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Atores de "Ferrugem" já viram de perto consequências de imagens íntimas vazadas

Tiffanny Dopke e Giovanni de Lorenzi testemunharam casos como o do filme em suas escolas - Rosano Mauro Jr./Divulgação
Tiffanny Dopke e Giovanni de Lorenzi testemunharam casos como o do filme em suas escolas
Imagem: Rosano Mauro Jr./Divulgação

Natalia Engler

Do UOL, em São Paulo

30/08/2018 04h00

Adolescentes filmam um momento íntimo e o vídeo acaba se espalhando pela escola e afetando principalmente a vida da garota. Esta é a história de “Ferrugem”, de Aly Muritiba (“Para Minha Amada Morta”), que estreia nesta quinta-feira (30) depois de vencer o prêmio de melhor filme no Festival de Gramado. Mas está tão próxima da realidade que dois de seus protagonistas testemunharam casos parecidos bem de perto.

“Uma garota da minha escola mandou uma foto para o namorado e ele não se contentou e teve que espalhar para os amigos. Em dois dias, a foto tinha viralizado e todo mundo do colégio já tinha recebido”, conta a curitibana Tiffanny Dopke, 18.

Ela, única dos protagonistas que ainda está na escola, contou essa história para Muritiba antes de fazer o teste para o filme, no qual interpreta Tati, uma garota normal, que gosta de compartilhar momentos de sua vida nas redes sociais e está se aproximando de um garoto de sua sala, Renet (Giovanni de Lorenzi). Mas tudo é interrompido quando um vídeo dela em um momento íntimo com o ex-namorado cai no grupo de Whatsapp do colégio, com graves consequências para todos os envolvidos.

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Giovanni, 22, também viu de perto uma história semelhante quando ainda estava na escola. “Eu não estava tão inserido no contexto social da sala quando aconteceu, ficava mais à parte com o meu melhor amigo, então só fiquei sabendo depois. Na época não entendi direito o que estava acontecendo, mas se fosse hoje, acho que eu teria me posicionado contra, independentemente de quem fosse. Porque não adianta só não espalhar o vídeo ou a foto, tem que falar pra quem está fazendo que aquilo está errado”, acredita ele, que no filme interpreta um dos suspeitos de ter vazado o vídeo de Tati.

Uma pesquisa realizada em 2014 pelo Instituto Avon reforça esse panorama: 41% dos homens de 16 a 24 anos entrevistados já haviam recebido fotos ou vídeos de mulheres conhecidas nuas, e 28% repassaram esse tipo de imagem.

Duas vidas

“Se você faz uma busca na internet, o número de casos é assustador”, diz Muritiba. Pai de dois filhos, ele conta que a vontade de fazer “Ferrugem” veio de casa, quando começou a discutir com a ex-mulher se deveriam dar um celular para o filho, e como controlariam o uso.

“Comecei a pensar muito na internet e no que é ser um adolescente com essas duas vidas, real e virtual”, conta o diretor.

Sempre conectados –“Estou sem celular há dois dias e está um caos!”, exclama Tiffany—, os protagonistas começaram a pensar mais sobre como se expõem nas redes sociais depois de atuar em “Ferrugem”.

“A gente foi criado por pais e avós que não viveram isso, que também estão aprendendo a lidar, então falta essa orientação”, acredita Nathalia Garcia, 23, que interpreta a melhor amiga de Tati, Daniela.

Muritiba concorda. “Eu tenho 39 anos e a maioria dos pais que conheço estão nessa faixa. Somos uma geração muito infantilizada, que cresceu ouvindo que não podia dizer não pros filhos, que não podia frustrar os filhos. Então essa geração tem pais que ou são muito ausentes, como os pais da Tati no filme, ou são superprotetores, como o pai do Renet. Mas nós precisamos agora parar e entender as consequências dessas coisas (das redes sociais), como nossos filhos estão expostos a elas, porque foi tudo acontecendo muito rápido e nos atropelando”.

Responsabilidade e consequências

Nathalia aponta a importância de outro aspecto levantado pelo filme: a responsabilidade com o que você publica e como isso pode afetar outras pessoas. “Outro dia eu postei uma foto mostrando a minha barriga depois de comer muito e dizendo que eu estava gordinha. Recebi vários comentários dizendo que era gordofobia, e eu não tinha pensado sobre isso antes. É um aprendizado mesmo”, diz.

Um aprendizado lento, como mostra a experiência de Tiffanny, que diz ter se afastado de algumas pessoas e mudado seu círculo de amizades depois de viver Tati e perceber o quanto algumas pessoas que a cercavam julgavam e excluíam outras com base em preconceitos.

“Depois que aconteceu o caso na minha escola, a gente teve um dia de palestras e conversas, e no fim todo mundo estava concordando que aquilo era errado, que era horrível expor alguém dessa maneira. Mas ninguém lembrava do que tinha acontecido dois dias antes e de que muita gente ainda não estava falando com a garota, que ficou totalmente isolada, enquanto não aconteceu nada com o garoto”, lembra.

Mas ela acredita que o filme pode ajudar a criar uma conversa aberta sobre o assunto, como já aconteceu depois da exibição em um dos principais festivais de cinema infantojuvenil, o Giffoni  Film Festival, na Itália.

“Vários garotos vieram falar com a gente e dizer que o filme tinha dado uma nova perspectiva pra eles, que fez eles repensarem suas atitudes. E isso em um outro país, uma outra cultura, então acho que que a gente conseguiu se comunicar com esse público”, conta a atriz.

Cena do filme "Ferrugem" - Divulgação - Divulgação
Em "Ferrugem", Tati (Tiffanny Dopke) tem um vídeo íntimo espalhado para todo o colégio, e Renet (Giovanni de Lorenzi) é um dos suspeitos
Imagem: Divulgação

Conversa entre gerações

Para conseguir se comunicar com uma geração que não é a sua, Muritiba contou com a experiência de ter trabalhado como professor de história em um colégio de elite em Curitiba. “Ali eu entendi muito cedo que não podia adotar um tom professoral com eles. Você tem essa figura que não é exatamente amigo, que está ali pra ensinar. Mas entendi logo que se ficasse dando lições de moral, isso me afastaria deles”.

Além de muita pesquisa, o cineasta também aproveitou o fato de que seus atores tinham a mesma idade que o público com quem gostaria de falar para entender seu universo e como se comunicar com eles.

“Eu montei uma classe mesmo, 30 e poucos atores, e fizemos uma preparação de um mês. Já tínhamos feito muita pesquisa antes de escrever o roteiro, mas algumas coisas saíram dali. A cena no restaurante em que o Edu (Pedro Inoue) chega com a senha da internet antes de eles escolherem a comida aconteceu exatamente daquele jeito. A gente estava no restaurante, alguém foi pegar a senha e de repente estavam todos com a cara enfiada no celular. Isso é muito representativo da geração deles”, conta.

“No fim, o contexto, o ambiente da internet, é diferente do da nossa adolescência, mas as questões ainda são as mesmas –eles também querem ser aceitos, pertencer a um grupo, se encaixar”, acredita. E, para ele, o cinema e a TV estão começando a perceber que podem falar desse universo de uma outra forma.

“Estamos percebendo que não precisamos tratar esses jovens como infantilizados, que podemos falar de temas mais sérios e eles vão entender. Os desenhos a que minha filha de 10 anos assiste, por exemplo, como ‘Gravity  Falls’, são caóticos, metem o pau em tudo, e ela entende”, diz o cineasta, que espera que seu filme ajude a criar uma conversa intergeracional sobre temas como bullying, exposição na internet, machismo etc.

E agora que você sabe?

Para ampliar o debate sobre as consequências do compartilhamento de imagens íntimas, “Ferrugem” se desdobrou em uma campanha abraçada por youtubers e influenciadores.

Partindo do questionamento “E agora que você sabe?” (referência ao fato de que muita gente alega não saber que está fazendo algo errado quando compartilha esse tipo de conteúdo), o site do filme traz dicas para vítimas, pais e para quem já espalhou ou recebeu imagens íntimas de alguém.