Topo

Geek

Análise: Não fazia mesmo mais sentido continuar com "The Big Bang Theory"

Divulgação
O elenco principal de "The Big Bang Theory" Imagem: Divulgação

Felipe Branco Cruz

Do UOL, em São Paulo

23/08/2018 12h51

Faz sentido dar adeus a uma série de TV que se manteve como um sucesso incontestável por quase 12 anos e que moldou a cultura pop de sua geração? Não, não faz o menor sentido se você analisar apenas por seus excelentes números. Mas o término é completamente coerente se o que estiver em jogo for o seu legado. Esse sim, muito mais importante do que qualquer balanço financeiro apresentado no final do trimestre.

A notícia de que “The Big Bang Theory”, vencedora de 10 prêmios Emmy, vai acabar em maio de 2019, quando for ao ar o último episódio da derradeira 12ª temporada, não pegou ninguém de surpresa.

O desfecho já era cogitado há duas temporadas, mas os milhões de espectadores e, claro, o dinheiro movimentado, foram responsáveis por uma sobrevida (muito divertida, diga-se) de mais alguns anos. Mas, há muito tempo que os fãs sentiam que a história ficava dando voltas e não avançava em novos caminhos. 

O fato é que o enredo já não tinha mesmo para onde avançar. Seus personagens amadureceram, casaram e tiveram filhos, que é o rumo natural da maioria dos adultos. Aquela vida de estudantes universitários (embora todos fossem gênios com pós-doutorado, menos o Howard, é claro) que dividiam minúsculos apartamentos em Pasadena, na Califórnia, já não fazia mais sentido --nem para o roteiro, nem para os atores. Enfim, tudo havia mudado. Exceto o elevador do prédio onde eles moravam, que até hoje continua quebrado.

Leia também:

Divulgação
Amy (Mayim Bialik) e Sheldon (Jim Parsons) posam com os pais da noiva em "TBBT" Imagem: Divulgação

Mais que amigos, “Friends”

O fim de “The Big Bang Theory” é semelhante ao que foi o de “Friends”, que acabou em 2004, após 10 temporadas e 236 episódios. A série, assim como “Big Bang”, era uma das mais populares dos Estados Unidos e pagava uma fortuna para seus atores. Mas no final, seus personagens também se casaram, tiveram filhos, enfim, cresceram.

Em 2007, três anos depois do fim de “Friends”, surge “The Big Bang Theory”. A série ocupa o vácuo deixado pelos amigos de Nova York e conquista os fãs antigos de Rachel, Monica, Phoebe, Joey, Chandler e Ross que, imediatamente, se identificam com a dinâmica casa-café-casa da nova série. Mas os millennials, esses novos telespectadores, mais ligados na cultura geek, também são fisgados.

Se em “Friends” a turma discutia em uma cafeteria de Nova York como pagar as contas no final do mês, em “Big Bang” o foco muda para a cultura geek. Agora, os amigos discutiam sobre o mais recente lançamento dos quadrinhos e a ordem correta de se assistir aos filmes de “Star Wars”. Muda o assunto, mas não muda a dinâmica de sucesso.

Divulgação
"The Big Bang Theory" seguiu a mesma fórmula de "Friends" Imagem: Divulgação

É inegável que “The Big Bang Theory” se aproveitou da fórmula bem-sucedida de “Friends”. Em ambas, os roteiristas souberam captar o comportamento dos “jovens adultos”, aquelas pessoas entre os 20 e os 30 anos, que saíram de casa e foram morar na cidade grande, mas ainda não se casaram e nem têm dinheiro para morarem sozinhos. A saída? Dividir um apartamento com um “roomate”.

Só quem já passou por isso sabe que muitas situações representadas na TV poderiam ter acontecido de verdade. Mas, mesmo quem nunca morou sozinho, também era capaz de se identificar com esses personagens. E os 18,6 milhões de espectadores por semana que “The Big Bang Theory” ainda tem estão lá para comprovar.

Ator de um papel só

Divulgação
Cena da série "Young Sheldon", spin off de "Big Bang Theory" Imagem: Divulgação
Quando “The Big Bang Theory” acabar, os cinco atores iniciais: Jim Parsons, Johnny Galecki, Kaley Cuoco, Simon Helberg e Kunal Nayyar terão acumulados 279 episódios no currículo. Para um artista, é difícil se prender por tanto tempo, como eles se prenderam, a um mesmo personagem sem correr o risco de ficar marcado pelo resto da vida.

Pois foi o que pensou Jim Parsons, o Sheldon, que começou a se questionar se era isso mesmo que ele queria para a sua carreira e se já não era a hora de sair em busca de novos desafios. De acordo com uma reportagem da "Entertainment Weekly", o ator já havia comunicado sua decisão de deixar a série em 2019. Para a CBS e a Warner, portanto, não faria sentido continuar com o programa sem um dos seus principais personagens.

Seu personagem, inclusive, ganhou recentemente um spin-off. A série “Young Sheldon” está em sua segunda temporada com bons índices de audiência e mostra a infância do excêntrico Sheldon Cooper, no interior do Texas, nos Estados Unidos.

O desejo de Parsons em deixar “Big Bang Theory” talvez tenha sido motivado pelo o que aconteceu com Matt LeBlanc, que interpretou Joey Tribbiani em “Friends” e ficou tão marcado por seu papel que não se conseguiu se desvencilhar dele até hoje.

LeBlanc chegou, inclusive, a estrelar o spin-off  “Joey”, em que reprisava o seu personagem, desta vez em Los Angeles, tentando consolidar a sua carreira de ator. Sem os amigos para lhe dar suporte, a audiência não respondeu e a série foi cancelada depois de duas temporadas.

Assim como em “Friends”, talvez seja mesmo melhor para “The Big Bang Theory” encerrar no auge, ao invés de ter um melancólico fim com episódios escritos apenas para dar lucro, sem nenhuma história para contar.

Divulgação
Todos os amigos reunidos em "The Big Bang Theory" Imagem: Divulgação