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Game of Thrones


"Game of Thrones": A honra e a redenção de Jaime, Theon e Jorah

Divulgação/HBO
Jaime Lannister (Nikolaj Coster-Waldau) em cena do último episódio de "Game of Thrones" Imagem: Divulgação/HBO

Caio Coletti

Colaboração para o UOL

2019-04-26T04:00:00

26/04/2019 04h00

ATENÇÃO: Este texto contém spoilers de "Game of Thrones". Não leia se não quiser saber o que acontece.

Westeros é um mundo onde sobrevivem os mais fortes, os mais impiedosos, os mais cruéis, os mais inteligentes. Não os mais honrados. Esta é a fama carregada pelo universo ficcional de "Game of Thrones", mas o episódio do último domingo, parte da temporada final da série, mostra que o épico da HBO desenhou jornadas que dizem muito sobre a natureza da honra e da redenção para seus personagens.

A principal destas jornadas talvez seja a de Jaime Lannister (Nikolaj Coster-Waldau). Como os últimos episódios nos lembraram, conhecemos Jaime como o arrogante "leão dourado" da família Lannister, e logo no primeiro episódio descobrimos que ele estava vivendo um caso incestuoso com sua irmã, Cersei (Lena Headey). Para impedir que o affair viesse a público, ele empurrou Bran Stark (Isaac Hampstead-Wright) da janela mais alta de uma das torres de Winterfell.

Apropriadamente, no entanto, não é por este ato contra Bran que Jaime precisa responder quando chega em Winterfell, no episódio "A Knight of the Seven Kingdoms" (8x02). Ao invés disso, no julgamento improvisado contra ele, a principal acusadora é Daenerys (Emilia Clarke), que ouviu histórias sobre como Jaime matou o seu pai, o Rei Louco, a sangue frio -- para impedir que ele continuasse seu reinado de terror em que pessoas eram incineradas indiscriminadamente.

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Jaime consagra Brienne de Tarth (Gwendoline Christie) como cavaleira no último episódio de "Game of Thrones" Imagem: Divulgação

O confronto com Daenerys, e não com Bran, é que dita a jornada de redenção de Jaime. Por anos, ele foi chamado de "Regicida" e tido como um homem desonrado por ter "traído" o Rei Louco, a quem jurava fidelidade na época. Por desobedecer um juramento, mesmo que tenha sido para salvar o reino de um monarca tirânico e violento, ele foi visto como vilão, e não viu alternativa que não fosse abraçar este papel.

É igualmente apropriado que Brienne de Tarth (Gwendoline Christie) seja a "testemunha" decisiva no julgamento do cavaleiro, ao dizer de forma desafiadora que confia em Jaime e lutaria ao seu lado. Foi nas viagens de Jaime com Brienne que aprendemos a ver o personagem de forma diferente, quando ele a salvou de um estupro (e perdeu a mão por isso), além de confessar a ela as profundas cicatrizes deixadas pelos anos como "saco de pancadas" da opinião pública de Westeros.

A grande cena em que Jaime consagra Brienne como cavaleira, provavelmente a mais comentada do episódio do domingo, fecha de forma emocionante a jornada dos dois. Ao retificar uma injustiça (a de Brienne não poder ser sagrada cavaleira por ser mulher) e honrar alguém que foi o eixo de sua redenção, Jaime prepara-se para lutar contra o exército dos mortos em uma guerra que é muito maior do que ele mesmo.

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Jorah Mormont (Iain Glen) recebe a espada de Samwell Tarly (John Bradley) no último episódio de "Game of Thrones" Imagem: Divulgação/IMDb

O significado da honra

Lutar por algo além de si mesmo. Esta parece ser a definição mais precisa que "Game of Thrones" conseguiu trazer do seu conceito de honra. Em uma cena do episódio, Arya (Maisie Williams) pergunta a Sandor "Cão de Caça" Clegane (Rory McCann) porque ele está em Winterfell, encarando a batalha contra o Rei da Noite, e qual foi a última vez que ele lutou por algo que não fosse o seu próprio interesse.

"Eu lutei por você, não lutei?", responde Clegane, lembrando do momento em que enfrentou Brienne para continuar com a "guarda" de Arya, na quarta temporada. Assim, a série acena para a trajetória de redenção do personagem de McCann, que está em curso há muito tempo, e chama a atenção para as outras se fechando durante o episódio, especialmente as de Jorah Mormont (Iain Glen) e Theon Greyjoy (Alfie Allen).

O primeiro, Jorah, foi apresentado em "Game of Thrones" como um homem sem pátria ou família, que foi expulso de Westeros por participar no tráfico de escravos. Inicialmente, ele se aproximou de Daenerys como espião, enviado por Lord Varys (Conleth Hill) para descobrir se a herdeira Targaryen seria uma ameaça ao Trono de Ferro. No entanto, se apaixonou por ela e encontrou uma causa pela qual lutaria.

Daenerys expulsou Jorah de seu círculo de conselheiros (e da cidade que estava governando) quando soube das intenções iniciais do cavaleiro, mas ele retornou para reconquistar a confiança de sua rainha. No episódio do domingo, Samwell Tarly (John Bradley) presenteou Jorah com a espada Veneno do Coração, que ele roubou da fortaleza de sua família.

O personagem escolheu dar a espada para Jorah por causa do pai do cavaleiro, Jeor Mormont, comandante e mentor de Sam em seu tempo na Patrulha da Noite. "Eu vou usá-la em sua memória", diz Jorah sobre o pai. Assim, o personagem reencontra a memória da família que deixou para trás após seu vergonhoso banimento de Westeros.

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Theon Greyjoy (Alfie Allen) é abraçado por Sansa Stark (Sophie Turner) em cena do último episódio de "Game of Thrones" Imagem: Divulgação/IMDb

Recepção calorosa para um (ex-)traidor

A peça final deste quebra-cabeças de histórias de redenção é Theon, que retornou a Winterfell anos depois de organizar um motim violento e tomar controle da fortaleza de sua família adotiva. O personagem de Alfie Allen, que foi criado como um filho pelos Stark após uma guerra contra a sua família de nascença, os Greyjoy, foi depois capturado pelo sádico Ramsay Bolton (Iwan Rheon).

Através de muitos métodos de tortura e até a mutilação de suas partes íntimas, Ramsay converteu Theon em seu escravo. O personagem só se revoltou contra o seu mestre para ajudar Sansa Stark (Sophie Turner), uma de suas "irmãs adotivas", a escapar de um casamento infeliz e abusivo com ele. No reencontro dos dois no último episódio, recebe um caloroso abraço da Lady de Winterfell.

"Eu tomei este castelo de você. Desta vez, deixe-me protegê-lo", diz depois a Bran, na reunião em que as estratégias para a batalha contra o Rei da Noite são desenhadas. Assim, com uma declaração decisiva, "Game of Thrones" completa a trajetória de um jovem que sempre se mostrou confuso sobre sua identidade e seus conceitos de honra.

A chegada do Rei da Noite, e a imposição de uma guerra na qual o destino de todos os homens e mulheres vivos de Westeros está em risco, parece ter tirado o melhor dos personagens de "Game of Thrones". Com tantas histórias se fechando, no entanto, a pergunta que está no ar para o próximo episódio do épico da HBO é só uma: será que a Batalha de Winterfell vai provar mais uma vez que, nos Sete Reinos, os homens honrados não sobrevivem?

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