Livros e HQs

Fernanda Torres lembra último contato com João Ubaldo: "era muito afetuoso"

Marcela Ribeiro*

Do UOL, no Rio de Janeiro

18/07/2014 18h39Atualizada em 22/07/2014 18h54

A atriz Fernanda Torres, que deu vida à versão em carne e osso de um dos livros mais famosos de João Ubaldo Ribeiro, "A Casa dos Budas Ditosos", relembrou durante o velório do escritor, na Academia Brasileira de Letras, o último contato que teve com o amigo antes de sua morte

"Há três semanas eu precisei de um amigo, liguei e ele foi incrível. Ubaldo era totalmente afetuoso. Ele era muito severo diante de uma estupidez. Por outro lado, de uma candura, de um calor humano, de um afeto impressionante", disse a atriz ao UOL.

Fernanda estreou em 2003 o monólogo baseado no livro de João Ubaldo, com direção de Domingos de Oliveira, e ficou em cartaz em diferentes temporadas até 2010, com grande sucesso de público. O espetáculo também chegou a reestrear em 2013. 

"Li 'Casa dos Budas' para dizer não, achei que não ia fazer. Mas, quando acabei, não resisti a ele", conta a atriz. "Ubaldo tinha por características essa história de contar causos. Você passava uma noite, era um atrás do outro, você ficava dependente daquilo que a 'Casa dos Budas' tem. Vou continuar fazendo a peça sim, agora como se estivesse com ele ao meu lado", afirmou.

Fernanda Torres fala sobre "A Casa dos Budas Ditosos"

Velório

O corpo de João Ubaldo Ribeiro chegou à Academia Brasileira de Letras para o velório por volta das 11h30 desta sexta (18). A despedida foi marcada pela emoção da família e pela presença de artistas, como o cineasta Cacá Diegues, a escritora Nélida Piñon, o jornalista Zuenir Ventura, a atriz Maria Zilda, entre outros.

"Além do que todo mundo já falou em homenagens, nas redes sociais, ele era meu pai. Triste, inesperado, não tem muito o que falar", disse o ex-apresentador da MTV Bento Ribeiro, filho de João. "A gente cresceu junto quando ele morava em Itaparica, a gente tinha uma relação muito próxima".

Bento lembrou ainda que o pai pode realizar o desejo de ser avô antes de morrer. "Pelo menos ele pode ser avô, tive um filho que está com cinco meses. Essa é a memória mais recente. Ele queria visitar o neto na Alemanha, ele está com a mãe lá".

"Na casa paterna, me lembro dele iniciando como foca no Jornalismo, publicando o livro 'Reunião de Contos'", relembrou Manuel Ribeiro Filho, irmão de João Ubaldo. "Começou como contista, depois jornalista, sempre brigando com meu pai, que queria que ele fosse advogado, funcionário público, e ele nunca aceitou. Sempre dizia : 'eu vou viver da pena'", contou. "Ele renunciou a tudo o que tinha da universidade e foi escrever, começando do nada. E deu certo, a persistência foi espetacular".

O cineasta Cacá Diegues, que trabalhou com João Ubaldo em dois filmes, falou de sua amizade com o escritor. "O João Ubaldo é um dos melhores amigos que tive na minha vida. Desde os anos 60 até hoje, a gente sempre se comunicava muito e ele trabalhou comigo em dois filmes, que foram 'Tieta do Agreste' e 'Deus é Brasileiro', em que ele participou dos roteiros. Era extraodinário, além de um dos maiores escritores da língua portuguesa. Foi um dos grandes autores modernos do Brasil, um grande amigo, generoso, engraçado", disse. "O João Ubaldo tinha o hábito de ironizar tudo, mas sempre com muito amor".

A última coluna de João Ubaldo Ribeiro

  • O correto uso do papel higiênico

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Também amigo de João Ubaldo, o músico João Bosco falou sobre as canções que dividiram. "As boas histórias que ouvi na minha vida foram contadas pelo João. Às vezes frequentávamos lá em casa, ele tinha uma voz muito especial, ele gostava de cantar. O timbre de voz do João me lembra muito o que o Caymmi tinha", disse. "Sou leitor de carteirinha do João, fiz inclusive músicas inspiradas nos livros dele, exemplo de uma canção chamada 'Sassaô', que tem um nome bem africano e vem do livro 'Vila Real'. O João como sempre dando voz aos brasileiros que mal conseguiam balbuciar. Esse é o João Ubaldo brasileiro e guardião da dignidade, da ética do brasileiro, da palavra. Um cara que buscava as origens mais profundas e requintadas da língua portuguesa. É uma perda insubstuível na literatura brasileira, nas crônicas, no papo de domingo nos jornais, no bom humor, nas tiradas que ele tinha de fazer graça. É muito bonita a trajetória dele".

