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Ao som do brega, "Paraíso Perdido" oferece boate como refúgio da violência no Brasil

Divulgação
Cena do filme "Paraíso Perdido" Imagem: Divulgação

Tiago Dias

Do UOL, em São Paulo

31/05/2018 04h00

É dentro de um inferninho em São Paulo que uma família vista como disfuncional encontra refúgio e amor. Pelo menos esse é o recanto perfeito para o Brasil de hoje imaginado pela diretora Monique Gardenberg em seu novo filme, “Paraíso Perdido”, que estreia no circuito nesta quinta-feira (31), após um período de onze anos longe do cinema.

Com a vontade de voltar ao universo popular, após a experiência com “Ó, Paí Ó” (2007), ela concentra a nova história em uma boate, a Paraíso Perdido do título. Localizada no Baixo Augusta, no centro do fervo da cidade, o espaço tem cores que lembram o cinema de Pedro Almodóvar e trilha com músicas bregas e românticas que embalaram o país nos anos 1970.

Na teia montada por Gardenberg, personagens excluídos da sociedade, vítimas das mais diversas violências, convivem em um ambiente sem questionamentos e de puro afeto familiar.

Por ali circulam a jovem que opta por um aborto (Julia Konrad), a ex-presidiária que mata um homem que a agrediu (Hermila Guedes), o “corno” que espera a volta da mulher (Julio Andrade) e seu sobrinho, a drag queen Imã (Jaloo), um dos destaques da noite (e do filme).

A gerência do lugar fica a cargo do patriarca José, que marca a volta de Erasmo Carlos às telonas. Na primeira cena, ele recomenda o público a deixar a realidade do lado de fora e se entregar à magia daquele espaço.

É ele quem abre as portas também para o policial Odair (Lee Taylor), o contratando para proteger a neta Imã de ataques homofóbicos. Afinal, do lado de fora do clima onírico da boate, o mundo continua bem real.

“O Paraíso é um microcosmo, ali existe tolerância e muito afeto, com respeito ao querer de toda ordem, sem definição de sexo”, explica a cineasta.

Embora não seja um filme político, questões cada vez mais debatidas nas ruas rodeiam a história dos personagens. “As bandeiras vêm juntas com eles”, ela observa.
Ao convidar Seu Jorge para o projeto, Gardenberg foi direta: “Me ajude a contar essa história. A homofobia está pegando, não podemos ficar calados”, ela relembra de ter dito ao telefone.

Na pele do motoboy Teylor, agregado da família, Seu Jorge também faz um paralelo com a situação atual do país. “É automático a gente perceber e fazer comparações com a vida que estamos vivendo, com esses temas sendo discutidos profundamente. As questões surgem no filme porque a gente não aguenta mais”, diz.

Fabio Braga/Dueto Produções
Quando a violência bate à porta: Julio Andrade (Angelo), Erasmo Carlos (José), Seu Jorge (Teylor) e Lee Taylor (Odair) em cena de "Paraíso Perdido" Imagem: Fabio Braga/Dueto Produções
Na pele de Pedro, um gay que não aceita seu próprio desejo e reage violentamente, Humberto Carrão explica o efeito da boate em seu personagem. “É sobre um momento em que todo mundo está saindo do armário, e isso não é só sobre sexo”, diz. “Ele encontra aí a possibilidade de mudança, o alargamento da vida, da experiência”.

É ali na noite que ele flerta com Imã, vivido pelo cantor Jaloo. Antes mesmo da estreia, a cena de sexo entre os dois personagens causou comoção nas redes sociais. Vindo de performances musicais, onde há alguns anos ele mistura pop com brega e elementos eletrônicos, o paraense se entregou à experiência.

“Me enxergo um pouco nesse lugar. Esse universo (da boate) se assemelha um pouco com meus shows. Quem frequenta, esquece o mundo lá fora e se entrega para aquela fantasia, aquele momento de desprendimento, até para tentar encarar a vida com mais força, seguir em frente”, diz.

Inferninho brega

Universo conhecido de Monique Gardenberg, seja no cinema ou na direção de shows, foi a música que fez “Paraíso Perdido” nascer. Mais precisamente “Impossível Acreditar que Perdi Você”, clássico de Márcio Greyck.

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Jaloo e Humberto Carrão em cena de "Paraíso Perdido" Imagem: Divulgação

Tão logo a música começou a rodar, imaginou mulheres chorando. A partir daí a história se desenrolou, e a trilha não poderia ser outra.

“Toda essa música romântica é ressignificada, mas também homenageada e defendida, tanto quanto essas outras questões”, defende Gardenberg. “Ela faz parte desse rol dos periféricos, excluídos e marginalizados”.

A direção musical de Zeca Baleiro é preciosa e busca canções fora do óbvio, como “Não Creio em Mais Nada” (de Paulo Sergio), “Tango pra Tereza” (de Altemar Dutra), “Jamais Estive Tão Segura de Mim Mesma” (obscuridade de Raul Seixas, famosa na voz de Núbia Lafayette), além do clássico de Greyck.

Julio Andrade, que passa boa parte do filme cantando essas sofrências, avisa: “É um tipo de música que se você não precisou até agora, uma hora você vai precisar”, brinca.

“É o amor cantado e falado de uma forma realista. Eu gosto disso”, explica Gardenberg. “Não precisa de sofisticação para falar dessas coisas.”

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