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Documentário liga vida de Whitney a abuso sexual que sofreu de prima famosa

Kevin Winter/Getty Images
Whitney Houston em performance no World Music Awards, em Las Vegas, em 2004 Imagem: Kevin Winter/Getty Images

Bruno Ghetti

Colaboração para o UOL, em Cannes

17/05/2018 08h57

Passados seis anos de sua morte, Whitney Houston permanece uma diva de primeira grandeza. Prova disso é o interesse gerado no Festival de Cannes gerado por um documentário sobre a cantora, mesmo que exibido fora da competição. “Whitney”, dirigido pelo escocês Kevin Macdonald (de “O Último Rei da Escócia”) comoveu jornalistas, fãs ou não, da estrela pop, ao relembrar sua bem-sucedida e dramática trajetória profissional.

Mas o que mais chamou a atenção foi uma revelação bombástica: o documentário narra que a cantora sofreu abuso sexual na infância. E o culpado – na verdade, a culpada – era parente de Whitney, além de uma pessoa famosa: a cantora Dee Dee Warwick, que fez sucesso na cena pop e soul dos anos 1960. Irmã da também cantora Dionne Warwick, Dee Dee morreu em 2008, então não pode se defender – mas, de acordo com pessoas próximas da cantora ouvidas pelo documentário, ela abusou sexualmente não apenas de Whitney como também de um de seus irmãos.

“Whitney falou muito pouco sobre isso ao longo da vida e, ainda assim, só bem depois do que tudo aconteceu. Quando comecei a preparar o filme, assistia aos vídeos dela e sempre achava algo estranho. Ela parecia sempre desconfortável quando se apresentava”, disse Macdonald ao UOL, em Cannes.

“Aí, conversando com um dos irmãos dela, Gary, ele revelou que tinha sido abusado por essa prima, o que me fez pensar que o mesmo poderia ter acontecido a Whitney. E então fui perguntando, e logo duas outras pessoas próximas confirmaram. Isso tudo surgiu já com o processo do filme um tanto adiantado”, diz o diretor.

O documentário tem por intenção mostrar a trajetória de Whitney Houston, mas há uma preocupação especial em tentar investigar justamente as razões pelas quais uma mulher tão bem-sucedida como ela – e que, até então, acreditava-se ter levado uma infância sem maiores dramas –  chegou ao ponto de se entregar ao vício em drogas pesadas, comprometendo sua bela voz, sua carreira e a própria vida (ela morreu em 2012, encontrada em uma banheira de hotel, após consumo de entorpecentes).

Macdonald, de tanto cavucar, conseguiu descobrir algo que possa ter contribuído para isso, mas é um tanto discutível a maneira como o diretor atrela a existência dos demônios interiores de Whitney basicamente a esse abuso sexual na infância. (Essa instabilidade seria a causa, também, de ter se submetido por tantos anos a um relacionamento abusivo com o cantor Bobby Brown). “Não é que as coisas sejam tão simples assim, mas é o tipo de informação que faz diversas outras atitudes dela fazerem mais sentido”, diz o cineasta.

O filme mostra também outras histórias da intimidade da cantora, como sua fria relação com a filha, Bobbi Kristina (morta aos 22 anos, em 2015, após ser encontrada desacordada em circunstâncias bizarramente semelhantes às da mãe). E também comenta um relacionamento lésbico que teve com uma amiga, Robyn Crawford (que não quis participar do documentário).

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Mas não é apenas bisbilhotice de celebridades. “Whitney” procura traçar, também, um panorama do período em que Whitney surgiu e ficou famosa – há um bom trabalho de edição mostrando os anos 1980, em que Ronald Reagan vendia a ideia de que os Estados Unidos eram uma terra de sonhos, contrastando com uma série de problemas sociais que aconteciam pelos cantos menos conhecidos do país. “Com esse trecho de edição de várias imagens, quis mostrar o contexto sobre aquela época: como era o mundo em que vivíamos [quando Whitney surgiu]. E, com as cenas curtas, evito de perder tempo explicando demais, o espectador passa a entender tudo já ali”, diz.

No que tange especificamente a trajetória de Whintey, porém, o filme já é mais tradicional: baseia-se em entrevistas com amigos e parentes da cantora. “Quis deixar quem a conhecia falar sobre ela”, diz o diretor, que afirma ter aceito dirigir justamente por não ser uma grande fã da cantora e, assim, poder manter um olhar objetivo sobre ela.

O documentário traz também um poderoso material de arquivo midiático, que inclui entrevistas e apresentações em programas de TV, mas a cereja do bolo, para os fãs, são vídeos da cantora em momentos familiares, que mostram desde o comportamento brincalhão (embora às vezes agressivo) de Whitney a algumas performances admiráveis do começo de sua carreira, quando mostrou sua voz era impecavelmente afinada. Ali, o espectador entende bem por que ela se tornou uma grande estrela. “Quando a ouvimos no auge, entre 1986 e 2003, a música dela vai direto aos nossos corações”, diz o diretor.

O filme ainda não tem previsão de distribuição no Brasil.

Assista ao trailer: