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Em filme, Erasmo Carlos vence dificuldade com textos e volta a ter cabelos

Fabio Braga/Divulgação
Erasmo Carlos é José, patriarca em "Paraíso Perdido", longa de Monique Gardenberg Imagem: Fabio Braga/Divulgação

Carolina Farias

do UOL, no Rio

04/06/2018 04h00

Dentro de uma boate uma família encontra uma fuga de seus problemas cantando. Dez anos depois de dirigir “Ó Paí Ó”, a diretora Monique Gardenberg lançou na quinta-feira (31) “Paraíso Perdido”, que traz no elenco Erasmo Carlos, que volta às telas do cinema depois de mais de 40 anos. Aos 76 anos e em plena atividade – acaba de lançar seu primeiro EP “Amor é Isso” -, o músico comemorou o convite, mas sem deixar de entregar as dificuldades durante as filmagens, entre elas a lembrar dos textos.

"Decorar diálogos é chato. Sou um terror para decorar letras de música, para as minhas tenho que ter um TP [sigla para teleprompter, equipamento que exibe textos]. Mas não podia porque era filmado. Naquela situação eu não era o Erasmo e tinha que ser aquele cara. Mas, os amigos Julio Andrade e o Lee Taylor me ajudaram", contou o músico, que tem dois filmes em sua carreira, “Roberto Carlos a 300 Quilômetros por Hora” (1971) e “Os Machões” (1972). Desde então não havia participado de mais de filmes e aceitou rapidamente o convite de Monique.

"Demorou à beça [acontecer um convite para cinema], mas chegou e foi prontamente aceito. Tinha vontade. Não é minha profissão, mas para mim é simpático de vez em quando fazer algo assim. Gostei muito", disse Erasmo.

O nome do filme é o da boate onde o longa se passa. "Paraíso Perdido" conta a história de um patriarca, José (Erasmo Carlos) que tenta garantir a felicidade de sua família: os filhos Angelo (Julio Andrade) e Eva (Hermila Guedes), o filho adotivo Teylor (Seu Jorge) e os netos Celeste (Julia Konrad) e Imã (Jaloo). A excêntrica família lida com seus traumas e problemas cantando clássicos da música popular romântica, chamada popularmente de brega em grande parte do país, e que atrai a curiosidade de Odair (Lee Taylor), um policial que é contratado por José para garantir a segurança de Imã, que sofreu um ataque homofóbico.

Para a caracterização de Erasmo, a diretora resolveu devolver ao músico algo que ele foi perdendo com o passar do tempo.

"O grande gancho para qual vou me lembrar para sempre desse filme foi a peruca. Foi um acontecimento. Cheguei ao set e fui direto experimentar. Nos outros filmes eu experimentava roupas, armas. Nesse foi uma peruca. Todo dia chegava cedo, colocava, pintava, cortava um pouco do meu cabelo, cada dia dava um jeito. Meu cabelo, que já é pouco, ficou todo ruim. [No espelho] eu parecia outra pessoa. Não deu saudade [dos cabelos], não ligo mais, parece que já nasci assim", disse sobre a falta de cabelos no alto da cabeça.

Monique afirmou que Erasmo foi o último do elenco a ser escalado, pois tinha decidido que o patriarca tinha que ser um cantor.

"Eu não conseguia achar esse ator. Não que não tenhamos diversos atores espetaculares, mas não encaixava no que eu queria. Um dia pensei 'e se fosse para um cantor?'. O Seu Jorge eu já vejo como ator e ele é espetacular. Não me dei por vencida até chegar no Erasmo. Pelas coisas que ele fez dava para sentir a paixão dele pelo cinema", afirmou a diretora sobre o músico.

Para Julio, ser consultado por Erasmo Carlos foi um dos pontos altos do set de filmagens. "Foi maravilhoso. Ele vinha me perguntar coisas e eu dizia ‘Ah Erasmo, só se você me ensinar aquela paradinha de palco [risos]. Ele é mestre. Foi uma troca musical e de cinema maravilhosa", disse o Julio.

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Durante as filmagens, o intérprete de Gonzaguinha em "Gonzaga: de Pai para Filho", também conviveu com outra de suas inspirações musicais. A direção musical do longa é de Zeca Baleiro, músico de quem Julio se confessou fã e conviveu no set. Voltar ao palco, mesmo que na ficção, fez o ator lembrar de seu início na carreira artística, que foi pela música.

"O Zeca fez a trilha e cantei no filme um pouco com influência dele. Só de estar ao lado dele já me veio aquela voz de Zeca Baleiro. Ele foi uma das minhas inspirações. Tive banda, tocava violão, MPB em bares. Tocava músicas dele, de Erasmo, Roberto Carlos, Gonzaguinha. A música sempre andou junto, todos meus personagens construí em cima de músicas", afirmou Julio.

Dentre desse universo da família o filme aborda questões como homofobia, violência e machismo, mas que, de acordo com a própria criadora, a trama tem como mote o amor e um grande tributo à música brega, mas que a Monique prefere chamar de outra forma.

"A partir das músicas eu fui tendo ideias, criei personagens. É um tributo à música romântica popular brasileira. Queria fazer um filme onde o amor fosse abundante e se contrapusesse a esse mundo brutal que a gente vive. Nesse amor está a tolerância, liberdade, a aceitação do outro como ele é e o carinho. É sobre um mundo possível, que no nosso caso está em uma boate", explicou Monique durante um evento de lançamento do filme.