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"Black Mirror" perde força e soa ingênua em sua quinta temporada

Cena de "Striking Vipers", da série "Black Mirror" - Divulgação
Cena de "Striking Vipers", da série "Black Mirror"
Imagem: Divulgação

Beatriz Amendola

Do UOL, em São Paulo

06/06/2019 11h43

Desde seu início, em 2011, "Black Mirror" soube como nenhuma outra série captar as nossas ansiedades com a tecnologia e transformá-las em histórias complexas que tinham o efeito de "explodir cabeças" enquanto faziam provocações perturbadoras a respeito da condição humana. Assistir a um episódio da série, principalmente em suas duas primeiras temporadas, significava pensar nele por algumas horas - ou até dias - depois.

Esse aspecto está totalmente ausente da quinta temporada da série, disponibilizada ontem pela Netflix. Seus três episódios entretêm, mas soam até ingênuos frente a tudo o que nos foi apresentado anteriormente pelos criadores Charlie Brooker e Annabel Jones - e empalidecem ainda mais se colocados frente a frente com a nossa distopia tecnológica da vida real, nos últimos anos povoada por escândalos como a influência da Cambrigde Analytica e do Facebook nas eleições presidenciais americanas de 2016.

Da nova leva, a grande semelhança com os primórdios na série está no número de episódio: são apenas três, já que a experiência interativa de "Bandersnatch", lançado ao fim do ano passado, manteve a equipe da produção significativamente mais ocupada. No entanto, o número reduzido de episódios não se reflete em um maior cuidado com os roteiros, que poderiam ser mais bem desenvolvidos ou, ao menos, mais enxutos.

Dos três, o mais forte é "Striking Vipers", sobre dois amigos - Anthony Mackie, de "Capitão América" e Yahya Abdul-Mateen II, de "Aquaman" - que se reconectam em um jogo de luta em realidade virtual e vêm a amizade seguir por um caminho inesperado. É uma trama que levanta discussões interessantes sobre identidade, sexualidade e romance, mas que se arrasta demais em certos momentos e não chega nem perto do carisma do aclamado "San Junipero", a mais bem-sucedida investida de Brooker no gênero.

Já "Smithereens" é centrado em um homem (Andrew Scott) que sequestra o estagiário de uma grande empresa de tecnologia para falar com seu CEO, à la Mark Zuckerberg (Topher Grace). As ótimas interpretações dos dois atores, porém, não salvam o episódio do roteiro previsível e da crítica extremamente superficial, para não dizer risível, à nossa relação de dependência com as redes sociais.

Há, enfim, "Rachel, Jack and Ashley Too", que provavelmente ficará marcado como "o episódio de Miley Cyrus". Conduzido por uma performance inspiradíssima da atriz e cantora, ele é divertido e bem-humorado, mas também sofre com a recusa a se aprofundar em suas boas ideias.

No fim das contas, a quinta temporada de "Black Mirror" passa a impressão de ter deliberadamente fugido das provocações contundentes que tornaram a série tão relevante. Ela pode ser resumida, na melhor das hipóteses, como esquecível - um pecado grave para uma produção que ficou marcada por suas ousadias narrativas e que soube captar o zeitgeist como poucas.

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