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Matuê e a cena de trapstars que estão atualizando o rap nacional

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Matuê: Quatro shows por fim de semana e o objetivo de alcançar o mainstream Imagem: Divulgação

Tiago Dias

Do UOL, em São Paulo

2018-08-03T04:00:00

03/08/2018 04h00

"Dizem que quando se tem um MC de trap dentro do estúdio ele está fazendo crack. O que vai sair dali vai viciar as pessoas". A frase é de Blackout, 25, um dos representantes de uma das cenas efervescentes do rap que tem deixado a obscuridade para se tornar sensação na internet.

O grau de dominação do trap nos últimos tempos é mesmo digno de uma substância viciante. A vertente tem dominado as paradas em várias partes do mundo, através de variações defendidas por Gucci Mane, o trio Migos, Bad Bunny, Lil Uzi Vert, Lil Baby, Future, Juice Wrld e Cardi B.

Na vizinha Argentina, por exemplo, é um trapstar que estampa a capa desse mês da revista "Rolling Stone". Com 22 anos e algumas tatuagens no rosto, Duki é daqueles fenômenos que ninguém conhece, exceto milhões. Seu maior sucesso, "Rockstar", já soma 17 milhões de visualizações no YouTube.

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Matuê Imagem: Divulgação

No Brasil, o cearense Matuê, 24, conseguiu feito semelhante: 15 milhões de acessos no áudio de "Anos Luz", música em que ele manda um recado sob uma batida dançante e melancólica: "Eu vim pra te ensinar que quando o beat dropa / A gente nunca mais pode parar". Nos últimos seis meses, ele viu a cena saltar e agarrou a oportunidade. Passou a fazer quatro shows por fim de semana e ver seus clipes chegando rapidamente na casa do milhão de visualizações.

Matuê é só a ponta desta cena que tem tomado forma desde 2016, com trapstars como Raffa Moreira (que hoje atende por Lil Raff), Blackout, Izumed, Denov, AKA Rasta, MC Igu, Hoffmxn e o coletivo Recayd.

Você pode até nunca ter ouvido falar nesses nomes, mas eles são jovens estrelas de um universo que orbita em torno de uma geração ainda mais nova. Majoritariamente entre 16 e 25 anos, o público se reconhece na batida e nas letras niilistas, que podem versar tanto sobre noites de luxúria quanto sobre questões sociais, devaneios sobre negócios, drogas, vida e morte.

"As redes sociais têm sido a força movedora desse movimento. Cobre um espaço grande que antigamente o rock tomava conta", acredita Matuê. "O trap fala muito da consciência dessa rapaziada. Somos uma juventude que passa por momentos complicados no dia a dia. Querendo ou não, a gente expressa o que a gente vive e pensa. É a atualização mais recente do hip-hop".

Uma atualização que está redefinindo o jogo por aqui. “Quer saber? O trap vai ser o novo funk”, prevê Blackout. “Do mesmo jeito que o funk tomou o lugar do rap, o trap vai fazer isso com o funk."

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Blackout Imagem: Divulgação

Além da batida

Nascido nos anos de 1990 em Atlanta, no estado americano da Georgia, o trap ["armadilha", em inglês] é fruto de uma cena violenta, de quando o tráfico explodia pela região. Ali, rappers com pouca expressão e sem nenhuma grana viram seus sons caseiros explodirem ao serem usados como espécie de lavagem para o dinheiro vindo do tráfico. Hoje, sem esse cenário ligado ao crime, o trap tem sido traduzido no lifestyle e na estética delirante dos clipes.

A principal característica sonora é a atmosfera densa do beat eletrônico, o que tem inspirado nove a cada dez novos sons ligados ao rap, incluindo o sucesso "Beijo com Trap", que o brasiliense Hungria Hip-Hop emplacou em todo o Brasil, ajudando a popularizar o termo.

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Mas a definição vai além. O flow na hora de cantar tem vida própria e não necessariamente obedece a melodia, e até o auto-tune, software que permite corrigir problemas de afinação na voz, passa a ser instrumento essencial na hora da gravação.

"É um estilo de rimar, de vida e de comportamento", explica Blackout. "Existe técnica. Usamos muito backing vocal, dobramos as últimas palavras de um verso para dar um efeito, e tem os cacos, que são aqueles sons que soltamos no meio". Ele exemplifica com uma onomatopeia que lembra o som de um pneu do carro quando canta no asfalto: "É aquele 'skrr', sabe?".

Não sabe? Ouça aqui:

Antes de assumir a alcunha Blackout (e atualmente sua nova faceta, Blackdaddy), o paulista David William cresceu sob a influência do pai rapper e carrega em seu trap elementos do chamado rap clássico. É o caso de "Todos os Pretos de Ouro", que ele vai relançar em breve com participação dos rappers Djonga e Leal, do Primeiramente. "Eu quero implantar o que os Racionais implantaram na época deles, mas com outra visão", explica. 

Blackout ainda não atingiu a casa dos milhões, mas já tem colhido os frutos. "No ano passado eu viajei para sete estados sozinho. Se não fosse o trap, eu nunca teria saído de São Paulo".

Nansy Silvvz, como Matheus Fernando é conhecido, carrega no currículo a produção de uma boa parte dos traps mais ouvidos por aqui, além de assinar os beats de um dos discos de rap mais elogiados dos últimos anos, "Esú", do baiano Baco Exu do Blues. O produtor de 21 anos conta que o dom foi lapidado antes mesmo de completar 18.

Com os macetes aprendidos no Fruit Loops, software mais popular para a produção de trap, ele teve contato direto com artistas de Atlanta e, antes mesmo de se tornar uma referência no Brasil, começou a produzir para gringos como Rey Ruchie, P-Dice, Shotta boy, El Salvaje e Lil Woop. "Lá na gringa o que pega é o timbre de voz. Quanto mais estranho, melhor. Acaba virando um vício", explica. "Um bom trap é aquele você vai escutar e parece que você está em outro lugar. É uma viagem".

Marcus Fosther/Divulgação
Nansy Silvvs Imagem: Marcus Fosther/Divulgação

Trapstar

Matheus Brasileiro, o Matuê, nasceu em Fortaleza, mas passou a infância em Oakland, na Califórnia. De tranças no cabelo e cavanhaque discreto, ele se destacou logo no primeiro lançamento, "RBN", em 2016, com um clipe bem produzido e letra que versa: "O que eu espero é o desenvolvimento no game / A cera, um beck e uma escama de cem".

A linha seguida pelo artista foi proposital para se aproximar do público. "Nos meus próximos sons, eu quero desconstruir isso além do trap, da tiração de onda. Quero falar de questões mais pessoais e introspectivas", explica. "No final das contas, acho que todo mundo está aqui para ser melhor".

A empatia única com o público já fez acender o interesse das gravadoras, que já chamaram o trapstar para conversar. Por enquanto, ele prefere tocar o próprio selo, 30PraUm, que ele gere com a ajuda de dois amigos. "Eu tenho objetivo claro de chegar lá. O que vai fazer a maior diferença é a profissionalização do trap, que deve acontecer entre esse ano e o próximo", prevê. "Por enquanto, o trap é algo obscuro, está na nascente. Ainda tem muito espaço para novos artistas, novas formas de se expressar. Estamos conversando no pé do morro".

Raffa Moreira foge um pouco da faixa etária dos trappers. Aos 30 anos, uma das maiores estrelas da cena chegou a trabalhar no grupo de samba Os Travessos e teve uma banda de emocore na adolescência, o que empresta ao seu som e na estética de seus clipes referências mais pop, além de certa melancolia. Ciente do tamanho que alcançou, ele oferece parcerias para quem está começando. "Estou em Curitiba e isso é foda. Estúdio com meus bros. Feats R$ 500. Prepare o depósito para hoje. DM para fecharmos a faixa", ele postou nas redes sociais ao desembarcar na capital paraense para um show.

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?Soma alguns haters, é verdade, e cria música em cima disso. Em "Bro", ele elenca em um flow próprio: "Postei o lançamento da minha blusa / Hater falou mal, ele é uma puta / O que eu faço é hype, de fato eu sou foda / Meus fãs reais nunca me viram as costas".

Hoje com quase 8 milhões de visualizações, a música é considerada um ponto de virada na carreira e acelerou o ritmo de produção de seus vídeos. "Marco o clipe primeiro quando tô com roupa nova, com dinheiro, e faço a música na mesma noite. Papo reto. Mando mixar e, no dia seguinte, vou gravar o clipe. Umas dez músicas eu fiz assim", explicou ele em papo com a "Vice". Raffa não respondeu ao pedido de entrevista do UOL.

Faça você mesmo

Efeito da filosofia "do it yourself" (faça você mesmo), o trap mudou as regras do jogo pelo seu caráter democrático, no qual se valoriza as experimentações e as produções mais sujas. "Isso obriga a gente a produzir mais rápido. Se eu tenho uma música que eu fiz hoje, se eu não soltar amanhã, pode vir outro moleque de outro lugar com a mesma ideia", explica Blackout. 

Qualquer semelhança com o funk está cada vez mais distante de ser uma mera coincidência. MC Lan, artista que domina as caixas de som dos fluxos, também anunciou um disco voltado para o gênero, com participações de rappers como Djonga e Blackout. Produtor de Vitória (ES), WC no Beat tem circulado na casa dos milhões de views com seu projeto "18K", no qual mistura os dois mundos.

Em seu último lançamento, MC Kevin se jogou no beat do trap ao fazer uma música sobre o lean, o famoso "purple drank". Altamente viciante, a mistura de codeína, refrigerante e balas de goma teve inicialmente papel fundamental nesse lifestyle ao aparecer nos clipes dos norte-americanos. Por aqui, os copos de isopor brancos cheio da "bebida roxa" também são comuns, como é o caso de Denov, que rima sobre um sonho roxo em "PurpleDream", e Raffa Moreira, que aparece no clipe de "Bro" com uns vidros de xarope na mão, cantando que jogou "codeína na minha Fanta".

Bebida roxa

Blackout, que faz referência ao sintético na música "60mg", explica que a bebida roxa não é item obrigatório na cena. "Não uso por vaidade, uso para dar uma inspiração, para eu me sentir confortável", ele explica, sem deixar de notar o papel do lean tem sido minimizado na cena, principalmente depois da morte de alguns rappers por uso de opioides, como o caso de Lil Peep, que saiu de cena aos 21 anos em 2017.

De acordo com um levantamento realizado pelo site americano Motherboard, o consumo de "purple drank" chamou a atenção do governo dos Estados Unidos depois de registros numerosos de mortes por overdose. Em 2016, após ser hospitalizado, o trapstar Gucci Mane foi a público alertar os jovens: "Tomo lean faz dez anos e tenho que admitir que isso me destruiu. Quero ser o primeiro rapper a assumir que é viciado e dizer que isso não é brincadeira".

Para Matuê, a bebida não pode ser um fator para definir o trap. "Estou tentando dissociar esse lance da minha música. Há dez meses que eu não estou consumindo lean. Não sou só eu. Muita gente viu que era algo que não estava adicionando ao nosso corre da música", explica. "O importante é que a droga seja a música".

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