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Susto e tristeza: como a banda de Roger Waters reagiu às vaias do público

O guitarrista Jonathan Wilson, integrante da banda de Roger Waters na turnê "Us + Them" - Emerson Santos/FotoArena/Estadão Conteúdo
O guitarrista Jonathan Wilson, integrante da banda de Roger Waters na turnê "Us + Them" Imagem: Emerson Santos/FotoArena/Estadão Conteúdo

Leonardo Rodrigues

Do UOL, em São Paulo

18/10/2018 17h41

As vaias que varreram o Allianz Parque no primeiro show da turnê de Roger Waters no Brasil, na semana passada, após o ex-Pink Floyd criticar no palco o presidenciável Jair Bolsonaro (PSL), foram uma das maiores e mais ruidosas de toda a carreira do artista e certamente a mais intensa já experimentada pelos músicos de sua banda de apoio. 

Os integrantes descrevem a reação da plateia usando palavras como "louca", "triste" e "inesquecível", experiência que não esquecerão tão cedo. Segundo eles, a mistura de susto e surpresa pelos protestos logo se estendeu aos bastidores e virou assunto em corredores de hotel e passagens de som.

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O que ocorreu: no show do dia 9 em São Paulo, dois após o primeiro turno da eleição presidencial, Waters exibiu em seu telão a hashtag #EleNão. O público, de cerca de 45 mil pessoas, imediatamente se dividiu em aplausos e muitos xingamentos. A "guerra fria" durou cerca de cinco minutos. Ao fim da apresentação, que ainda listou Bolsonaro como neofascista, houve relatos de brigas na pista motivadas por discordância política.

“Definitivamente não estávamos esperando aquela reação”, diz ao UOL o guitarrista da turnê Jonathan Wilson, que não percebeu de imediato o que estava acontecendo. “A banda usa retornos nos ouvidos. Temos fones que atenuam o som ao redor. Então eu não ouvi nada na hora. Só no dia seguinte tomei conhecimento do ocorrido e de toda a questão política do Brasil.”

“No momento, foi um pouco confuso, porque fazemos shows em estádios de futebol, na Inglaterra, e às vezes o barulho de aplausos parecem os de vaias", conta Jess Wolfe, uma da backing vocals de Roger Waters, integrante do grupo Lucius. "Foi insano. Pensamos: ‘O que está acontecendo aqui?’. Depois, as pessoas estavam brigando. Foi algo lamentável e triste. Não foi nossa intenção causar isso aqui. A mensagem do espetáculo é a de união.”

Apesar de desconheceram a conjuntura política brasileira, Jess e Jonathan endossam as críticas feitas durante o show, que também alvejam políticos e personalidades mundiais como Donald Trump e Mark Zuckerberg, entre tantas outras. O alvo são "poderosos" que ameaçam os direitos humanos. Cientes disso, os dois músicos comparam a situação brasileira à vivida atualmente pelos norte-americanos, que também vêm se entrincheirando entre apoiadores e críticos do republicano. Mas por aqui a altercação é mais turbulenta.

“Todos nós estamos abertos a entender o que está acontecendo no seu país. Mas é preciso entender que a política é parte do conceito do show, e é normal que algumas pessoas não entendam o que é dito, apesar de gostarem do som. [A discordância] Faz parte do negócio. Temos de aprender a lidar com isso”, entende Wilson, que diz que, no Brasil, a polarização tem mais cores e é ainda mais complexa do que a dos Estados Unidos, onde a banda também já foi vaiada.

Holly Laessig e Jess Wolfe, da banda Lucius, que fazem os backing vocals do show de Roger Waters - Emerson Santos/FotoArena/Estadão Conteúdo - Emerson Santos/FotoArena/Estadão Conteúdo
Holly Laessig e Jess Wolfe, da banda Lucius, que fazem os backing vocals do show de Roger Waters
Imagem: Emerson Santos/FotoArena/Estadão Conteúdo

Mensagem de união

Enquanto xingamentos berraram em São Paulo e em Brasília, no show realizado nesta quarta-feira (17), em Salvador, a mensagem de Roger Waters ecoou positivamente, especialmente durante a homenagem ao mestre capoeirista Moa do Katendê, morto a facadas no último dia 7 após discutir com um apoiador de Jair Bolsonaro segundo a Secretaria da Segurança Pública da Bahia, por motivação político-partidária.

“Conversamos depois do primeiro show e estamos conversando todos os dias sobre isso [a polarização no Brasil]. Para além das opiniões políticas, o que estamos tentando simpatizar é com o sentimento de desesperança das pessoas aqui. A campanha do #EleNão não tem a ver com apoiar um candidato, mas em rejeitar um deles. Isso é muito triste. Estamos discutindo o que é possível fazer para mudarmos isso e não fazer parte de nenhum discurso de ódio”, afirma Jess.

Apesar de baterem na tecla da positividade, os músicos reconhecem que o sentimento ainda é estranho em cima do palco, e que provavelmente ele se perpetuará até o fim da turnê brasileira, que passará ainda por Belo Horizonte (no dia 21), Rio (dia 24) e Curitiba (dia 27), antes do encerramento em Porto Alegre (dia 30), dois dias após o segundo turno da eleição para presidente. Promessa de mais shows quentes.

“A parte boa do que vivemos é que as pessoas estão tentando de alguma forma fazer a diferença. Mas é muito triste a necessidade de extremismo. É difícil conviver atualmente. Não leio mais Facebook. É sempre uma decepção. Queremos mostrar que acreditamos no amor e na união e queremos fazer as pessoas se sentirem bem nos shows, com alívio e alegria”, conclui a backing vocal.

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