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Da censura ao apartheid: Cinco histórias incríveis que o filme do Queen não conta

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Freddie Mercury em show do Queen do início dos anos 1980 Imagem: Getty Images

Leonardo Rodrigues

Do UOL, em São Paulo

01/12/2018 04h00

O filme "Bohemian Rhapsody" faz um recorte de 15 anos na trajetória Queen, de sua formação em Londres em 1970 à redentora apresentação no festival Live Aid, considerada uma das melhores performances da história do rock. O longa foi dirigido por Bryan Singer, que foi demitido no meio das filmagens, e teve supervisão dos integrantes da banda Brian May e Roger Taylor.

Recheada de música e controvérsia, a cinebiografia estrelada por Rami Malek como Freddie Mercury vem encantando o público e dividindo a crítica. Há quem condene o roteiro por alterar dadas e descontextualizar acontecimentos centrais na história da banda. Muitos eventos importantes ou simplesmente interessantes --e a biografia do Queen está repleta deles-- também foram sumariamente ignorados, alguns injustamente.

Veja abaixo cinco histórias incríveis envolvendo o Queen que o cinema não mostrou, de bastidores de gravações e turnês, incluindo a primeira no Brasil, à causos da vida pessoal de Freddie Mercury.

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Imagem: Divulgação

Roubados no início da carreira

"Bohemian Rhapsody" ignora que, nos primeiros anos do Queen, apesar de já emplacar hit, vender bem e empreender grandes turnês nos Estados Unidos e Japão, os integrantes viviam um período de vacas magras. A grana era curta. Antes do lançamento do álbum "A Night at the Opera" (1975), eles viviam em conjugados e muitas vezes não tinham dinheiro nem para pagar uma bebida. Tudo isso por causa de um infeliz contrato assinado em 1973 com a produtora Trident Studios.

"Decidimos ficar com a produtora em vez de assinar com a gravadora. O acordo era gravarmos o disco para a produtora, que o venderia para uma gravadora. Foi a pior coisa que fizemos", lamenta o guitarrista Brian May no documentário "Days of Our Lives".

A situação foi ficando cada vez mais tensa, até Freddie Mercury forçar a quebra de contrato dando um ultimato aos executivos: caso o grupo não ganhasse o que merecia, eles não produziriam mais músicas. A situação só se resolveu em 1975, com a chegada do empresário John Reid, ex-Elton John. Ignorada no filme, a situação inspirou a música "Death on Two Legs", claramente endereçada a Norman Sheffield, dono da Trident. "Você levou todo o meu dinheiro e ainda quer mais", canta Freddie Mercury logo nos primeiros versos.

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Parceria de Freddie Mercury e Michael Jackson

Entre 1981 e 1983, antes e depois do lançamento do álbum "Hot Space", Freddie Mercury fez várias gravações com Michael Jackson nos Estados Unidos, em uma parceria que apenas recentemente foi lançada de forma oficial. A aproximação das lendas teve início em 1980, quando Jackson conheceu os integrantes do Queen em um show em Los Angeles. Michael ficou fascinado por Mercury e o convidou para conhecer sua mansão e estúdio, onde as colaborações começaram a ser registradas.

Os encontros renderam as demos de "State of Shock", que foi retrabalhada e lançada posteriormente por Michael com Mick Jagger, a inédita "Victory" e "There Must Be More to Life Than This", que saiu sem os vocais de Michael em 1985 e, 29 anos depois, ganhou versão na coletânea "Queen Forever".

A ideia da dupla era experimentar em estúdio, sem compromisso de transformar as sessões em singles ou discos. Inicialmente, o Queen não estava envolvido no projeto, que naufragou devido a incompatibilidade de agenda. Como a banda passou a excursionar pouco nos Estados Unidos após a má repercussão do clipe de "I Want to Break Free", eles não conseguiram manter contato.

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Show na África do Sul durante o apartheid

Em outubro de 1984, o Queen causou uma grande polêmica ao aceitar uma proposta milionária para se apresentar no resort Sun City, próximo a Joanesburgo, na África do Sul, em pleno regime do apartheid. Na época, a ONU já considerava crime a segregação racial, e eventos internacionais agendados no país, como shows e corridas de F-1, eram mal vistos pela comunidade internacional.

O baterista Roger Taylor já afirmou que se arrepende amargamente do show na África do Sul, que fechou portas e sujou a reputação do grupo. Já o guitarrista Brian May pensa diferente. Ele não se arrepende e nega que, ao longo de quase cinco décadas, o Queen tenha apoiado qualquer tipo de política racista, como chegou a ser ventilado.

"Se você decidir não tocar em países cuja política você desagrada, sobrariam poucos lugares", disse May. "Vou dizer até o dia em que morrer que nós agimos de acordo com nossa consciência. Fomos lá para tocar música, como fizemos em muitos lugares."

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A namorada de Freddie nos anos 1980

Na primeira metade dos anos 1980, época em que o Queen atravessou crises, Freddie Mecury se tornou amigo íntimo de Barbara Valentin, atriz austríaca que participou do clipe do Queen "It's a Hard Life". Com trânsito livre na comunidade gay, ela acompanhou o vocalista em suas históricas incursões na noite de Munique e, mais do que isso, o incentivou a explorar sua bissexualidade. Rapidamente, tornou-se amiga, confidente e amante do cantor.

Barbara foi tão importante na vida e na carreira de Mercury que eles chegaram a morar juntos em um flat. Barbara esteve no Rock in Rio de 1985 e foi também uma das primeiras pessoas a desconfiar de que o cantor havia contraído o vírus HIV, quando, temendo uma contaminação, ele a expulsou aos gritos do banheiro após se cortar com uma lâmina de barbear.

A atriz morreu em 2002, vítima de um AVC, e até hoje é pouco lembrada na biografia de Mercury, ao contrário de Mary Austin, ex-mulher que inspirou "Love of My Life" e herdou parte de sua fortuna. A história de Barbara é contada parcialmente no docudrama "The Freddie Mercury Story: Who Wants to Live Forever" (2016), do Channel 5 britânico, disponível em inglês no YouTube.

Neal Preston/Queen Productions
Imagem: Neal Preston/Queen Productions

Censura e propina no Brasil

O livro "A Verdadeira História do Queen", lançado no Brasil em 2015 pela editora Seoman, revela bastidores da primeira turnê da banda Brasil, em 1981, quando se apresentou apenas em São Paulo. A ideia era tocar também em Belo Horizonte, no Mineirão, e Rio, no Maracanã, mas as negociações não avançaram.

Na capital fluminense, o governador Chagas Freitas barrou a apresentação no estádio declarando que o Maracanã só poderia receber "eventos de relevância desportiva, religiosa ou cultural", como a visita do Papa e o show do Frank Sinatra, ambos realizados em 1980.

Outro episódio marcante desta turnê: o transporte de equipamentos da Argentina até o Brasil foi feito por terra, e a comitiva do Queen precisou subornar oficiais alfandegários para liberarem as cerca de cem toneladas de material.

"Em São Paulo, os guardas costas designados para o Queen haviam sido recrutados entre os membros do tristemente famoso 'Esquadrão da Morte', uma ramificação extraoficial da polícia brasileira", escreve o autor Mark Blake. "Eles eram brutais, capazes de matar pessoas por qualquer motivo banal", disse Mercury.

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