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"Primavera feminista": Projetos levam filmes feitos por mulheres ao grande público

Público assiste debate após exibição de "A Esposa" no projeto Assista Mulheres - Cortesia de Bruna Mascarenhas
Público assiste debate após exibição de "A Esposa" no projeto Assista Mulheres Imagem: Cortesia de Bruna Mascarenhas

Caio Coletti

Colaboração para o UOL

18/03/2019 04h00

"Cinema é cultura, é arte, é política, é tudo". A frase é de Bruna Mascarenhas, organizadora do projeto Assista Mulheres, que promove uma sessão especial por mês no Topázio Cinemas, em Indaiatuba, interior de São Paulo, com filmes protagonizados ou realizados por mulheres.

"É muito difícil uma pessoa sair da sala de cinema sem pensar ou refletir sobre aquilo que acabou de assistir, sem querer conversar com outra pessoa sobre [o filme]", comenta ela em entrevista ao UOL. "Cinema, como arte, tem esse poder. E o cinema, como espaço físico, pode e deve ser utilizado para estender a experiência do espectador".

A primeira edição do Assista Mulheres ocorreu em março de 2018. O projeto vai comemorar 1 ano de existência no próximo dia 19, com a exibição de "Poderia Me Perdoar?", filme dirigido por Marielle Heller indicado a três Oscar (incluindo melhor atriz). O longa aborda a história real de Lee Israel (Melissa McCarthy), escritora que foi condenada por forjar cartas de nomes mais famosos da literatura.

Durante este primeiro ano, o Assista Mulheres misturou filmes prestigiados nas premiações norte-americanas ("Eu, Tonya", "A Esposa") com produções nacionais e independentes ("Branco e Prata", "Ferrugem"). Com um preço acessível (R$ 10 por ingresso), o projeto atrai uma média de 80 pessoas por edição, segundo a organizadora.

Representatividade e debate

"Neste 1 ano de projeto, eu vi muitas mulheres feministas nas sessões, mas também um público bem variado", revela Bruna. "Mulheres mais velhas que ainda não tinham contato com o movimento, adolescentes que estão começando a se interessar por ele agora, homens, casais, famílias... E muita gente, após a sessão, vem agradecer pela oportunidade de ter vivido aquilo".

Após cada sessão do Assista Mulheres, um grupo de profissionais realiza um debate sobre o filme exibido. "O momento mais legal foi na edição que exibimos o documentário 'Chega de Fiu Fiu', criado a partir da campanha realizada desde 2013 pela ONG Think Olga", conta Bruna.

"Vieram a Mariana Nadai, editora-chefe da Think Olga, e a Débora Torri, gerente de projetos da ONG. Foi muito especial por ser um enorme 'encontro' de projetos liderados por mulheres, que estão buscando uma forma de empoderar e dar visibilidade às pautas [feministas]", completa.

Bruna Mascarenhas (no centro) recebe Débora Torri (à esquerda) e Mariana Nadai (à direita), da ONG Think Olga, em exibição de "Chega de Fiu Fiu" - Cortesia de Bruna Mascarenhas - Cortesia de Bruna Mascarenhas
Bruna Mascarenhas (no centro) recebe Débora Torri (à esquerda) e Mariana Nadai (à direita), da ONG Think Olga, em exibição de "Chega de Fiu Fiu"
Imagem: Cortesia de Bruna Mascarenhas

Os números

Segundo a Ancine (Agência Nacional do Cinema), 160 filmes brasileiros chegaram às salas de cinema em 2017. Destes, apenas 22,5%, ou 36 filmes, tinham uma mulher na direção. A distribuição de salas também é desproporcional, com estes 22,5% de títulos com direção feminina ocupando apenas 12,5% dos cinemas que exibem filmes nacionais.

Para a jornalista Luísa Pécora, que criou o site Mulher no Cinema em 2015 para abordar estes e outros temas da pauta feminista, é um problema com muitas facetas. "Se o cinema de forma geral fosse mais igualitário, é provável que o circuito comercial também o fosse. Distribuir um filme custa dinheiro, e embora essa seja uma barreira para qualquer cineasta, muitas vezes pode ser mais complexa para as mulheres", comenta.

"As mulheres têm uma presença mais significativa no documentário, um gênero que nem sempre chega ao cinema comercial e, de forma geral, fica menos tempo em cartaz", diz ainda. No cinema documental brasileiro, em 2017, 32% dos filmes foram dirigidos por mulheres, quase 10% a mais do que a média geral.

Grupo que participou do festival Tudo Sobre Mulheres em 2018 - Reprodução/Facebook - Reprodução/Facebook
Grupo que participou do festival Tudo Sobre Mulheres em 2018
Imagem: Reprodução/Facebook

Outras iniciativas

O Assista Mulheres não é o único projeto tentando ajudar na correção deste desequilíbrio. Na Chapada dos Guimarães, em Mato Grosso, o festival Tudo Sobre Mulheres fez seu grande retorno em 2018, após ser encerrado em 2010. Danielle Bertolini, diretora do festival, credita a volta a uma maior visibilidade do movimento feminista -- ou, como ela descreve, uma "primavera feminista".

"É um momento muito importante para o protagonismo feminino [na sociedade e na arte]", comenta. "Um festival de cinema sempre traz impactos, possibilita trocas, encontros e novos conhecimentos. Buscamos fortalecer o tripé do audiovisual através da formação, difusão e produção. [Temos] oficinas teóricas e práticas, exibição de filmes nas mostras competitivas, e a exibição do resultado das oficinas ao final do festival".

A sétima edição do festival Tudo Sobre Mulheres deve acontecer entre os dias 11 e 15 de setembro, e marcará a primeira vez que o evento vai abrir as portas para longas-metragens, ao invés de apenas curtas e médias. "[Temos] a maior dificuldade de recomeçar ano a ano. Mesmo após seis edições realizadas, a cada ano é necessário renovar as parcerias, buscar patrocínios, apoios", comenta Bertolini.

Sessão do Mostra das MINAS, edição de 2017 - Reprodução/Facebook - Reprodução/Facebook
Sessão do Mostra das MINAS, edição de 2017
Imagem: Reprodução/Facebook

Já na Baixada Santista, em São Paulo, a Mostra das MINAS surgiu em 2016 e reúne em torno de 40 cineastas por edição, entre diretoras de videoclipes, curtas e longas. A organizadora, Iasmin Alvarez, diz que nem sempre é fácil encontrar dinheiro para bancar o evento, mas que a persistência é recompensada no encontro de talentos promovido por ele.

"Sempre que eu penso que não vai mais dar pé, eu forço a barra para acontecer a Mostra novamente, e nunca me arrependo. É sempre bom, mesmo quando a gente acha que não tem mais esperança, sentir aquele 'calorzinho' bom de troca, de carinho e atenção, mesmo que o cenário de um modo geral não esteja nem perto de ser dos melhores", diz ela.

"É bom sabermos que não estamos sós, mesmo quando pensamos que esta é a realidade", continua. "Eu acho lindo quando vejo a quantidade de cineclubes de mulheres brotando por aí, seja os esporádicos, os constantes ou os passageiros. Nós estamos aqui, independente do que falem. E só temos umas as outras para dar as mãos e conquistar o espaço que já é nosso".