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David Byrne abre mão de amplificadores e dá aula de anatomia musical no Lolla

Felipe Branco Cruz e Tiago Dias

Do UOL, em São Paulo

24/03/2018 18h08

Em um festival como Lollapalooza Brasil em que o amplificador no último volume é garantia de empolgação, David Byrne abriu mão dos equipamentos e mostrou que é possível fazer um legítimo show de rock com muita encenação e apenas instrumentos portáteis. E  para anunciar a aula de anatomia musical, Byrne apareceu neste segundo dia de festival no Autódromo de Interlagos de São Paulo com os cabelos brancos desgrenhados, e cara de cientista louco, sozinho no palco segurando um cérebro de plástico.

Para os fãs do Talking Heads, porém, não houve motivo para preocupação. Embora faça questão de não tocar "Psycho Killer", o maior sucesso do grupo de art-rock que conquistou aclamação nos anos 1970 e 1980, Byrne continua o mesmo artista ambicioso, propondo uma performance provocativa em que disseca o conceito de música ao vivo para apresentar canções surreais, como "Everyday is a Miracle" e "Dance Like This". Poderia dar errado, afinal, a proposta artística não combina muito com o fim de tarde em um festival sobretudo pop, mas o público no palco Ônix entrou na onda.

O palco do americano foi minimalista, cercado por uma cortina de correntes. Livres dos fios e cabos, os músicos, uniformizados com terno e sandália, fizeram coreografias e se entregaram à proposta mais teatral. "É tudo sobre nós. Tudo diz respeito aos músicos, aos seres humanos que fazem música", explicou, em recente entrevista à agência AFP.

Do novo álbum, que faz parte do projeto Reasons to BeCheerful, em que ele tem como objetivo disseminar mensagens positivas, tocou faixas como "Everybody'sComing To MyHouse" e clamou por mais otimismo no mundo. Mas também teve espaço para lembrar do TalkingHeads em "I Zimbra", "Slippery People", "Once in a Lifetime" e "This Must Be The Place". 

Amigo de Tom Zé, Caetano Veloso e Os Mutantes, Byrne convocou três brasileiros para tocar em sua banda: o percussionista Mauro Refosco (que na sexta-feira tocou com o Red Hot Chili Peppers), Davi Vieira e Gustavo Leite, este último que tocava com Gilberto Gil. Uma presença mais do que necessária, já que a batucada brasileira se fez presente em faixas com "Toe Jam".

Com o recém-lançado "American Utopia", o americano saiu da toca após alguns anos sem excursionar. Os brasileiros são um dos primeiros a receber o novo show, costurado por composições mais otimistas, em resposta a um mundo em convulsão.

Novos e velhos fãs

Dono da potente voz grave, Byrne estava ali para apresentar seu novo trabalho e jogar boas vibrações para a galera. Entre os mais jovens, talvez o hit do Talking Heads seja a sua música mais conhecida, mas a música já não entra mais nas apresentações --segundo o próprio artista, a composição não combina com as outras mensagens que ele gostaria de passar.

"Pra te falar a verdade, eu joguei no Google pra saber quem ele era e aí descobri que ele canta aquela música que toca direto nas baladas", disse Helaine Grube, 22, se referindo ao clássico "Psycho Killer". "Estamos esperando o Imagine Dragons e resolvi pesquisar um pouco antes pra saber quem iríamos ouvir", completou ela, acompanhada de outros dois amigos que também não sabiam quem era Byrne.

Casal - Felipe Branco Cruz/UOL - Felipe Branco Cruz/UOL
Luciano e Andrea Consentini: fãs de David Byrne
Imagem: Felipe Branco Cruz/UOL

Já o casal Luciano e Andrea Consentini, de 47 e 46 anos respectivamente, estavam ali para vê-lo. "Não acho que o show do David Byrne está deslocado da programação, mas é óbvio que seria melhor se ele tivesse acontecido num lugar menor", cogitou Andrea.

"Mas a música de Byrne é atemporal. No ano passado teve New Order. Acho válida essa mistura", completou Luciano.