Topo

Filmes e séries


Maconha, assassinatos e justiceiros: Por que assistir a "Montanha Mortal" da Netflix

Reprodução
Jason Dookie, um dos produtores de Maconha entrevistado em "Montanha Mortal" Imagem: Reprodução

Osmar Portilho

Do UOL, em São Paulo

11/01/2019 04h00

Uma comunidade hippie acostumada a plantar maconha que vê seu condado ser tomado por justiceiros, desaparecimentos, omissão policial e assassinatos. Não, esta não é a sinopse de um novo jogo da série "GTA", mas poderia ser. Esse é um breve resumo que só mostra superficialmente um recorte da complexa situação enfrentada pelo condado de Humboldt, na Califórnia, alvo da série documental "Montanha Mortal", disponibilizada na Netflix no último dia 28 de dezembro.

Desvendando um crime

A trama central de "Montanha Mortal" gira em torno do desaparecimento de Garret Rodriguez, um surfista que se mudou para a região para trabalhar no cultivo ilegal de maconha. A investigação automaticamente liga o caso a diversas histórias semelhantes de outras pessoas desaparecidas na região. São diversos relatos de casos semelhantes ao de Garret, mas a imersão será em seu caso. O formato de série documental com entrevistas e reconstituições é um atrativo para fãs de outros títulos do gênero, como "Making a Murderer".

Legalização da maconha

O estado da Califórnia foi um dos pioneiros no mundo a legalizar o consumo da cannabis de forma medicinal. Desde então, o tópico sempre foi abordado do ponto de vista do consumidor e das autoridades, mas uma fala dos cultivadores da planta é raro. "Montanha Mortal" mostra a chegada dos hippies ao condado na esperança de criar uma comunidade isolada e autossuficiente nas décadas de 60 e 70. De volta aos dias atuais, a série mostra como a legalização afetou os fazendeiros locais em diversos pontos de vista. Há relatos de quem enfrenta a burocracia e arca com gastos elevados em busca da regularização de suas propriedades e quem prefere por permanecer na ilegalidade.

Reprodução
Imagem: Reprodução

Velho Oeste vivo na Califórnia

A Califórnia naturalmente nos remete a uma ideia de um estado progressista e moderno por tomar a dianteira em medidas como a legalização da cannabis. O recorte feito pelo documentário mostra o contrário.

Os fatos e depoimentos coletados mostram o condado de Humboldt como um pedaço do Velho Oeste, um território no meio de um estado moderno com suas próprias leis. A presença de justiceiros, omissão policial, casos sem solução, assassinatos misteriosos e ausência quase total de presença do Estado mostram o condado vive uma condição independente e com pouca perspectiva de mudança a curto prazo, mesmo com a legalização do cultivo da planta.

Personagens

Boa parte do trunfo de "Montanha Mortal" está em seus personagens, principalmente quando falamos dos moradores de Alderpoint. Um grande acerto do documentário é deixar que a história do condado seja contada pelos seus próprios moradores e protagonistas do retrato. Os relatos são detalhados e as figuras, além de contribuírem para o caso, poderiam ser estrelas de seus próprios documentários, como o veterano de guerra John Reilly, peça importante na trama. Há histórias paralelas que não acrescentam ou influenciam a história do desaparecimento de Garret, mas dão flashes interessantes para mostrar outros acontecimentos da região, como Austin, um cultivador ilegal que constantemente é preso, apanha ou tem sua propriedade destruída.

Reprodução
Imagem: Reprodução

Cliffhangers

Em tradução livre, "Cliffhanger" quer dizer "à beira do precipício". Este termo é comumente usado no mundo do entretenimento quando um roteiro deixa um fato importante para o final e prender a atenção do público para seu desfecho no próximo episódio. Embora seja um documentário, "Montanha Mortal" usa essa ferramenta tradicional das séries para amarrar sua história e fazer com que o espectador seja estimulado a assistir aos seus seis episódios na sequência.

É um retrato do mercado de drogas

O número de pessoas desaparecidas no condado é o maior da Califórnia. Segundo as autoridades, 717 pessoas a cada 100 mil habitantes desaparecem por ano. O número é bem superior à média do estado, que é de 384 a cada 100 mil no mesmo período. Foi este número que chamou atenção do diretor do documentário, Josh Zeman.

"O intuito da série é mostrar o dano que a proibição da maconha causou e, infelizmente, o jeito para fazer as pessoas prestarem atenção é focar no aspecto negativo", disse ao site da Rolling Stone.

Zeman crê que o seu registro seja, no fim das contas, um pontapé para que o condado tenha uma melhora na sua reputação.

"Assim que limparmos as partes negativas, Humboldt será um destino de turistas. Será a Napa da cannabis", afirmou, comparando a região com a área do mesmo estado famosa pela vitivinicultura.

"Os fazendeiros que buscam a legalização farão isso acontecer. Foi uma jogada muito corajosa depois de passar décadas nas sombras, mas é isso que estão fazendo".