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"Provocação religiosa é para as pessoas refletirem", diz curador da Bienal

Leonardo Rodrigues

Do UOL, em São Paulo

12/09/2014 10h00

Ela inspira objetos, delineia as pinturas e é o tema do filme que virou sensação na 31ª Bienal de São Paulo. A religião, em seu espectro mais amplo e diversificado, poucas vezes esteve tão em evidência na mais importante exposição de arte da América Latina. Dos 80 trabalhos à mostra no pavilhão do Ibirapuera, pelo menos dez se aferram diretamente ao tema. 

Alguns desses trabalhos foram construídos de forma deliberadamente provocativa, como nos caso da instalação "Errar de Deus", do grupo argentino Etcétera —uma releitura do polêmico León Ferrar—, que traz imagens de Nossa Senhora infestadas de baratas, escorpiões e uma cobra.

A arte deve tratar temas ligados à religiosidade?

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Responsável pelos projetos voltados à religiosidade, o curador associado da Bienal Benjamin Seroussi disse que instigar o pensamento crítico é um dos nortes da edição deste ano. Nas obras, destaca, estão presentes as dimensões da fé, dos rituais e da espiritualidade humanas. Aberta no último sábado (6), a exposição teve início em meio à polêmica envolvendo 55 artistas que se uniram para protestar contra o apoio oficial do Estado de Israel.

"A nossa provocação, sem dúvida, é intencional, mas não para causar polêmica ou desrespeitar as crenças e as instituições, mas para causar reflexão", afirmou Seroussi ao UOL. "A religião está cada vez mais presente nos dias de hoje e vai além do fenômeno religioso. Inclui o cotidiano, as políticas urbanas, a economia, a política. É nessa esfera que queremos tocar", completou o curador, ressaltando o caráter "ambíguo" e "em aberto" das obras, cuja a escolha foi claramente influenciada pelo momento de convulsão social que marcou o último ano.

Entre elas, além da provocativa "Errar de Deus", também ganha destaque "Inferno", em que a israelense Yael Bartana implode o Templo de Salomão da Igreja Universal em São Paulo. A obra chegou a ser alvo de denúncia ao Ministério Público por supostamente incitar o preconceito religioso. Outra obra potencialmente polêmica, "Deus é Bicha" é uma leitura transgênera de Jesus Cristo, com imagens inspiradas em uma passagem do Novo Testamento, com a exibição de um vídeo no qual um trasvesti que se transforma em pastor.

Em outro espaço da Bienal há ainda a obra "Nosso Lar, Brasília", do holandês Jonas Staal, criando um paralelo entre as arrojadas linhas da capital federal e as da cidade espírita descrita por Chico Xavier. Também representando a cultura de Allan Kardec, "A Família do Capitão Gervásio" projeta cenas em preto e branco de uma ritualística sessão do Centro Espírita Luz da Verdade, na cidade goiana de Palmelo.

Reações diversas

Durante a semana, quando recebe menos público, a Bienal é tomada por grupos guiados, de escolas e excursões. A exemplo das pessoas que perambulam pelos corredores do pavilhão, a reação que as obras despertam é diversa: vai do impacto imediato à pura indiferença. Independentemente da crença pessoal, o público tenta assimilar os artistas. Cada qual à sua maneira.

"Eu gostei. Acho que o 'Inferno' mesmo é aqui na Terra, cheia de problemas. A arte também serve para mostrar a realidade", disse o missionário católico Antônio Monteiro, de Arapiraca (AL), a passeio em São Paulo. Com uma camiseta da Vice-Província Redentorista do Recife, ele saiu da sessão de "Inferno" pouco antes do clímax, com a demolição do Templo de Salomão. "Eu sabia [da demolição], mas quis dar uma arejada. Não tem problema".

Para o produtor cultural Zeca Bral, questionar o objeto artístico é não só salutar como necessário. "Eu gosto de obras que brincam com o sacrilégio, que discutem as instituições. A religião é muito forte e cristalizada. Essa arte contemporânea serve para fazer perguntas, fazer você pensar", disse, logo após deixar o ambiente coberto de tons de vermelho sangue de "Errar de Deus".

"Não sei, a gente vive em uma época em que já vimos de tudo. Ver Deus fantasiado de travesti, para mim, pelo menos, que não tenho religião, não choca", disse a mestranda em arte contemporânea Luiza Brenner, munida de um bloquinho de papel, atenta aos detalhes subversivos das pinturas e fotos.

Fascinada pelo paralelo entre o templo bíblico de Salomão, erguido e destruído duas vezes em Jerusalém, e pelo que foi replicado na zona leste de São Paulo, a psicóloga Martha Lemos ressalta a abordagem crítica de "Inferno", a obra que mais lhe causou impacto na Bienal. "A artista diz como os homens vão construindo e destruindo os seus templos, suas referências. E como o dinheiro vai diluindo a essência da espiritualidade. Depois de tudo, a fé acaba virando mercadoria", conclui a psicóloga cristã (embora não-praticante) Martha Lemos.

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