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"Starship": o avião de luxo do sexo e drogas que transportou as lendas do rock

Bob Gruen
Led Zeppelin posa com o Starship, o Boeing 720 que entrou para a história da música Imagem: Bob Gruen

Leonardo Rodrigues

Do UOL, em São Paulo

2018-12-15T04:00:00

15/12/2018 04h00

Há 45 anos, um avião Boeing 720 entrou para a história do rock ao transportar algumas das bandas e músicos mais célebres da década de 1970, quando o estilo vivia seu apogeu em termos de lendas, glamour e, principalmente, extravagância. E é provável que você já o tenha visto por aí.

A aeronave adorna uma das fotos mais icônicas dos integrantes do Led Zeppelin, tirada pelo fotógrafo Bob Gruen no aeroporto de Nova Jersey em 1973, durante uma rota para um show em Pittsburgh. Ao mesmo tempo solene e descontraída, a imagem é símbolo de uma era gigante da música.

Durante quatro anos, o avião conhecido como Starship foi um dos grandes personagens dessa história. Com sua estrutura adaptada em centro de entretenimento, ele recebia músicos, técnicos, managers e convidados. Sexo, drogas e música rolavam soltos em festas que varavam dias e noites pelos céus do país.

Entenda abaixo como isso foi possível.

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O cantor Bobby Sherman Imagem: Reprodução

Mas com ele virou "avião do rock"?

Por razões de mercado. Fabricado no fim dos anos 1950, o Starship voou comercialmente por cerca de 12 anos na companhia United Airlines, até ser adquirido em 1973, por US$ 750 mil (hoje cerca de US$ 4 milhões), pelo cantor pop Bobby Sherman. Junto do empresário Ward Sylvester, ele reformou o interior do avião para transformá-lo em uma luxuosa aeronave particular. Mas logo ele mudaria de planos.

Com o início da era das grandes turnês de bandas de rock pelos Estados Unidos, uma nação continental, ele poderia transformá-lo em um lucrativo negócio de aluguel. Com a venda de discos em alta e a explosão de rock stars, os clientes não demoraram a aparecer. O preço era para poucos. Cada hora de voo custava cerca de US$ 2.500 (equivalente a US$ 13 mil nos dias de hoje).

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O interior do Starship Imagem: Reprodução

Fazendo história com o Led Zeppelin

O primeiro cliente do Starship foi o Led Zeppelin, que já havia ganhado o status de banda mais popular do planeta. Os britânicos utilizaram o avião nos Estados Unidos entre 1973 e 1975. Antes, a comitiva viajava em um jatinho, mas turbulências frequentes fizeram o empresário Peter Grant mudar de planos. Era um serviço prático: usando o Boeing, toda a banda conseguia diminuir a frequência das cansativas entradas e saídas de hotel.

Em cidades menores, eles saiam do avião direto para a limusine, com a qual se dirigiam aos shows. A suntuosa pintura nas cores prata, marrom e dourado ganhou com o Led o logo e os símbolos da banda (os mesmos do álbum "Led Zeppelin IV") na fuselagem, identidade que foi alterada no último ano e, posteriormente, por outros artistas.

Michael Brennan
Os integrantes do Led Zeppelin em 1975 Imagem: Michael Brennan

Interior

Segundo reportagens da época, Sherman e Sylvester investiram cerca de US$ 200 mil para reduzir a capacidade de assentos de mais de 150 para 40. Na cabine principal, havia um bar com assentos e mesas, além de poltronas giratórias e um sofá de 9,1 m de largura que corria ao longo do lado direito do avião. Era onde os músicos costumavam descansar (ou se divertir).

Em frente ao bar, uma confortável "sala" com televisão e videocassete --artigo de luxo na época-- era municiada por muitas fitas. Um órgão eletrônico foi construído no local, e na parte de trás havia ainda dois cômodos. Um escritório com um sofá baixo e travesseiros no chão e uma suíte completa com chuveiro e com colcha de pele na cama.

Paul Slade/Paris Match/Getty Images
O cantor Alice Cooper vê televisão no Boeing 720 do cantor Bobby Sherman Imagem: Paul Slade/Paris Match/Getty Images

Outras bandas

Além do Led Zeppelin, que homenageou o Starship incluindo cenas do avião no DVD "Led Zeppelin" (2003) e também no filme "The Song Remains the Same" (1976), Deep Purple, Rolling Stones, Allman Brothers, Alice Cooper, Elton John e Peter Frampton, último artista a viajar, estão entre os clientes da aeronave, que parou de ser usada em 1976. Os motores começaram a apresentar problemas, e a manutenção era caríssima.

Perdendo clientes e dinheiro e com o combustível em alta, Sherman decidiu vender o avião em 1977. Ele teve vários donos até 1979, quando foi parar em um galpão do aeroporto de Luton, na Inglaterra, onde foi selada sua aposentadoria. O avião acabou sendo desmanchado.

Terry O'Neill/Getty Images
O cantor Elton John também foi cliente do avião Imagem: Terry O'Neill/Getty Images

Ícone pop

O Boeing das lendas do rock virou sinônimo de glamour e ostentação. Os Estados Unidos viviam a crise do petróleo e viam o preço dos combustíveis ir às alturas. Usar de forma particular um Boeing com seus quatro motores beberrões era considerado mais que um acinte. A imprensa se mostrou mordaz, criticando o isolamento dos músicos e seu festival de mordomias.

Mas era fato: conseguir alugar um desses era sinal de que você havia chegado ao topo --e que de lá não tinha planos de sair. A foto de Bob Gruen com os integrantes do Led posando ao lado de uma das turbinas expressa perfeitamente essa ideia. O 747 particular usado pelo personagem Austin Powers no cinema também guarda inspirações no Starship e seu imaginário pop.

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O Starship com o logo da banda Allman Brothers Imagem: Reprodução

Histórias

Uma história famosa sobre o avião aconteceu com o Allman Brothers. Segundo testemunhas, os músicos foram recebidos no bar, na primeira viagem, com a frase "Bem-vindos, Allman Brothers" escrita com generosas linhas de cocaína. Segundo Peter Frampton, para enganar inspetores de alfândega, a droga costumava ser escondida na sacola de roupas sujas no avião. Robert Plant, vocalista do Led Zeppelin, também tem boas recordações dessa época, especialmente das groupies e do "sexo oral durante a turbulência".

Outro causo conhecido: Peter Grant, empresário do grupo, chegou a sacar uma arma dentro do avião para impedir que alguém da comitiva da banda roubasse sua cocaína em um voo para Pittsburgh. Na turnê de Alice Cooper, o empresário David Libert foi além: ele usava o sistema de som da aeronave para anunciar o "placar sexual" de cada membro da equipe, o que irritou o cantor. "Não quero estar nas suas malditas pontuações de bola. É melhor eu não ouvir meu nome", recriminou Cooper, segundo Libert.

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Robert Plant, do Led Zeppelin, conversa com o empresário de turnê Richard Cole, na suíte da aeronave Imagem: Express Newspapers/Getty Images

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