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Festival de Cannes


Gael García Bernal: "Assistimos ao funeral da figura do macho infalível"

Gael Garcia Bernal em Cannes - Daniele Venturelli/WireImage
Gael Garcia Bernal em Cannes Imagem: Daniele Venturelli/WireImage

De Cannes (França)

22/05/2019 15h27

A carreira de Gael García Bernal sempre foi ao encontro do Festival de Cannes, onde estreou como ator em "Amores Brutos". Este ano ele retorna como único diretor mexicano selecionado no concurso, com seu segundo filme "Chicuarotes".

Seu primeiro papel em 2000 também coincidiu com a estreia em Cannes do diretor Alejandro González Iñárritu, que se tornou um gigante do cinema e presidente este ano do júri do Festival.

Iñárritu assistiu anteontem à projeção fora de competição de "Chicuarotes", junto com o ator Diego Luna, sócio de García Bernal em sua nova produtora, "La Corriente del Golfo".

Veja o trailer de Chicuarotes, dirigido por Bernal

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Em "Chicuarotes", García Bernal, de 40 anos, mergulha nas raízes da violência juvenil do México. Cagalera e Moloteco, dois adolescentes de San Gregorio Atlapulco, ao sul da capital, vivem desesperados para sair da pobreza e se agarrar a uma esperança de futuro, o que para eles significa dar um golpe e fugir do povoado onde que vivem.

Agência France Press - De onde vem o nome do seu filme?

Gael García Bernal - Chicuarotes é um gentílico. É a forma como se chamam as pessoas de San Gregorio de Atlapulco. Vem de uma pimenta endêmica do local que é muito resiliente, muito dura e muito picante. São chamadas assim porque reflete seu caráter.

"Chicuarotes" começa com uma fatalidade: os protagonistas vestidos de palhaços tentam ganhar dinheiro a bordo de um ônibus. Como eles não arrecadam nada, eles sacam uma arma.

A primeira cena resume o filme. O Cagalera é este personagem com uma falta de perspectiva na vida. Como não pode conseguir as coisas por bem, faz por mal. É uma lógica gerada por crescer em um ambiente conflitivo. Esses garotos vão crescer e cometer coisas terríveis. Há muita gente que se salva disso, mas o grande problema é a espiral de violência. Por mais que o governo, que a sociedade aja para deter essa violência, se na família não há um núcleo amoroso, é pouco provável que todo o resto possa fazer que se vá em frente.

Cagalera é um anti-héroi?

É interessante ver esses personagens que te traem. Você está do lado deles na história, mas por uma ação impulsiva, onde seu diabinho ganha força, estão destinados a cometer algo terrível. Acho eles fascinantes porque mudam o gênero do filme. Gosto dos filmes que são pouco definidos em torno de um gênero e realmente para que haja um bom drama tem que haver muito humor.

Diante da violência, as mulheres são as únicas que mantêm o sangue frio.

As mulheres são a esperança no filme. Há uma derrota de um tipo de masculinidade arcaica que está fazendo suas últimas manifestações, e isso é completamente fiel à época em que vivemos. Aquilo que existia do macho infalível é algo a que por sorte a minha geração e a de agora já não apela. Apelamos a uma vulnerabilidade, a reconhecer os erros.

Sua carreira completa agora duas décadas.

Sim, já tem gente com quem trabalhei que me disse frases estupendas como: "Cresci vendo seus filmes!". Eu sempre era o mais jovem nas filmagens. Agora já sou o de meia-idade. É bonito e ao mesmo dá calafrios. "Amores brutos" foi lançado há 19 anos em Cannes. Na época havia gente no ensino médio e esse era seu primeiro filme de adulto.

Você trabalhou com atores muito jovens em "Chicuarotes". O que significa para eles seu exemplo, assim como o de Iñárritu e de Alfonso Cuarón?

Muita gente quer fazer cinema no México e toma como exemplo a liberdade que nós exercemos e pela qual lutamos. Por exemplo, em "Chicuarotes" fizemos o filme que queríamos, é uma vitória imensa. Há poucos países onde se podem fazer filmes dessa forma.