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Bukowski, 100 anos: qual é o papel da obra do Velho Safado em nossos dias?

Bukowski - Do acervo
Bukowski Imagem: Do acervo
Página Cinco

Rodrigo Casarin é jornalista e especialista em Jornalismo Literário. Escrevendo sobre livros, já colaborou com veículos como Valor Econômico, Aventuras na História, Carta Capital, Revista Continente, Suplemento Literário Pernambuco, Jornal Rascunho e Cândido. Integrou o júri do Oceanos ? Prêmio de Literatura em Língua Portuguesa em 2018, 2019 e 2020 e o júri do Prêmio Jabuti em 2019, na categoria Biografia, Documentário e Reportagem. Vive em São Paulo, em meio às estantes com as obras que já leu e às pilhas com os livros dos quais ainda não passou da página 5.

Colunista do UOL

13/08/2020 09h50

Não falha nunca: uma vez por ano, pelo menos, o nome de Charles Bukowski pinta como assunto dos mais comentados do Twitter. O comum é que seja tuiteiro tacando pedra na memória escritor. Em 2020, o grande encontro virtual para falar mal do Velho Safado aconteceu no começo deste mês. Tivessem planejado, poderiam ter deixado para o domingo, dia 16, quando o nascimento do alemão que passou a vida nos Estados Unidos completa 100 anos.

Por conta do centenário, saquei alguns livros da estante: "Misto-quente", "Notas de um Velho Safado", "Crônica de um Amor Louco", "Ao Sul de Lugar Nenhum"…. A impressão que tinha se confirmou. Ler Bukowski já adulto é diferente de lê-lo enquanto nos livramos do serviço militar. Não que seja desprezível, não é isso. Há qualidades. O texto flui bem e apresenta ao leitor uma miríade de álcool, sexo, luta por grana, brigas e apostas, tudo isso num tom de urgência e atmosfera decadente. A vida desvairada chama a atenção de jovens.

Bukowski me parece cumprir uma função tão importante quanto relegada na literatura: servir de ponte entre as leituras juvenis e as adultas. Há autores que funcionam melhor para quem os conhece numa determinada fase da vida. Jack Kerouac é um. Bukowski é outro. Ou se lê ali pelos 20 anos e vê se o santo bate ou é melhor deixar pra lá. O Velho Safado tem seu valor e pode ser decisivo para alguém seguir como leitor num momento da vida em que muitos se afastam dos livros, porém não é um nome incontornável da literatura.

Senso comum entre apreciadores de sua obra, a poesia é mesmo melhor do que a prosa, ainda que muitas vezes siga a pobre fórmula de quebrar frases e chamar isso de poema, praga na moda em nossos dias. Deixo a recomendação de "As Pessoas Parecem Flores Finalmente" (L&PM, como os outros já mencionados) e também da boa biografia "Bukowski - Vida e Loucuras de um Velho Safado", de Howard Sounes (Veneta).

E o que penso das pedras arremessadas contra o velho Buk nas redes sociais? O olhar crítico para o machismo de seus personagens é bem-vindo. Já julgar o trabalho pela postura dos fãs e de tantos outros escritores que tentam copiá-lo é medíocre. Se muitos homens adotam um "jeito Bukowski de ser", reclamem desses homens. Não dá para responsabilizar o artista pelo que os outros fazem a partir de sua arte.

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** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL