Topo

Música

Para Beyoncé e Jay Z, o amor e o poder em mãos negras são obras de arte valiosas

Reprodução/YouTube/beyoncé
Beyoncé e Jay-Z lançam álbum sem aviso prévio Imagem: Reprodução/YouTube/beyoncé

Tiago Dias

Do UOL, em São Paulo

18/06/2018 16h20

Foi mais uma vez de surpresa que Beyoncé anunciou seu novo disco ao lado do marido, Jay Z. Durante a apresentação em Londres, no sábado (16), como parte da turnê “On the Run II”, o casal mais poderoso da indústria do entretenimento divulgou o clipe de “Apeshit”, gravado diante de obras valiosas do famoso museu do Louvre, em Paris.

Como era de se esperar, o vídeo é icônico. É como se o meme “óleo sobre tela”, usado nas redes sociais quando uma imagem corriqueira ganha novos significados, fosse redefinido. A figura de Beyoncé de mãos dadas com suas dançarinas em frente à “Coroação de Napoleão” de Jacques-Louis David – um artista branco retratando personalidades de um poder branco – é poderosa e inverte a ordem das coisas: Injeta negritude em um espaço branco e colonialista e reduz a obra do período neoclassicista a um mero cenário.

Tão impactante quanto “This  is America”, clipe de Childish Gambino que viralizou no mês passado, "Apeshit" já é alvo de extensa análise nas redes sociais sobre o uso de cada obra no vídeo. E são várias: o casal aparece ao lado de ruínas egípcias, da Vênus de Milo e até de “Mona Lisa”, obra de Leonardo da Vinci que também estampa a capa “Everything  is  Love”, disco creditado como The Carters.

Assinando com o sobrenome, o álbum encerra a trilogia sobre o próprio relacionamento, quando o casal escancarou (até certa parte, vale dizer) uma suposta ruptura. Em “Lemonade” (2014), Beyoncé escancarava não apenas a infidelidade do marido -- em músicas como “Sorry” e “HoldUp” – como propunha uma viagem mais íntima nas próprias raízes e na cura através do feminismo.

Um ano depois, foi a vez de “4:44”, disco em que Jay Z faz um mea culpa e mergulha no passado de sua criação, entre a homossexualidade de mãe (em “Smile”) e a própria incapacidade de lidar com o afeto durante a infância dura e pobre.

“Everything is Love” é, como o título indica, um álbum em que celebra o amor reconstruído após essa jornada. Mas além de atestar a reconciliação, é a família que nasce daí, mais forte e poderosa (principalmente nas finanças), que os Carters querem saudar dentro de reduto tão elitista.

E a obra que eles oferecem é, essencialmente, um disco de rap. Ou melhor: Um disco de rap de Beyoncé. Embora os versos de Jay Z sigam com o mesmo flow e contundência de sempre, é a cantora que brilha no novo álbum.

Divulgação
Cena de "Apeshit", o clipe-acontecimento dos Carters Imagem: Divulgação

São dela os versos mais simbólicos sobre as engrenagens na indústria da música e a preocupação do clã em agregar riqueza na comunidade negra, além de garantir a herança das próximas gerações dos Carters. “Meus tataranetos já são ricos / Isso é um monte de crianças negras na sua lista da Forbes,” Beyoncé canta em “BOSS”.

Em “713”, referência ao código postal de sua cidade natal Houson, ela rima que eles ainda “têm amor pelas ruas”. “A América nos prende, nos atira, atira para baixo a nossa autoestima, nós não merecemos o amor verdadeiro. Rainha negra, você nos resgatou”, canta Jay em versos endereçados a mulher.

Entre rimas que os fãs têm identificado como alfinetadas direcionadas ao amigo Kanye West e à família Kardashian, Jay não deixa de esnobar do Grammy, nem do SuperBowl. “Vocês que precisam de mim. Eu não preciso de vocês”, ele diz.

Em “Nice", Beyoncé responde as críticas por ter disponibilizado seus últimos lançamentos apenas no Tidal, plataforma de streaming de Jay: "Esperando pacientemente pela minha morte, o meu sucesso não pode ser quantificado. Se eu ligasse minimamente para números de streaming, colocaria 'Lemonade' no Spotify". Apesar disso, o disco chegou nesta segunda (18) em todas as plataformas digitais, incluindo o Spotify.

Com contribuição dos rappers em evidência nos Estados Unidos, como Quavo e Offset (do Migos), Ty Dolla $ign e a produção de Pharrell e da dupla Cool & Dre, “EverythingisLove” serve como testamento de uma família negra que chegou ao topo do mundo. “Nós viemos e nós conquistamos, agora estamos felizes no amor”, eles cantam na última música, “Lovehappy”.


Para o casal, tal feito é tão valioso quanto qualquer obra de arte exposta no Louvre.