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Madrinha do samba, sem Beth talvez não houvesse Zeca, Jorge ou Arlindo

Beth Carvalho durante desfile no Carnaval do Rio de Janeiro em 2016 -  Raphael Dias/Getty Images
Beth Carvalho durante desfile no Carnaval do Rio de Janeiro em 2016 Imagem: Raphael Dias/Getty Images

Anderson Baltar

Especial para o UOL

30/04/2019 19h19

Não se pode contar a história do samba sem dar o devido papel de destaque às tias baianas. Em suas casas, na lendária Praça Onze, as primeiras batucadas tiveram lugar e bambas como Donga, Heitor dos Prazeres, Sinhô e Pixinguinha lançaram as bases do gênero musical que mais bem retratou a vida urbana brasileira nos últimos cem anos. Graças a senhoras como Ciata, Prisciliana, Veridiana, Amélia e tantas outras, o samba, vindo dos batuques ancestrais da senzala, ganhou roupagem definitiva. Ao longo de décadas, em meio a perseguições, embates e conciliações, o samba se consolidou como uma marca da cultura nacional. E, em grande parte desses capítulos esteve presente outra mulher fundamental. Sua marca: autenticidade, coragem e ousadia. Não era baiana, nem tia.

Vinda da Zona Sul carioca, Beth Carvalho, que morreu hoje aos 72 anos, entrou para a história como a grande madrinha do samba. Nascida em 5 de maio de 1946, em uma família de classe média, teve contato com o samba desde pequena. Filha de Nair, professora de piano, com o advogado João Francisco, aos oito anos de idade já se maravilhava com as gravações de Sílvio Caldas, Elizeth Cardoso e Aracy de Almeida. Ainda menina, ao assistir ao desfile das escolas de samba, encontrou outro amor definitivo: a Estação Primeira de Mangueira. Porém, seu sonho residia no balé, ao qual dedicou muitos anos de sua juventude.

Na adolescência, inspirada pela bossa nova, começou a tocar violão e virou professora de música. Nesta mesma época, começou a marcar presença nos saraus musicais e a escrever suas primeiras canções. Mesmo envolta no fervilhante ambiente musical universitário carioca, Beth não deixava de frequentar as rodas do samba do Teatro Opinião e do Zicartola. Ao ver Clementina de Jesus se apresentar no antológico espetáculo "Rosa de Ouro", teve a certeza de que o samba era a sua missão.

A jovem cantora conheceria o sucesso em 1968, ao defender "Andança", de Edmundo Souto, Paulinho Tapajós e Danilo Caymmi, e conquistar o terceiro lugar no Festival Internacional da Canção. A música, obrigatória em todos os shows que Beth fez por toda a carreira, deu título ao primeiro álbum da cantora, lançado no ano seguinte.

Cartola e Beth Carvalho: "Ah, minha filha, fiz umas coisinhas aí" - Arquivo pessoal/Beth Carvalho
Cartola e Beth Carvalho: "Ah, minha filha, fiz umas coisinhas aí"
Imagem: Arquivo pessoal/Beth Carvalho
Poucos anos depois, a jovem Beth deu uma guinada em sua carreira: mergulhou fundo no samba, rompendo barreiras e dando voz a gênios esquecidos. Em um lance de ousadia, saiu da gravadora Odeon, que se recusou a gravar um disco de sambas e assinou com a Tapecar. Passou a gravar sambas-enredo, numa época em que apenas homens o fazia. E, de uma forma generosa, aproximou-se de dois grandes gênios de sua Estação Primeira: Cartola e Nelson Cavaquinho, assumindo o papel de madrinha.

Com um raro brilho no olhar, Beth relatava como se deu uma visita que fez à casa de Cartola, no morro da Mangueira. Em busca de repertório para o seu disco, ela perguntou ao compositor se ele tinha alguma novidade. "Ah, minha filha, fiz umas coisinhas aí". Simplesmente tratava-se de "As Rosas Não Falam", hoje, indiscutível clássico da música popular.

O mesmo se deu com Nelson Cavaquinho, de quem gravou "Folhas Secas" e cuidou pessoalmente para que tivesse uma carreira artística.

