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Emma Stone e Jonah Hill fazem retrato maluco da solidão moderna em "Maniac"

Renata Nogueira

Do UOL, em São Paulo

21/09/2018 04h00

Emma Stone e Jonah Hill são o chamariz de "Maniac", série original da Netflix que estreia nesta sexta-feira (21) no serviço de streaming com seus dez episódios disponíveis. Os atores, que já tinham trabalhado juntos no início dos anos 2000 em "Superbad", se reencontram depois de uma longa experiência de cinema acumulada após a comédia cult para contar a história de Annie e Owen, dois estranhos que viram cobaias de um laboratório ao testar uma nova droga que promete curar mentes perturbadas em três passos.

A premissa de uma experiência de uma indústria farmacêutica testando a substância em cobaias humanas traz uma boa dose de solidão moderna em grupo. Annie (Emma Stone) dá um jeito de se infiltrar no experimento para alimentar seu vício em um dos comprimidos oferecidos no teste que ela adquiria ilegalmente. Owen (Jonah Hill) quer se adequar à sociedade em que vive e se livrar das alucinações que o acompanham junto com um diagnóstico de esquizofrenia. 

Juntos eles passeiam entre realidade, sonhos e alucinações em busca da cura para questões pessoais que os isolaram. Ela tenta sobreviver de bicos, que vão desde vender a sua imagem para anúncios aleatórios até usar um tal de Anúncios Já, sistema em que uma pessoa te bombardeia com publicidade em uma rede de trocas que pode valer desde um maço de cigarros até uma passagem de metrô. Ele é o esquisitão de uma família milionária que nada quer dos pais e é mentalmente perturbado pelo irmão.

Annie acaba descobrindo o motivo de ter se viciado no primeiro comprimido do tratamento, que é dividido em três fases: A, B e C. Quando começa a levar a experiência a sério, ela se dá conta de que precisa se livrar de uma depressão causada por uma situação relacionada à irmã mais nova (vivida pela ótima Julia Garner, atriz que será reconhecida de cara por quem já assistiu "Ozark" ou "The Americans").

Já Owen --que começa resistente às pílulas-- fica cada vez mais confuso quando ele e Annie, até então desconhecidos, cruzam a linha da convivência esquisita dentro do laboratório para se encontrarem nas alucinações causadas pelas drogas a partir do comprimido B. São nesses episódios que a série ganha um tom de comédia sombria, com os atores mostrando toda sua versatilidade para personagens que vão desde um típico casal da classe média norte-americana até aventureiros na Idade Média.

Emma Stone e Jonah Hill - Divulgação/Netflix - Divulgação/Netflix
Emma Stone e Jonah Hill em uma das alucinações dos protagonistas de "Maniac"
Imagem: Divulgação/Netflix

Um futuro no passado

Os primeiros episódios, que também são os mais longos (cerca de 50 minutos), dão uma boa introdução do ambiente e aos personagens que o espectador vai acompanhar na trama um pouco mais alucinante que se desenvolve a partir do terceiro capítulo. O cenário é um futuro esquisito, algo parecido com o que já seu viu em "De Volta Para o Futuro". Um mundo com tecnologias avançadas instaladas em máquinas que parecem ter saído dos anos 80. "Maniac" é mesmo uma viagem, mas tem volta e faz sentido.

O laboratório com luzes coloridas e funcionários que fumam sem parar dentro das instalações não deixam claro se estamos em um passado recente ou um futuro distante. Carros antigos passam pelas ruas, mas as calçadas são limpas por robozinhos que usam uma tecnologia parecida com a de aspiradores autônomos. As máquinas parecem ter parado no tempo, mas conversam com os humanos.

Passada essa primeira parte, mergulha-se na cabeça dos personagens e nas viagens para outros cenários. É hora de explorar em capítulos mais curtos (com cerca de 40 minutos) não só as experiências causadas pelos comprimidos como o histórico de outros personagens, como a Dra. Fujita (Sonoya Mizuno), uma das condutoras do laboratório, e o curioso James Mantleray, papel de Justin Theroux, o criador que assume o experimento depois de um enorme imprevisto logo no início.

Justin Theroux em cena do sexto episódio de "Maniac", nova minissérie da Netflix - Michele K. Short/Netflix - Michele K. Short/Netflix
Justin Theroux se comunica com o computador GRTA em cena de "Maniac"
Imagem: Michele K. Short/Netflix

Algoritmo perfeito

Seja pelo elenco, seja pela história, "Maniac" certamente vai pescar muitos espectadores pelo sistema de algoritmo da Netflix, aquele que entende o que você quer assistir com base no que já consumiu. Isso porque Cary Fukunaga, que dirige todos os dez episódios da nova série, costurou brilhantemente as várias referências de cinema, literatura e do próprio universo das séries para tratar das questões que envolvem a complicada mente humana. Algumas são muito claras, como "Dom Quixote", que ao perder o juízo cria sua própria realidade.

A obra-prima do espanhol Miguel de Cervantes aparece tanto fisicamente nas mãos de Annie - que promete "virar adulta e ler aquele livro" - como em uma das alucinações em que ela e Owen se encontram e viram metaforicamente Don Quixote e Sancho Pança em uma aventura durante uma festa para recuperar o lendário capítulo perdido da segunda parte da obra clássica. Quando Owen diz ao farmacêutico que se sente como no filme "A Felicidade Não Se Compra" não é preciso ir muito longe também.

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A bagagem do espectador pode trazer também uma sensação de dèja-vu. Os vídeos que introduzem o experimento lembram muito os da iniciativa Dharma de "Lost". O laboratório em que se passa boa parte da trama de "Maniac" também poderia ser facilmente confundido com corredores da companhia elétrica onde rolam os experimentos de "Stranger Things". E fã de ficção científica que se preze vai sacar na GRTA uma homenagem a HAL 9000, o computador com sentimentos imortalizado em "2001: Uma Odisséia no Espaço".

Para os ainda mais atentos, detalhes da trama também lembram alguns episódios da série sensação "Black Mirror". Seja a solidão de buscar uma amizade fake em um sistema em que um desconhecido te encontra e se passa por um amigo seu, sejam robôs de todas as formas interagindo com humanos ou um sistema que te permite fazer sexo em realidade virtual. Ou até mesmo o esforço de trazer uma pessoa que já foi para outro plano de volta à vida.

"Maniac" confunde em alguns momentos, mas acerta ao fazer refletir de forma inteligente sobre a saúde mental. Aos 41 anos, o cineasta Cary Fukunaga já havia mostrado do que é capaz na própria Netflix com o filme "Beasts of No Nation" e na HBO com a aclamada primeira temporada de "True Detective". Recém-contratado para dirigir o próximo "007", ele expande sua capacidade criativa e deve presentear o serviço de streaming com mais uma série que todo mundo vai querer discutir.