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José Padilha diz que Moro virou "moeda de troca" e compara caso a "goleiro Bruno"

Netflix / Bruna Prado
O diretor José Padilha no lançamento da segunda temporada de "O Mecanismo" Imagem: Netflix / Bruna Prado

Beatriz Amendola

Do UOL, no Rio

2019-05-07T11:05:41

07/05/2019 11h05

O diretor José Padilha voltou a criticar o ministro Sérgio Moro e disse que ele se tornou uma "moeda de troca" no governo do presidente Jair Bolsonaro.

Durante evento para promover a nova temporada de "O Mecanismo", série da Netflix inspirada na Operação Lava Jato, o cineasta afirmou que o ministro, que era o juiz responsável pelas investigações, acabou sendo usado pelo governo.

"Salame fatiado"

"O Bolsonaro não tem maioria no congresso e está negociando para aprovar as reformas", disse Padilha. "E ele está usando o Moro como moeda de troca. Moro saiu de herói nacional para salame fatiado e entregue para o centrão para aprovar a reforma da Previdência. É assim que vejo o futuro da Lava Jato".

"Se [Moro] for inteligente, deve estar arrependido das escolhas que fez", completou.

Em artigo para a Folha, em abril, Padilha afirmou que o pacote de Moro contra o crime fortalece milícias. "Vai estimular a violência policial, o crescimento das milícias e sua influência política. Sergio Moro foi de "samurai ronin" a "antiFalcone". Seu pacote anticorrupção é, também, um pacote pró-máfia", escreveu o diretor.

Goleiro Bruno

Questionado sobre o retrato que a série faz de Moro, personificado no personagem Paulo Rigo, Padilha evocou uma comparação com o goleiro Bruno, e disse que a ficção segue uma linha do tempo semelhante à da vida real.

"Quando o Bruno agarrava os pênaltis, eu não podia criticá-lo pelo homicídio que não aconteceu antes. A mesma coisa vale pro Moro. Eu estou contando as coisas que ele fez no começo da Lava Jato. Na primeira temporada a gente não cobre o vazamento da conversa do Lula com a Dilma, porque não tinha acontecido ainda, mas colocamos isso na segunda temporada".

"O PT roubou"

Padilha também deixou claro o que pensa da política atualmente. "Eu sou antipetista, sou antipessedebista e antipeemedebista. O Lula não escreveu "O Capital", não é Karl Marx. Ele traiu a esquerda ao apresentar um projeto que foi bom, mas ao mesmo tempo claramente entrou no mecanismo. Alguém aqui acha que o Palocci não roubou? Acha que o Dirceu não roubou? Eu não sou antiesquerda, sou antipetista porque o PT roubou", disse o diretor.

"Quem elegeu o Bolsonaro foi o fato de a esquerda não entender o antipetismo. O Haddad era o candidato do Lula, que estava enfiado na Lava Jato. Era um candidato inviável", completou Padilha.

Ele também fez uma previsão pessimista para o país após a eleição de Jair Bolsonaro. "Não sei se o Brasil vai durar 100 anos, com esse governo..."

A segunda temporada

O Mecanismo volta para a segunda temporada nesta sexta-feira, na Netflix. Os novos episódios se passam após a força-tarefa liderada por Verena (Caroline Abras) prender 12 dos 13 principais empreiteiros do Brasil. O alvo da nova temporada é o maior de todos eles, Ricardo Brecht (Emilio Orciollo Netto).

Já Ruffo, o policial aposentado interpretado por Selton Mello, segue agindo fora da lei em sua busca por Ibrahim (Enrique Diaz), e cada vez mais afastado de sua esposa Regina (Susana Ribeiro) e da filha Beta (Julia Svaccina).

"Mecanismo são todos eles"

Padilha ainda rebateu as críticas de que teria sido demasiadamente parcial ao retratar os eventos da primeira temporada de "O Mecanismo", que causou controvérsia com seus retratos de personagens análogos aos ex-presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff.

"Todo mundo sabe que o mecanismo são todos eles", disse o cineasta, citando PT, PSDB e PMDB. "Entre as condições necessárias que alguém tem que satisfazer para chegar à presidência no Brasil, está participar do mecanismo. É uma seleção natural ao contrário. Selecionamos os piores"

"Minha opinião de que o mecanismo é apartidário não mudou, e as evidências são claras de que isso é verdade".