"Eu sempre pegava no pé do Nelson para que ele tivesse controle de quanto seriam os cachês. Enxerida, não? [risos]. Depois que gravei suas músicas, ele e Cartola passaram a fazer muitos shows comigo e todos ganhavam a mesma coisa que eu. Passaram a gravar um disco por ano, na RCA, que era minha gravadora. casa do Nelson Cavaquinho, que era um horror, passou a ter três andares e terraço"
Beth Carvalho, em entrevista ao UOL em 2015

As antenas do partido alto

Após levar os baluartes aos merecidos holofotes, a varinha de condão da madrinha do samba voltou-se para uma quadra no subúrbio. À beira da linha de trem da Estrada de Ferro Leopoldina, um terreiro recebia uma nova geração de músicos e compositores que, à sombra de uma tamarineira, traziam várias novidades para o samba. Levada pelo ex-jogador Alcir Portela, do Vasco, à quadra do bloco Cacique de Ramos, Beth apaixonou-se pelo novo estilo de partido alto que ali era fermentado. Com novos instrumentos, como o banjo e o tantan e um estilo peculiar de contar o dia a dia de um país ainda em um regime autoritário, a galera do Grupo Fundo de Quintal instituía uma nova ordem para o samba.

E Beth não se fez de rogada. Pegou aquela turma pelo braço e levou para onde fosse. Gravou sucessos como "Vou Festejar" e "Coisinha do Pai" - esta, muitos anos depois, utilizada para acordar um robô em Marte. E o Brasil passou a conhecer talentos como Jorge Aragão, Almir Guineto, Arlindo Cruz, Sombrinha, Bira Presidente, Ubirany e um certo menino magrinho e tímido, vindo do Irajá: Zeca Pagodinho. Uma nova página na história do samba estava escrita, graças às antenas sempre ligadas de Beth Carvalho.

Sem se impor limites e barreiras, Beth Carvalho mergulhou no mundo do samba paulistano, gravando um disco apenas com compositores da "Terra da Garoa" e colocando por terra qualquer argumento de que São Paulo é o túmulo do samba. Anos depois, lançou luz sobre o samba de roda e gravou o CD "Beth Carvalho canta o samba da Bahia".

Beth Carvalho com Almir Guineto em show que popularizou "Coisinha do Pai" - Arquivo Pessoal
Beth Carvalho com Almir Guineto em show que popularizou "Coisinha do Pai"
Imagem: Arquivo Pessoal
Beth não era só uma cantora afinada, sensível na escolha do repertório e madrinha de bambas de várias gerações. Acima de tudo, era uma mulher que não se curvava ao machismo reinante na sociedade e, sobretudo no samba. E, acima de tudo, alguém que não tinha vergonha de empunhar suas bandeiras.

Militante de esquerda desde jovem, viu o pai ser preso logo após o golpe de 1964. Em plena ditadura militar, gravou "Saco de Feijão", protestando contra a inflação galopante da época. Nos anos 1980, subiu aos palanques pedindo eleições diretas e, com "Corda No Pescoço", registrou o desalento do povo com o insucesso do Plano Cruzado.

Eleitora fiel de Leonel Brizola, pendeu para o PT após a morte do ex-governador. Uma de suas últimas manifestações políticas foi contra o uso de "Vou Festejar" em manifestações pelo impeachment de Dilma Rousseff. "Essa é uma música que sempre representou a esquerda brasileira. Como pode botar essa música numa manifestação de direita?", protestou em 2015.

Sua militância não foi apenas partidária. Beth Carvalho foi um dos principais nomes da MPB, ao lado de Lobão, ao encampar a luta pela numeração dos discos no Brasil, garantindo aos artistas uma arrecadação mais justa de direitos autorais.

Nos últimos anos, com a saúde debilitada por conta de problemas com a coluna, Beth passou a ter uma agenda mais enxuta de shows e apresentações na televisão. Seu último trabalho foi "Ao Vivo no Parque Madureira", gravado em 2014.

No Carnaval de 2017, foi enredo da Alegria da Zona Sul, escola do Grupo de Acesso do Carnaval carioca e participou do esquenta ao lado do intérprete Igor Vianna cantando "Vou Festejar". Sua última aparição pública comoveu os fãs. Debilitada, em setembro do ano passado ela se apresentou deitada em um divã em uma casa de shows carioca. Guerreira e corajosa até o ato final. Esta era Beth Carvalho.

Relembre a trajetória de Beth Carvalho

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