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Em Paraty, escritores trocam caneta por bola em partida com muitos gols

Rodrigo Casarin

Do UOL, em Paraty (RJ)

01/08/2014 15h12

Por se tratar de duas equipes formadas por pessoas mais acostumadas a ler e escrever do que a chutar uma bola, o jogo que aconteceu na manhã desta sexta (1º), no Estádio Municipal de Paraty, pode até ser considerado bom. A partida disputada pelo Pindorama, a seleção brasileira de escritores, e um time formado por autores que participam da Off Flip com certeza foi divertida, principalmente pela quantidade de gols: 9x2 para o Pindorama.

Marcado para começar às 10h, o jogo atrasou cerca de meia por conta do atraso de diversos jogadores, provavelmente consequência das festas e bares da madrugada anterior. Um dos que não deram as caras foi Gregorio Duvivier (ator, poeta e “fofinho”, segundo algumas garotas que o encontram pelas ruas de Paraty), que planejava fortalecer a zaga do Pindorama – escolheu a posição por escassez de talentos futebolísticos, na verdade.

A seleção brasileira de escritores dominou o primeiro tempo – a situação era tão confortável que seu goleiro, Julio Ludemir, passou boa parte da etapa conversando com um cinegrafista. No intervalo, o placar de 6x0 à favor do Pindorama. Na volta, a equipe da Off Flip conseguiu equilibrar a partida e marcou os seus dois tentos – ainda que tomando outros três.

Poderia ter sido mais. De um lado, o Pindorama teve uma série de gols anulados por impedimento de seus atacantes, os mesmos que perderam duas chances absurdamente claras, isolando bolas que já estavam praticamente dentro do gol; do outro, os jogadores da Off Flip se queixaram de um pênalti não marcado pela arbitragem. O grande destaque da peleja, acompanhada por cerca de 40 pessoas, foi Flávio Carneiro, com seis gols.

“É a primeira vez que eles jogam juntos, então é preciso destacar que eles jogaram na bola, foram leais. Estavam numa situação muito parecida com a que vivemos na Alemanha”, ponderou Marcos Alvito, um dos zagueiros do Pindorama.

Ao se referir à Alemanha, Alvito lembra do primeiro jogo da seleção brasileira de escritores, que surgiu em 2013 para enfrentar o Autonama, já tradicional seleção dos escribas alemães, durante a Feira de Frankfurt. Ainda que comandados por Pepe, campeão mundial pelo Brasil em 1958 e 1962, com pouco treino e sem tempo para se adaptar ao clima europeu – chegaram por lá um dia antes da partida –, o resultado foi um adverso 9x1, sendo que o gol de honra, marcado por Celso Campos Junior, surgiu de um pênalti bastante duvidoso, que Rogério Pereira teria combinado com o zagueiro alemão. Mas não desistiram. No jogo de volta, em São Paulo, após algumas modificações no time, o Pindorama sustentou um honroso 0x0 no placar.

A seleção brasileira de escritores

Ambos duelos contra os alemães contaram com apoio do Instituto Goethe, que bancou as passagens e as hospedagens. Desde então, o Pindorama se mantém por conta dos próprios atletas. A ideia é que, mais do que uma equipe, o selecionado seja um agente difusor da literatura.

“Creio que, em primeiro lugar, o time mostra que os escritores são pessoas comuns e os aproxima do restante da população, principalmente de muitos jovens que gostam de futebol e passam a perceber que a literatura não é um arte de nariz empinado", explica Alvito. "Em segundo lugar, nós participamos de eventos em que antes ou depois da partida há a leitura de textos dos jogadores. À medida em que seja possível, gostaríamos realmente de usar o Pindorama como instrumento para divulgação da leitura em todo o Brasil. Só falta patrocínio”.

Em Paraty, os  jogadores têm realizado leituras e conversas relacionadas ao esporte em mesas que levam o nome de “Futebol & Literatura”. Na quinta (31), por exemplo, Wilberth Salgueiro, o Bith, e Alvito dividiram o subtema “de pai para filho”, nesta sexta-feira, às 15h, Edvaldo Santana, Rodrigo Viana e Elcio Salles falam sobre “o jogo da vida”, e no sábado, no mesmo horário, Flávio Carneiro e Marcelo Moutinho devem fazer uma ode à gorduchinha em “a bola, esse objeto de desejo”.

O jogo contra os autores da Off Flip foi o sexto na história do Pindorama. Além desta partida e dos embates contra os alemães, a equipe soma outras duas derrotas e mais uma expressiva vitória, contra o Clube de Campo de São Paulo, por 7x1. Já tomaram 20 gols e fizeram 19.

O plantel do Pindorama conta com 28 jogadores, alguns deles inativos por um determinado momento. São comandados atualmente pelo técnico Beto Meireles, professor, que assumiu logo após a derrota de Frankfurt. Dentre os atletas, a maioria é escritor (com nomes como o zagueiro  Vladir Lemos, o meio-campista Marcelo Backes, o atacante Flávio Carneiro e o lateral momentaneamente afastado Antonio Prata), mas há também pessoas de áreas correlatas --livreiros, chargistas, músicos... A média de idade é próxima dos 44 anos.

Como os atletas se dividem em diversas cidades, mantiveram até aqui uma base de treinos no Rio de Janeiro e outra em São Paulo. “Mesmo assim, temos também jogadores do Espírito Santo e do Paraná", diz Alvito. "Eles fazem das tripas coração para estar presentes. É nossa meta irmos aos poucos tendo maior representatividade nacional. Mas sem patrocínio fica muito difícil".

Contudo, acabaram de firmar um convênio com o Clube Comary, em Teresópolis, que, a partir de 7 de setembro, quando farão uma partida comemorativa por lá, passará a ser a sede do Pindorama, cujo nome significa Terra das Palmeiras e é uma referência a como o Brasil foi chamado por seus primeiros habitantes e também utilizado no movimento modernista, principalmente por Oswald de Andrade, além de ser uma homenagem ao Autonama, que fez o convite para a primeira partida do escrete literário canarinho.

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