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Até onde pode chegar o ativismo político dos fãs de k-pop?

As cantoras do grupo Blackpink durante show na Coreia do Sul - Chung Sung-Jun/Getty Images
As cantoras do grupo Blackpink durante show na Coreia do Sul Imagem: Chung Sung-Jun/Getty Images

Stuart Braun

03/07/2020 08h57

Quando fãs de k-pop reivindicaram para si o esvaziamento do comício do presidente Donald Trump em Tulsa, Oklahoma (EUA), em 20 de junho (a equipe de campanha chegou a construir um segundo palco, do lado de fora, acreditando que de fato mais de 1 milhão de pessoas haviam reservado assento num ginásio onde cabiam 19 mil), a ideia de que fãs de música pop da Coreia do Sul poderiam se valer da tática de reservar lugares com nomes falsos soava algo inverossímil.

Mas, quando Trump começou a discursar para um ginásio semivazio, com o palco externo sendo desmontado porque ninguém apareceu, o mundo teve que reconhecer que a comunidade online de fãs de k-pop no Twitter e no TikTok pode exercer significativa influência política. A imprensa global logo estava cheia de histórias sobre o ativismo dos fãs de k-pop.

Esse mesmo ativismo já havia se manifestado nos dias seguintes à morte de George Floyd. Fãs de bandas coreanas se apoderaram de várias hashtags racistas, como #WhiteLivesMatter ou #ItsOkayToBeRacist ao marcarem vídeos amadores (chamados fancams) de seus artistas favoritos com essas hashtags.

O gesto mais impressionante foi a campanha #MatchAMillion, organizada pelos fãs da banda BTS para recolher US$ 1 milhão em doações para organizações ligadas ao movimento Black Lives Matter nos EUA, no início de junho, depois de a própria banda ter doado a mesma quantia.

Em termos de cobertura de mídia para o k-pop, foi uma mudança e tanto em relação ao fim de 2019, quando vários astros cometeram suicídio, revelando o lado sombrio de uma indústria musical altamente competitiva. O bullying online, por fãs, foi apontado como um grande problema na época.

A mídia costuma se referir de forma genérica aos fãs de k-pop como stans, uma palavra criada com a fusão de stalkers e fãs. Mas, ao menos na Coreia do Sul, os stans tendem a se manter longe da política.

A professora de comunicação Hye Jin Lee, da Universidade do Sul da Califórnia, diz que o ativismo político é bem mais comum entre os fãs de k-pop nos EUA. Ela afirma não ficar surpreendida por esses fãs estarem combatendo a supremacia branca ao lado dos ativistas do Black Lives Matter.

"Há uma grande interseção demográfica entre o movimento Black Lives Matter e os fãs americanos de k-pop. Ambos são multirraciais, multiculturais, mutiétnicos, multigeracionais", diz, ainda que predominantemente jovens.

Fãs americanos de k-pop se identificam com uma cultura popular que é diferente do mainstream branco, observa. "Eles são mais abertos a diferenças culturais e defendem valores mais progressistas", diz Lee.

Na tentativa de proteger e promover uma subcultura pop asiática que continua marginalizada por causa de "ideologias imperialistas, racistas e sexistas", a base de fãs do k-pop já tem um histórico de mobilizações políticas online para combater estereótipos, explica Lee.

Isso vai de petições à organização de eventos de caridade, passando por ligações para jornalistas que apresentam artistas de forma negativa e até mesmo comprando espaço publicitário para seus ídolos.

Lee afirma que é um erro pensar que esses fãs foram motivados só por grupos como o BTS. "A atual mobilização política dos fãs de k-pop pode ser vista como uma extensão da sua luta contra o orientalismo, o racismo, o sexismo e a homofobia, com a intenção de tornar o k-pop mais aceitável e popular nos EUA", diz ela.

Maior grupo de k-pop, o BTS chegou ao topo das paradas nos EUA e na Europa e tem tanto alcance no Twitter quanto Trump. Eles já deram declarações sobre questões como saúde mental e desigualdade econômica, mas nunca usaram suas plataformas para incentivar os fãs a se tornarem politicamente ativos ou para lutar contra supremacistas brancos, observa Lee.

A banda e seu exército de fãs lançaram diversos apelos filantrópicos desde 2017 — por exemplo, a favor da campanha da Unicef #ENDviolence, e em apoio aos refugiados da Síria.

Há um bom motivo para as bandas de k-pop se manterem afastadas da política. "Se o k-pop ficar muito politizado, muitos fãs vão se afastar, e outros vão perceber que seus pais podem não ter mais tanto interesse em financiar sua paixão", comenta o professor Roald Maliangkay, da Universidade Nacional da Austrália.

Para ele, trata-se de um negócio altamente industrializado e bem pensado, que sabe até onde pode ir. "Claro que artistas de k-pop não controlam como seu trabalho é interpretado politicamente, mas quanto mais ele for, maior a chance de as vendas de ingressos caírem", argumenta Maliangkay.

"Como o k-pop depende muito de shows e de apoio para faturar, os artistas e suas agências precisam ser conservadores". De fato, fãs do BTS na Coreia do Sul alertaram seus ídolos para que não se envolvam na política americana, segundo a agência de notícias Reuters.

O ativismo do k-pop é resultado de um fenômeno único, conduzido por uma base de fãs ampla e poderosa, com motivações complexas, avalia o professor. É uma resposta ao racismo, mas também excitação por participar de uma comunidade com um grande número de pessoas e a capacidade dela de agir em massa, afirma.

Mas, se não tiver o apoio explícito dos ídolos, o ativismo dos fãs pode esmorecer em breve. "Eles vão recuar diante da possibilidade de politizar seu trabalho em excesso", diz Maliangkay, em referência aos grupos. "E eu suspeito que as agências deles e muitos dos fãs não vão querer mesmo que eles se politizem.

Nos Estados Unidos, porém, um outro tipo de fã de k-pop parece ter surgido, e se ele continuar sua luta contra o racismo e a supremacia branca, poderá continuar sendo um incômodo para a campanha eleitoral de Trump.

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