O jornalista Zuenir Ventura relembrou a "exuberância" de João Ubaldo. "O João era uma pessoa que você não ficava cinco minutos ao lado dele sem rir. Tinha aquela exuberância, aquela voz de locutor. Aquela presença que ele tinha dominava em qualquer lugar que ele chegasse entre uma roda de amigos", disse. "Além de grande escritor e cronista, era essa pessoa muito generosa com os amigos".

Ainda em "choque", Zuenir diz que o escritor "deixa uma lacuna muito grande". "O João tinha uma liberdade de expressão que o marcava muito. Essa independência ele tinha não só na politica, mas também na estética, como romancista. O João Ubaldo era absolutamente singular", concluiu.

A família do escritor chegou às 13h30. De boné e óculos, Bento amparava a todo momento a mãe, Berenice. Francisca, outra filha do escritor, também chegou com a mãe e o irmão e foi abraçada pelos amigos e pelo imortal Antonio Torres. Mais tarde, Emília, filha do primeiro casamento de João, chegou carregando uma santa.

O tempo inteiro ao lado do caixão, Berenice cumprimentava a todos os que chegavam ao velório. Inúmeras coroas de flores foram enviadas à Academia. Entre elas as com mensagens do Museu da Imagem e do Som, do boteco Belmonte, da editora Objetiva, de José Sarney, da diretoria da Império da Tijuca.

O velório foi encerrado para o público às 19h. Uma missa está marcada para as 8h de sábado e o enterro será realizado no cemitério São João Batista, no Rio, às 10h.

Trajetória de João Ubaldo

Sétimo ocupante da cadeira 34 da Academia Brasileira de Letras desde 1994, como sucessor de Carlos Castello Branco, João Ubaldo Osório Pimentel Ribeiro nasceu em Itaparica, na Bahia, em 23 de janeiro de 1941. Formado em direito (1959-1962) pela UFBA (Universidade Federal da Bahia), ele nunca chegou a advogar, mas construiu uma carreira que o consagrou como romancista, cronista, jornalista e tradutor.

Aos 21 anos, escreveu seu primeiro livro, "Setembro Não Tem Sentido", que ele desejava batizar como "A Semana da Pátria", contra a opinião do editor. Em 1999, João Ubaldo foi um dos escritores escolhidos para dar depoimento, ao jornal francês "Libération", sobre o Terceiro Milênio.

"Viva o Povo Brasileiro" foi o tema do exame de "agrégation", concurso para detentores de diploma de graduação na universidade francesa. Este romance (que virou tema de samba-enredo da Império da Tijuca em 1987) e "Sargento Getúlio" (adaptado ao cinema) constaram na maior parte das listas dos cem melhores romances brasileiros do século e ambos lhe renderam o Prêmio Jabuti.

No mesmo ano, ele lançou "A Casa dos Budas Ditosos", narrado por uma mulher de 68 anos que nunca se furtou a viver as infinitas possibilidades do sexo. Foi adaptado para o teatro por Domingos de Oliveira em 2004, em forma de monólogo e encenado por Fernanda Torres.

João Ubaldo trabalhou como professor de administração e filosofia, e como jornalista colaborou com diversas publicações, como "Frankfurter Rundschau" (Alemanha), "Die Zeit" (Alemanha), "The Times Literary Supplement" (Inglaterra), "O Jornal" (Portugal), "Jornal de Letras" (Portugal), "Folha de S. Paulo", "O Globo", "O Estado de S. Paulo" a "A Tarde", entre outros. O escritor foi ganhador do Prêmio Camões em 2008, maior prêmio da língua portuguesa.

Entre 1990 e 1991, ele morou em Berlim, a convite do Instituto Alemão de Intercâmbio. Na volta, passou a morar no Rio de Janeiro. Era casado com Berenice de Carvalho Batella Ribeiro, com quem tinha dois filhos, Bento e Francisca. Do casamento anterior com Mônica Maria Roters, João Ubaldo teve duas filhas, Manuela e Emília.

* Com colaboração de Carla Neves

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