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Elza Soares repreende diretora da "Vogue": "Você pode machucar o próximo"

Carine Wallauer
A cantora Elza Soares Imagem: Carine Wallauer

Leonardo Rodrigues

Do UOL, em São Paulo

10/02/2019 19h19

Na última sexta-feira (8), a diretora de estilo da revista "Vogue Brasil", Donata Meirelles, se viu em meio a uma grande polêmica após comemorar em Salvador seus 50 anos com uma festa com temática de candomblé. As fotos do evento, em que uma série de convidados brancos aparecem posando com mulheres negras vestidas com roupas brancas, que remetem às mucamas, foram algo de críticas nas redes sociais pelo teor racista.

A repercussão das imagens chamou a atenção de anônimos e famosos, incluindo a cantora Elza Soares, conhecida por militar pela causa negra No Brasil. Neste domingo (10), ela comentou o episódio em um longo texto publicado no Instagram, acompanhado de duas fotos em que ela aparece sentada em uma cadeira rodeada de mulheres e homens, brancos e negros.

"Hoje li sobre mais uma 'cutucada' na ferida aberta do Brasil Colônia. Não faço juízo de valor sobre quem errou ou se teve intenção de errar. Faço um alerta!", desabafou a artista. "Quer ser elegante? Pense no quanto pode machucar o próximo, sua memória, os flagelos do seu povo, ao escolher um tema para 'enfeitar' um momento feliz da vida."

Felicidade às custas do constrangimento do próximo, seja ele de qual raça for, não é felicidade, é dor. O limite é tênue. Elegância é ponderar, por mais inocente que sua ação pareça.
Elza Soares

Gentem, sou negra e celebro com orgulho a minha raça desde quando não era ?elegante? ser negro nesse país. Quando preto não usava o elevador dos ?patrões?. Quando pretos motorneiros dos bondes eram substituídos por brancos em festividades com a presença de autoridades de pele branca. Da época em que jogadores de um clube carioca passavam pô de arroz no rosto para entrarem em campo, já que não ?pegava bem? ter a pele escura. Desde que os garçons de um famoso hotel carioca não atendiam pretos no restaurante. Éramos invisíveis. Celebro minha raça desde o tempo em que gravadoras não davam coquetel de lançamento para os ?discos dos pretos?. Celebro minha origem ancestral desde que ?música de preto? era definição de estilo musical. Grito pelo meu povo desde a época em que se um homem famoso se separasse de sua mulher para ficar com uma negra, essa ganhava o ?título? de vagabunda, mas não acontecia se próxima tivesse a pele ?clara?. Sou bisneta de escrava, neta de escrava forra e minha mãe conhecia na fonte as histórias sobre o flagelo do povo negro. Protesto pelos direitos da minha raça desde que preta não entrava na sala das sinhás. Gentem, essas feridas todas eu carreguei na alma e trago as cicatrizes. A maioria do povo negro brasileiro. Feridas que não se curaram e são cutucadas para mantê-las abertas demonstrando que ?lugar de preto é nessa Senzala moderna?, disfarçada, à espreita, como se vigiasse nosso povo. Povo que descende em sua maioria dos negros que colonizaram e construíram o nosso país. Hoje li sobre mais uma ?cutucada? na ferida aberta do Brasil Colônia. Não faço juízo de valor sobre quem errou ou se teve intenção de errar. Faço um alerta! Quer ser elegante? Pense no quanto pode machucar o próximo, sua memória, os flagelos do seu povo, ao escolher um tema para ?enfeitar? um momento feliz da vida. Felicidade às custas do constrangimento do próximo, seja ele de qual raça for, não é felicidade, é dor. O limite é tênue. Elegância é ponderar, por mais inocente que sua ação pareça. A carne mais barata do mercado FOI a carne negra e agora NÃO é mais. Gritaremos isso pra quem não compreendeu ainda. Escravizar, nem de brincadeira. Seguimos em luta ?

Uma publicação compartilhada por Elza Soares (@elzasoaresoficial) em

"Grito pelo meu povo"

Em outro trecho, Elza Soares ressalta ter orgulho de sua raça desde que não era "'elegante' ser negro nesse país", "quando preto não usava o elevador dos "patrões" nem eram atendidos por garçons de um "famoso hotel carioca".

"Grito pelo meu povo desde a época em que se um homem famoso se separasse de sua mulher para ficar com uma negra, essa ganhava o 'título' de vagabunda, mas não acontecia se próxima tivesse a pele 'clara'", continuou.

"Sou bisneta de escrava, neta de escrava forra e minha mãe conhecia na fonte as histórias sobre o flagelo do povo negro. Protesto pelos direitos da minha raça desde que preta não entrava na sala das sinhás. Gentem, essas feridas todas eu carreguei na alma e trago as cicatrizes."

Outro lado

Procurada por Universa, Donata Meirelles informou, por meio da assessoria da "Vogue Brasil", que a festa pessoal não fazia referência ao período da escravidão, mas ao candomblé.

"Nas fotos publicadas, a cadeira não era a de Sinhá, e sim de candomblé, e as roupas não eram de mucama, mas trajes de baiana de festa", falou. "Ainda assim, se causamos uma impressão diferente dessa, peço desculpas. Respeito a Bahia, sua cultura e suas tradições, assim como as baianas, que são Patrimônio Imaterial desta terra que também considero minha e que recebem com tanto carinho os visitantes no aeroporto, nas ruas e nas festas. Mas, como diria Juscelino, com erro não há compromisso e, como diz o samba, perdão foi feito para pedir".