros e metais, agora é o eletrônico que comanda a sonoridade. Na letra, uma Clarice que deixa de lado o humor como um escudo para se preservar.

"O humor tem um lado que é uma proteção, se você fala tudo com certa ironia, não está totalmente vulnerável. Neste disco eu tentei estar vulnerável. Ainda tem humor, porque é como enxergo o mundo e me comunico. Mas sinto que não me protejo tanto nele, naquele lance de 'sou doida, mas é piada'. Eu realmente falei sobre o que passei", disse Clarice, em papo por telefone com o UOL.

Pedro Pinho/Divulgação
Imagem: Pedro Pinho/Divulgação

Clarice não renega os discos anteriores, pelos quais ainda têm grande apreço, mas se sentiu na necessidade ir para além das "piadas fofinhas com um violãozinho". "Nos anteriores tinha muito de narrativa e piada, que partiam de lugares reais, mas iam para um lugar de exagero. Por isso que digo que o humor é um escudo. Eu deformava a realidade, até ela ficar engraçada e as pessoas perceberem que não era possível aquilo acontecer."

Além de se sentir num momento mais confortável para falar de si, a própria produção do disco contribuiu para isso. Feito em parceria com o produtor Lucas de Paiva (Alice Caymmi, Mahmundi, Silva), ela pôde se inserir no mundo da música eletrônica, que vinha curtindo nos últimos anos, gravando no tapete de sua casa, num ambiente bem mais intimista.

"Eu já tinha composto algumas letras e esse disco só podia ser feito assim. Elas são muito pessoais, seria muito doido botar uma banda enorme por trás, antes de eu entender o que eram aquelas músicas que falam de assuntos tão meus", explica a cantora.

Ansiedade e depressão

O tema da saúde mental é velho conhecido. Clarice conta que teve problemas deste tipo em gerações anteriores de sua família. "Aos 16 anos, tive minha primeira crise de depressão e fui entendendo que era assim também. Convivo bastante com isso, de ter épocas em que estou mais ansiosa, e épocas em que estou mais deprimida. Lembro [na adolescência] de de passar algumas semanas na cama, sem conseguir levantar, com muita depressão, tristeza, e sem muito motivo", diz Clarice.

Pedro Pinho/Divulgação
Imagem: Pedro Pinho/Divulgação

Tive sorte de estar numa família que me entendia. Muita gente acha que é corpo mole, drama... Isso nunca curou de vez em mim. Mas você vai se conhecendo e hoje dá para conviver com isso de uma forma mais pacífica

Com o lançamento dos primeiros singles, ela já teve retorno de quem passa pela mesma situação. "Me alegra saber que não estou sozinha. Quando canto algo e as pessoas entendem, é muito legal. E é por aí que prefiro trocar [experiências] com as pessoas."

Clarice conta que a paixão pela música eletrônica é algo que cresceu nos últimos anos, em que ela passou a frequentar shows e festas com esse tipo de música e com conteúdo de resistência. Assim, ela pôde fazer um contraste: nas letras, falar sobre ansiedade de depressão, mas nas batidas e melodias, o clima de pista que queria reproduzir.

"Esse é o disco que que mais tem 'eu': não foi num estúdio, não tinha prazo para entregar, não estava pagando hora. Levou um ano para fazer, mas foi o em que botei mais a mão na massa, sem um produtor e podendo dar o 'play' e 'rec'."

O álbum tem momentos de humor, como Dia D:

Tô com a calcinha boa
Que se salve quem quiser
Esperei semana toda
Hoje vai ter que rolar
Hoje eu vou dar

Além de sua favorita Minha Cabeça, ela destaca como suas favoritas do momento CDJ, que conta a história de uma mulher que se apaixona pelo DJ da balada, Só + 6, e Esvaziou, feita para um amigo que morreu e que também dedica aos avós.

Divulgação
Clarice Falcão e Luis Lobianco em Shippados Imagem: Divulgação

Shippados e o corpo nu

Clarice também falou sobre Shippados, em que atua ao lado de Tatá Werneck, Eduarco Sterblitch e Luis Lobianco. O fato de explorar mais suas liberdades com o corpo combina com o momento do disco.

"Achei maneiro fazer uma personagem que usa o corpo dessa forma, dessexualizada na nudez, tirando o tabu do nosso corpo. Lembro que quando lancei o clipe Eu Escolhi Você [com nus frontais] tive reações positivas, mas muita gente falando que era um absurdo. Hoje passamos por mais debates sobre isso. E foi bom para mim mesma, para a relação que tenho com meu próprio corpo. Afinal, esse é o corpo que eu tenho", concluiu.

Clarice Falcão já tem cinco shows da turnê "Em Conserto" confirmadas. Confira as datas e locais:

28/6 - Cultural Bar - Juiz de Fora
7/7 - Sesc Pompeia - São Paulo
20/7 - Circo Voador - Rio de Janeiro
26/7 - Sesc Palladium - Belo Horizonte
2/8 - Bar Opinião - Porto Alegre

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