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Clássicos e discos mais vendidos no Brasil ainda não deram as caras no streaming

Brian A. Jackson/iStock
Imagem: Brian A. Jackson/iStock

Tiago Dias

Do UOL, em São Paulo

15/06/2018 04h00

O Brasil está entre os países que mais ouvem música nas plataformas de streaming, mas ainda falta um bom pedaço da nossa história no mundo digital.

De um lado, a MPB perde com a ausência de pérolas de Tim Maia e Gal Costa, além do disco-manifesto “Tropicália ou Panis et Circenses”. Por outro, discos extremamente populares, que venderam mais de 1 milhão de cópias nos anos 1990, ainda não deram a cara nas plataformas.

As razões para isso variam bastante: os acordos com artistas ou gravadoras podem estar em andamento, ou a propriedade de direitos pode mudar de mãos. Em outros casos, o litígio judicial é tão complexo que impede qualquer relançamento, seja a obra original de João Gilberto ou o esquecido acústico de Roberto Carlos.

Veja 10 discos que ainda não estão disponíveis para streaming:

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Imagem: Divulgação
Roberto Carlos, “Acústico” (2001)

Roberto Carlos se rendeu às plataformas de streaming em 2015 e despejou de uma só vez toda sua discografia, deixando discos polêmicos de fora, como seu primeiro trabalho, “Louco Por Você” (o rei não suporta o resultado do disco), e o "Acústico MTV". Gravado em 2001, o especial sequer foi transmitido, graças a uma briga judicial com a Rede Globo, que impede até hoje seu relançamento. O que é uma pena: o formato tirou o pó de antigas canções e trouxe um Roberto que se tornou cada vez mais raro de ver. Ele faz piada ao tocar piano em “Eu Te Amo Tanto” e revisita clássicos da Jovem Guarda, como “Parei na Contramão” e “É Proibido Fumar”, com participação de Samuel Rosa. Vendeu 1,5 milhão de cópias enquanto esteve nas prateleiras.

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“Tropicália ou Panis at Circenses” (1968)

O disco-manifesto está prestes a completar 50 anos longe das plataformas digitais. Síntese musical do movimento, o álbum causou uma revolução cultural no Brasil do recém-decretado Ai-5 e é considerado um dos discos mais importantes da música brasileira, reunindo um time de (até então) novos artistas: Caetano Veloso, Gilberto Gil, Tom Zé, Nara Leão, Gal Costa, Os Mutantes, os poetas Capinan e Torquato Neto e o maestro Rogério Duprat – que tomou conta dos arranjos inusitados, cheios de colagens sonoras. Por conta da essência coletiva, o disco vira e mexe tem questões de liberação de direitos autorais no Brasil, mas pode ser encontrado facilmente no iTunes de outros países.

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Gal Costa, “Legal” (1970)

A onda psicodélica de Gal Costa nos anos 1960 foi devidamente redescoberta por uma nova geração, mas há uma pérola dessa fase que ainda não está disponível em versão digital. “Legal”, seu terceiro disco solo, é um passo ainda mais sólido dentro da atmosfera do rock e do blues. Basta ouvir a versão acelerada de “Eu Sou Terrível”, de Roberto e Erasmo, ou as doídas “Mal Secreto” e “The Archaic Lonely Star Blues", de Jards Macalé. A discografia da Gal ainda tem mais uma lacuna, o disco acústico que a cantora gravou para a MTV em 1997, um dos mais vendidos da carreira.

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Marcelo D2, “À Procura da Batida Perfeita” (2003)

O título do segundo disco solo de D2 é a tradução para o português de uma música do Afrika Bambaataa, considerado o pai do hip-hop. Mas a viagem que o artista propôs em 2003 foi além dos beats e samples, colocando o samba também para jogo em uma pista nova e moderna. A mistura fez o álbum ganhar edição internacional -- essa sim, disponível no iTunes de outros países. O acústico gravado pelo artista em 2004, na esteira do sucesso do álbum, assim como os discos “Eu Tiro é Onda” e “Meu Samba é Assim”, também estão fora de catálogo.

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“Tim Maia”, Tim Maia (1970)

O impacto de uma das maiores vozes da música brasileira tem se diluído na era digital. Isso porque a vasta discografia do mestre do soul brasileiro, já desfalcada nas lojas, é praticamente inexistente em streaming. Nada da fase clássica dos anos 1970, como seu primeiro disco que reunia de cara “Coroné Antônio Bento” e “Primavera”, muito menos o projeto “Racional”, tido como um dos grandes discos de soul da história. Não se tem muitos detalhes sobre o que impede o lançamento dos discos, mas corre nos bastidores uma longa batalha judicial pela propriedade das obras e centenas de processos envolvendo direitos autorais que seu filho Carmelo Maia herdou.

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“Amigos”, Leandro e Leonardo, Chitãozinho e Xororó e Zezé di Camargo e Luciano (1995)

Quem nasceu depois dos anos 1990 talvez não saiba da existência do projeto “Amigos”. Mas a reunião do dream team do sertanejo daquela época foi realidade. Leandro e Leonardo, Chitãozinho e Xororó e Zezé di Camargo e Luciano vestiram, literalmente, a mesma camisa em um show conjunto, onde cantaram os próprios sucessos e clássicos da música sertaneja, como “Disparada” e “Andança”. Exibidos entre 1995 a 1998, os shows foram lançados em discos ao vivo, mas nenhum deles conseguiu chegar ao streaming, pela dificuldade em resolver a liberação dos fonogramas.

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Lobão, "A Vida é Doce" (1999) Imagem: Divulgação
Lobão, “A Vida é Doce” (1999)

O disco mais bem avaliado do velho lobo foi lançado direto nas bancas de jornal, em uma estratégia para fugir da alta tributação dos CD’s, além de remunerar melhor os artistas. Projeto independente, o disco foi um sucesso e colocou Lobão de volta na mídia por motivos mais nobres que suas opiniões políticas. A experiência com “A Vida é Doce” fez surgiu a revista “OutraCoisa”, por onde foram lançados o disco de estreia do Vanguart e o segundo trabalho do Cachorro Grande -- todos fora das plataformas.

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“Nativus”, Natiruts (1997)

O Natiruts estava no auge quando precisou mudar de nome por conta de um processo movido por um grupo chamado Os Nativos. Hoje, com mais de 20 anos de estrada, a banda conquistou ainda mais público e o antigo nome quase não é lembrado, mas o primeiro e único disco lançado como Nativus – com os sucessos "Liberdade pra Dentro da Cabeça" e "Presente de um Beija-flor” – passou a largo em todas as plataformas digitais por questões burocráticas envolvendo a venda do catálogo da antiga EMI para a Universal e a Sony. A boa notícia: O imbróglio foi resolvido e o disco deve ser lançado digitalmente até o mês que vem.

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“É o Tchan do Brasil”, É o Tchan, (1998)

Acha que esse disco do É o Tchan está sobrando nesta lista? A gente faz questão de te lembrar que em 1998 o grupo baiano já havia tocado no Festival de Montreux e vendido mais de 2 milhões de cópias de um único disco, “Na Cabeça e na Cintura”, feito repetido com "É o Tchan no Brasil". Bastou apenas esses dois discos para que o grupo abastecesse de sucessos anos de shows, mas nenhum deles está no catálogo digital, que abrange apenas a “série” temática de discos dedicados ao Havaí ou ao Japão. O mesmo aconteceu com Terra Samba, que vendeu 2,5 milhões de cópias no mesmo ano, e pegou carona (de carrinho de mão) na febre do axé para fazer emplacar o verso de "Liberar Geral": “Nada mal, curtir Terra Samba não é nada mal”.

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Só pra Contrariar (1993)

Talvez o melhor do grupo liderado por Alexandre Pires. O álbum de estreia vendeu 500 mil cópias, antes mesmo do SPC se tornar um dos maiores vendedores de discos por aqui. É daqui que saíram os grandes hits de karaokê, como "Outdoor", "Domingo" e a infame "A Barata". Na época, com a chance de gravar profissionalmente, questões como direitos autorais e propriedade da gravação foram deixadas em segundo plano. Outro álbum inesquecível da mesma década, “Brincadeira de Criança”, do Molejo, também não está disponível para streaming.

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Capa do disco "Chega de Saudade", de João Gilberto Imagem: Divulgação


+ Hors concours: João Gilberto

Pode procurar: Qualquer canção gravada por João Gilberto pode ser encontrada nas plataformas digitais, muito embora longe dos formatos originais, principalmente no caso de seus três primeiros discos “Chega de Saudade” (1959), “O Amor, o Sorriso e a Flor” (1960) e “João Gilberto” (1961).  Obras fundamentais da bossa nova, os discos são alvo de uma disputa judicial entre o compositor e a gravadora EMI, que estaria comercializando os discos sem a devida autorização. João defendeu também que os áudios dos discos haviam sido deturpados em relançamentos e cobrou na Justiça royalties pelo período de 1964 e 2014. Com a bagunça,os álbuns têm se multiplicado pelo mundo em mãos distintas, que que não usam a capa nem os títulos originais. Essas versões estão na plataforma como “compilação”.

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