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Diretor de "Tito e os Pássaros" baseou vilão em Trump: "Americanos perceberam"

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Alaor Souza, vilão dublado por Mateus Solano em "Tito e os Pássaros" Imagem: Divulgação

Caio Coletti

Colaboração para o UOL

02/01/2019 04h00

No final do ano passado o brasileiro "Tito e os Pássaros" coroou uma trajetória elogiosa por festivais ao redor do mundo com uma indicação ao Annie, a principal premiação da indústria dos desenhos animados. Pouco antes, já tinha chamado atenção ao entrar na lista de qualificados para o Oscar 2019 de melhor animação, buscando levar o Brasil ao prêmio da Academia pela segunda vez em três anos.

Se "Tito" vai seguir os passos de "O Menino e o Mundo", de Alê Abreu (indicado ao Oscar em 2016), só saberemos em 22 de janeiro, quando a lista oficial será divulgada. Com ou sem a indicação, no entanto, o longa codirigido por Gustavo Steinberg, Gabriel Bitar e André Catoto já impressionou plateias ao redor do mundo com uma mensagem urgente sobre como o medo pode se tornar uma doença. No Brasil, "Tito" chega aos cinemas em 14 de fevereiro, ainda com circuito a definir.

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Cena de "Tito e os Pássaros" Imagem: Divulgação

Em entrevista ao UOL, Steinberg reconhece os ecos políticos da sua trama, mas garante que nada foi mudado na história para refletir a realidade que mudava ao seu redor durante os oito anos que demorou para tornar o filme realidade. Ele cita seu produtor executivo, Daniel Greco, ao falar que "a realidade, de certa forma, alcançou o filme".

"Por exemplo, uma grande referência do personagem do Alaor Souza sempre foi o [Donald] Trump", comenta, referindo-se ao presidente dos EUA. "E decidimos isso antes de ele ser candidato a presidente [em 2016]. Há outras referências também: [Silvio] Berlusconi, Rupert Murdoch. Mas o Trump está lá, no topete, no jeito, tanto é que a mídia americana está identificando claramente, e se surpreendendo que precisou de um filme de animação brasileiro para falar dele".

Alaor Souza, que ganha a voz de Mateus Solano, é retratado no filme como um magnata das comunicações que usa o medo da violência urbana para vender seu novo condomínio, em que moradores são protegidos por uma redoma de vidro. Ele mantém influência política e econômica, lucrando enquanto a cidade toda se apavora com a proliferação de uma doença chamada "surto", que aos poucos transforma as pessoas em pedra.

"Claro que não era possível prever que o medo ia se tornar tão central na sociedade e na política como se tornou, principalmente graças à ação da mídia, mais recentemente das redes sociais, polarizando esse sentimento antes difuso", define ainda Steinberg. "A mídia está, faz tempo, em uma crise de modelo de negócio, e o medo vende".

História paulistana, mas universal

Para Steinberg, que nasceu e cresceu na capital de São Paulo, imaginar o medo como doença não foi tão difícil. O cineasta cita Teresa Caldeira ao definir a metrópole como uma "cidade de muros",mas também revela o esforço da produção em tornar a história do filme o mais universal possível.

"Cortamos trechos que faziam referência muito específica a São Paulo", confessa. "Outros medos e ansiedades também aparecem na história, como o consumo de remédios por Rosa, a mãe de Tito; o bullying na escola, na figura de Teo; a criança de outra classe social, na amizade de Tito com Buiú, que é filho da babá; a segurança e os muros das casas".

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Cena de "Tito e os Pássaros" Imagem: Divulgação

O tema da universalidade se estende para a forma como o filme brinca com o suspense e o terror sem alienar o público infantil, que é seduzido pela promessa (cumprida) de uma grande aventura. Acompanhamos enquanto o protagonista Tito e dois amigos, Sarah e Buiú, tentam encontrar a cura para o "surto", que pode estar escondida na pesquisa que o pai de Tito, desaparecido há anos, desenvolveu sobre o canto dos pássaros (especialmente, os pombos).

Nessa mistura de gêneros, uma grande influência foi o clássico "Os Goonies" (1985). "Lá, o desafio é resolver o problema do dinheiro para não perder a casa -- que também é um problema adulto. No nosso caso, o problema é mais social, mas sabíamos que era possível construir uma aventura divertida dentro desse universo a partir da metáfora do 'surto'", comenta Steinberg.

"A proposta do filme é justamente a de criar o espaço para uma conversa entre adultos e crianças sobre o medo e sobre os caminhos para superá-lo", diz ainda. "E é importante dizer: sem heroísmo como solução. [...] Fizemos todo o esforço para não transformar Tito em um herói. Ele é um garoto totalmente comum, que tem que 'ralar' junto com os amigos para encontrar soluções".

"Nós, adultos, muitas vezes temos uma dificuldade muito grande de conversar com as crianças sobre temas sociais complexos", admite. "Mas nós temos que conversar! A gente cria a maior confusão no mundo e, muito em breve, essa confusão vai cair no colo das crianças, sem a gente nem ter conversado com elas direito. E as crianças 'sacam' o que está rolando, mesmo que a gente não fale, o que acaba gerando mais angústia".

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Tito e Sarah, os heróis de "Tito e os Pássaros" Imagem: Divulgação

Desafios e recompensas

O resultado do trabalho de Steinberg e seus parceiros criativos é um filme que causa efeito único no espectador. No processo de animação, pinceladas a óleo foram traduzidas para a animação digital, criando uma versão abstrata e bela dos cenários urbanos da história. A música de Gustavo Kurlat e Ruben Feffer (mesma dupla que criou a trilha de "O Menino e o Mundo") ajuda no equilíbrio entre o adulto e o infantil, a aventura e o suspense, caminhando para um clímax catártico.

"O último som a ser efetivamente feito foi o do canto dos pombos -- que só acertamos quando o filme estava quase pronto, ou seja, pouca coisa poderia ser mudada se o canto desse 'errado'  com a imagem", conta Steinberg. "Fomos atrás de um cantor, o Marcelo Pretto, que consegue fazer sons muito estranhos, com diversas harmonias com a voz. Houve certa hesitação: será que esse som cabe dentro do pombo? No final, coube e funcionou muito bem".

Levar o filme para todos os cantos do mundo tem sido uma experiência e tanto, segundo o diretor. "Todos se identificam com o tema central, mas os países que passaram ou que estão passando por momentos de convulsão social relacionada ao medo e à polarização pela mídia respondem de forma mais 'física' ao filme. Quando passamos pela primeira vez na América do Norte, fui cercado pelas crianças que estavam na sala de cinema querendo falar mais com a equipe", diz.

Quando o assunto é o crescimento da indústria brasileira de animação, Steinberg não hesita em creditar o Fundo Setorial do Audiovisual, estrutura governamental de fomento à produção e distribuição de títulos brasileiros. "Ao contrário do que muita gente acha, o Fundo Setorial é um fundo de investimento do governo federal. Ou seja, se o filme ganha dinheiro, o governo recebe o dinheiro de volta", realça.

"Qual o valor em retorno de imagem que filmes como 'O Menino e o Mundo', 'Uma História de Amor e Fúria', e agora 'Tito e os Pássaros', geram para o Brasil? É incalculável. Passamos a existir no mapa internacional da animação. 'Tito' só está chegando onde está chegando porque outros filmes abriram espaço para a animação brasileira antes dele. É um processo cumulativo, muito recente, que não pode ser interrompido, senão todo esse investimento vai ser desperdiçado", completa.

Errata: o texto foi atualizado
03/01/2019 às 10h26
Ao contrário do que foi publicado, "Tito e os Pássaros" tem previsão de estreia no Brasil: 14 de fevereiro. A informação foi corrigida.

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