Topo

Vingadores


Acredite, há ciência de verdade por trás do plano dos Vingadores para derrotar Thanos

Gavião Arqueiro, Homem-Formiga e Nebulosa se preparam para viajar no tempo - Divulgação
Gavião Arqueiro, Homem-Formiga e Nebulosa se preparam para viajar no tempo Imagem: Divulgação

Salvador Nogueira

Colaboração para o UOL

03/05/2019 04h00

ATENÇÃO: O TEXTO A SEGUIR CONTÉM SPOILERS DE "VINGADORES: ULTIMATO"

O plano dos heróis para derrotar Thanos em "Vingadores: Ultimato" parece saído da mais desvairada ficção científica que existe -- a ciência de verdade. As referências que o filme faz à mecânica quântica, por incrível que pareça, são pertinentes e oferecem ao menos alguma credibilidade à ideia de viagem no tempo.

Agora, antes de prosseguirmos, é importante dizer que o uso da mecânica quântica só faz sentido para viagens no tempo porque a própria mecânica quântica não faz sentido algum -- é preciso jogar fora tudo que você considera intuitivamente correto ao adentrar o mundo das partículas elementares.

Abra a sua mente

É tentador pensar nas menores partículas que compõem tudo que conhecemos -- os átomos e seus subcomponentes entre eles -- como pequenas bolinhas que viajam para lá e para cá pelo espaço. Mas o que o estudo do comportamento das partículas nos ensinou é que elas são tudo menos bolas de bilhar em miniatura obedecendo às leis de movimento convencional.

O que a teoria diz, na verdade, é que uma partícula qualquer está em todas as posições que ela possa estar ao mesmo tempo, assim como em todos os estados possíveis simultaneamente, e a única forma de fazer com que ela deixe de existir nessa condição conhecida como "sobreposição de estados" é realizar um experimento para observá-la. É a observação que a obriga a virar uma bolinha de bilhar; antes ela era tudo que podia ser ao mesmo tempo.

Achou maluco? Tem mais: se você fizer um experimento para observar com alta precisão a posição de uma partícula, torna-se impossível determinar sua velocidade. Inversamente, se você bola um meio de medir a velocidade, a posição se torna indeterminável. E, se você precisar das duas informações ao mesmo tempo, terá de se contentar em saber apenas vagamente ambas.

Esse é o famoso princípio da incerteza, formulado pelo alemão Werner Heisenberg na década de 1920. Ele dita basicamente que tudo que acontece na mecânica quântica é probabilístico, e não determinístico. Ou seja, se na física clássica, você pode calcular a posição futura de um objeto sabendo como ele se desloca ao longo do tempo, na física quântica você só pode calcular a probabilidade de um objeto estar num dado lugar num ponto futuro, mas nunca prever exatamente como as coisas vão se dar. É como se tudo que acontece no nível quântico fosse sorteado, e só no momento em que se faz uma observação. Nada ali está previamente definido até que alguém faça um experimento. Ou seja, a realidade objetiva não existe até que seja criada pelo observador.

"Deus não joga dados"

AFP
Imagem: AFP

É tão insano que muitos físicos, ao longo da história, acharam que era mesmo insano. Albert Einstein teria dito, em contraposição à mecânica quântica, que "Deus não joga dados". Mas trata-se da teoria mais testada da história da física e ela saiu triunfante de todos os experimentos já realizados. Inclusive de um especialmente pertinente ao caso Thanos, que é o que demonstra o chamado "emaranhamento quântico".

Em essência, a teoria sugere que é possível pegar duas partículas e entrelaçar suas propriedades entre si, de forma que uma se torne ligada a outra. E aí, quando você faz a observação de uma delas, a outra automaticamente sai de sua sobreposição de estados e passa a ter uma propriedade definida, mesmo que ninguém a tenha observado. Detalhe: pouco importa em que lugar do Universo estejam as duas partículas emaranhadas, a medição de uma automática e instantaneamente afeta a outra.

Quem previu esse efeito foi o próprio Einstein, em uma tentativa de demonstrar que a mecânica quântica não podia estar certa. Ocorre que experimentos acabaram demonstrando que isso é real -- "a ação fantasmagórica a distância" de Einstein existe mesmo.

Na prática, isso quer dizer que partículas emaranhadas não respeitam o limite imposto pela velocidade da luz para afetarem uma à outra. O que também significa dizer que elas não estão nem aí para o espaço -- e para o tempo.

Futuro afetando o passado

Homem de Ferro e Capitão América batem um papo no passado - Divulgação
Homem de Ferro e Capitão América batem um papo no passado
Imagem: Divulgação

Quer ver? Em 2012, um grupo de físicos americanos realizou um experimento muito louco, mesmo para os padrões quânticos. Eles conseguiram emaranhar uma partícula no presente com outra que já havia sido destruída, e a medição posterior da partícula que restou acabou influenciando o estado da outra -- no passado!

É o que os físicos chamam de retrocausalidade -- o futuro afetando o passado --, e essa possibilidade está ganhando força entre os estudiosos da mecânica quântica, entre outros motivos porque ela torna o próprio emaranhamento mais palatável. Não seria mais preciso pensar que partículas em lados opostos do Universo poderiam afetar uma à outra, mas apenas que a ação sobre uma retroagiria à outra, com o futuro afetando o passado.

Então, em princípio, parece mesmo uma boa ideia, se você quer afetar o passado, se reduzir até um tamanho em que você possa ser tratado como uma entidade totalmente quântica, e de lá você tentar afetar algo que aconteceu antes. Boa pedida, Homem-Formiga!

Mas...

Bruce Banner/Hulk explicou direitinho a ciência do filme - Divulgação
Bruce Banner/Hulk explicou direitinho a ciência do filme
Imagem: Divulgação

Só tem alguns detalhes que, na vida real, parecem sabotar o plano. O primeiro é que, mesmo com essas instâncias de retrocausalidade, o Universo parece conspirar para manter o processo normal de causalidade (em que causa precede o efeito, a boa e velha lógica da física clássica) ao "esconder" as influências do futuro sobre o passado.

Talvez por isso o Hulk tenha explicado que não seria possível mudar o que já aconteceu, mas apenas introduzir mais influências no passado que gerem um novo desfecho no futuro sem alterar a causalidade original. Bem pensado da parte dele, e vamos combinar que os roteiristas até que fizeram um bom trabalho para emendar (quase) todas as pontas soltas. (Ainda não entendi como a Nebulosa do futuro continuou existindo depois que a do passado morreu, mas isso sou eu.)

O segundo problema talvez seja mais fundamental -- para influenciar o passado de maneira cirúrgica seria preciso driblar o princípio da incerteza. Lembra como na mecânica quântica tudo é probabilidade e nada pode ser predito? Nessas circunstâncias, como seria possível Tony Stark calcular com precisão arbitrária a solução para enviar os Vingadores ao passado? Bem, nada é impossível para aquele cabeção do Homem de Ferro, certo?

Por fim, claro, tem o fato de que não temos a menor ideia de como pessoas feitas de zilhões de partículas elementares poderiam ser encolhidas até se tornarem elas mesmas menores que a menor das partículas existentes, para poderem ser totalmente regidas pela mecânica quântica, e depois infladas de volta a seu tamanho original. Mas como Hank Pym parece ter resolvido essa questão muitos anos atrás, podemos colocá-la de lado e apenas admirar como os escritores da Marvel conseguiram empacotar as ideias mais malucas da ciência moderna numa trama que deu um desfecho espetacular à primeira grande saga de seu universo cinemático.

Mais Vingadores