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Roger Waters e Pink Floyd: O que você precisa saber antes de ir ao show

Reinaldo Canato / UOL
Roger Waters se apresenta em São Paulo Imagem: Reinaldo Canato / UOL

Leonardo Rodrigues

Do UOL, em São Paulo

10/10/2018 16h54

O show que Roger Waters fez na terça-feira (9) em São Paulo, no estádio Allianz Parque, abrindo sua nova turnê brasileira, foi marcado por vaias, respondidas por estridentes gritos de apoio, que pegaram muita gente de surpresa. O motivo: ainda no calor das eleições presidenciais, o ex-Pink Floyd usou e abusou de seu discurso politizado, criticando vários políticos do mundo considerados totalitários --e, na visão do artista, essa lista inclui o brasileiro Jair Bolsonaro (PSL).

Se você ficou sem entender por que o vocalista e baixista, um dos grandes ícones do rock, adotou essa postura e quer saber o que ele ainda pode apresentar nos próximos shows no país, destacamos seis pontos que devem ser levados em consideração pelo fã para não correr o risco de ficar a ver navios durante a apresentação.

Os próximos concertos acontecem em São Paulo (nesta quarta, novamente no Allianz Parque), em Brasília (no dia 13, no estádio Mané Garrincha), Salvador (17, Arena Fonte Nova), Belo Horizonte (21, Mineirão), Rio (24, Maracanã), Curitiba (27, estádio Couto Pereira) e Porto Alegre (30, estádio Beira-Rio).

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Imagem: Reinaldo Canato / UOL

Waters tem trauma com guerra

A guerra é um tema recorrente na vida e na carreira de Roger Waters. Seu pai, Eric Fletcher Waters, filho de um mineiro de carvão, era professor e um cristão devoto membro do Partido Comunista britânico. Em meio a ascensão de Hitler na Alemanha, ele resolveu deixar o pacifismo de lado e se juntar ao Exército britânico. Foi morto combatendo fascistas durante a Segunda Guerra em 18 de fevereiro de 1944, durante a batalha de Anzio, quando Roger tinha apenas cinco meses. É um trauma que o músico jamais conseguiu superar.

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Imagem: Reprodução

É crítico voraz do nazismo e autoritarismo

Tais críticas aparecem em vários momentos da carreira de Waters, mas ficam mais que evidentes em "The Wall" (1979). No álbum conceitual do Pink Floyd, o personagem principal, Pink, tem uma crise de depressão e recebe um medicamento alucinógeno. Ele então se vê em um comício neonazista, em que fãs considerados inaptos se transformam em militantes de extrema-direita, referência direta ao Terceiro Reich. O disco traz ainda várias outras críticas a regimes totalitários, que, por meio do ódio e da força, buscam planificar a educação e cercear vozes dissonantes.

Reprodução/YouTube
Imagem: Reprodução/YouTube

É pró-Palestina e não se dá com Trump

Na visão de Roger Waters, o presidente norte-americano, Donald Trump, é o maior expoente da nova onda de extremismo político, que chama de neofascismo. Devido a sua política isolacionista, que, entre outros pontos, coíbe imigrantes e apela para discursos virulentos, o republicano é o principal alvo da turnê do músico. Durante o show, ele é comparado a um porco cínico, ganhando corpo suíno e batom em ilustrações exibidas no telão. Apesar de ser abertamente pró-Palestina e já ter criticado músicos que se apresentam em Israel, como Caetano Veloso, Waters também critica o antissemitismo e todos os tipos de intolerância, incluindo a religiosa.

Reinaldo Canato / UOL
Imagem: Reinaldo Canato / UOL

Do que se trata a música do Pink Floyd

Roger Waters fala, desde os anos 1970, de política e crítica social. Nunca percebeu? Então preste a atenção em três álbuns clássicos do Pink Floyd, da fase em que ele assumiu o protagonismo da banda. "Animals", que é inspirado em "A Revolução dos Bichos" e ironiza o liberalismo desenfreado; "The Wall" e "The Final Cut", que falam de isolamento social e do perigo da ascensão de regimes ditatoriais, com apoio militar. Na carreira solo de Waters, defensor dos direitos humanos, essa temática também aparece forte. Ou seja, não espere um show chapa branca ou voltado apenas a reflexões existenciais e introspectivas.

Veja dois exemplos de letras fortes de Roger Waters sobre o tema.

Ei, você, Whitehouse / Haha, que falsa você é
Sua ratazana conservadora / Que charada você é
Você está tentando manter nossos sentimentos presos / Você é quase uma surpresinha agradável
Toda lábios cerrados e pés frios / E você se sente ofendida?
Letra de "Pigs (Three Different Ones)", do álbum "Animals"

Há alguma bicha aqui esta noite? / Ponha-os contra o muro!
Lá está um no holofote, ele não parece certo pra mim / Ponha-os contra o muro!
Aquele parece ser judeu! / E aquele é um preto!
Quem deixou toda essa escória entrar?
Tem um fumando maconha e outro com espinhas!
Se fosse do meu jeito, eu fuzilaria todos vocês!
Letra de "In The Flesh", do álbum "The Wall"

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Imagem: Reprodução

Já celebrou a queda do comunismo

Mas esse cara não é um comunista que ama Cuba, Venezuela e que pede a volta da União Soviética? Não é preciso muito esforço para entender que isso não faz sentido. Em 1989, após a queda do muro de Berlim, ele promoveu um grande show na capital alemã inspirado no fim da divisão do país e do mundo polarizado como o conhecíamos. Realizado na Potsdamer Platz, na capital alemã, o concerto foi visto por cerca de 200 mil pessoas, considerado um dos maiores da história, e reuniu convidados de vários estilos e convicções políticas diferentes, como Bryan Adams, Scorpions, Van Morrison, Cindy Lauper, Ute Lemper e Joni Mitchell.

Alberto César Araújo/Folha Imagem
Imagem: Alberto César Araújo/Folha Imagem

Já compôs ópera sobre a Revolução Francesa

Defensor da democracia, Roger Waters critica, por exemplo, o russo Vladmir Putin por flertar com a extrema-direita e também com a extrema-esquerda. Para o artista, o problema está no extremismo da ideologia. Waters já abordou a Revolução Francesa em sua ópera contemporânea "Ça Ira" (2005), montada no Brasil, em que celebra a liberdade, igualdade e a fraternidade. Caros ao artista, os ideais iluministas ajudaram a fundar o liberalismo e a derrubar monarquias absolutistas, servindo de inspiração para a independência dos Estados Unidos.

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