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"Machucou", diz cantora que perdeu papel de Ivone Lara por cor de pele

A cantora Fabiana Cozza no "Conversa Com Bial" - Reprodução/TV Globo
A cantora Fabiana Cozza no "Conversa Com Bial" Imagem: Reprodução/TV Globo

Colaboração para o UOL

26/09/2018 03h10

A cantora Fabiana Cozza relembrou no "Conversa Com Bial" de terça-feira (25) a polêmica que a levou a renunciar o papel de Dona Ivone Lara em um musical sobre a trajetória da sambista, que morreu em abril. Ela não aceitou o convite para "Dona Ivone Lara - Um Sorriso Negro" após duras críticas por ser considerada "branca demais" para interpretá-la.

Setores do movimento negro questionaram a escolha e apontaram a situação usando o termo "colorismo", que se refere às situações em que negros e pardos de pele clara sofrem menos discriminação ou têm mais oportunidades do que aqueles de pele mais escura. Fabiana diz como lidou com isso.

"Eu tive que entender. Quando as reivindicações começaram, eram muitas vozes e falas que dissoavam. As pessoas falavam da representatividade, do tom de pele igual ao da Ivone. Tive na minha vida amigos preteridos por tons de pele. Naquele momento o que vinha era meu lugar de fala: eu era artista, cantora, era legítimo eu conquistar esse lugar pelo viés artístico", explica.

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Ela leu no palco trechos do texto que publicou na época em que renunciou o papel. "Renuncio por ter dormido negra numa terça-feira e numa quarta, após o anúncio do meu nome como protagonista do musical, acordar 'branca' aos olhos de tantos irmãos. Renuncio ao sentir no corpo e no coração uma dor jamais vivida antes: a de perder a cor e o meu lugar de existência. Ficar oca por dentro", escreveu em suas redes sociais na ocasião.

"Era um desabafo. Claro que essa situação me machucou pelos ataques. A minha renúncia foi pautada pelas histórias [dos amigos] que eu lembrava. A gente precisa recuar para avançar. Se ficasse surda a isso, não estaria do lado que sempre estive", confessa.

Filha de mãe branca e pai negro, a cantora conta como notou o racismo na vida. "Percebi na escola, as brancas tinham benefícios que as negras não tinham. Eu me entendo negra depois que começo a cantar. As minhas situações [de racismo] sempre são internacionais. Quando viajo ao exterior para cantar, sou separada com os africanos ou os palestinos pela Polícia Federal. Nós somos exilados", desabafa.

Apesar do dissabor em não poder interpretar a sambista nos palcos, Fabiana acha o tema válido. "Nunca vi tanta gente interessada nessa discussão. Não me sinto vítima de nada. A questão do racismo é um problema do Brasil, se a gente não encarar, não vai avançar".

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