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Perturbador, romance de Ariana Harwicz pode ferir leitores mais sensíveis

"A Débil Mental" - Reprodução
"A Débil Mental" Imagem: Reprodução
Página Cinco

Rodrigo Casarin é jornalista e especialista em Jornalismo Literário. Escrevendo sobre livros, já colaborou com veículos como Valor Econômico, Aventuras na História, Carta Capital, Revista Continente, Suplemento Literário Pernambuco, Jornal Rascunho e Cândido. Integrou o júri do Oceanos ? Prêmio de Literatura em Língua Portuguesa em 2018, 2019 e 2020 e o júri do Prêmio Jabuti em 2019, na categoria Biografia, Documentário e Reportagem. Vive em São Paulo, em meio às estantes com as obras que já leu e às pilhas com os livros dos quais ainda não passou da página 5.

Colunista do UOL

05/08/2020 09h43

Primeiro livro da argentina Ariana Harwicz publicado no Brasil, "Morra, Amor" chegou por aqui no final do ano passado e causou forte impacto. O romance psicológico angariou fãs e entrou para diversas listas de melhores leituras de 2019 - inclusive a minha. Na história, acompanhamos uma mãe num momento de extrema turbulência após o nascimento de seu filho e acabamos tragados pelo vórtice emocional e psicológico vivenciado pela protagonista. A resenha da obra está aqui.

Segundo volume de uma trilogia involuntária, a possível sequência de "Morra, Amor" chega agora às livrarias brasileiras (de novo pela Instante e com tradução de Francesca Angiolillo). Em "A Débil Mental", o leitor encontra questões e atmosfera semelhantes ao título anterior, mas não uma sequência clara daquela trama. Desta vez, o foco está na filha adulta que vive em permanente tensão com sua mãe. A partir do presente da narrativa, a moça repassa momentos da infância marcada por eventos traumáticos enquanto busca formas para tocar o dia a dia ao lado da progenitora. Porém, a escrita de Ariana é menos óbvia do que essa forma que a apresento.

A cena de um acidente serve de metáfora para a vida que a dupla leva. Por mais que o veículo bata contra casas antigas, canteiros e máquinas agrícolas, a mãe segue acelerando. Foge da polícia, a responsável por cuidar para que a sociedade siga nos conformes. A filha, no banco ao lado, relata a passagem. "Estamos inteiras e ensanguentadas. Que tudo se exploda, que se destrua tudo, diz mamãe, e ainda quer mais".

Tudo se destruir e ainda querer mais. É essa a tônica que permeia a perturbadora relação entre mãe e filha. A vida é subordinada aos instintos e aos prazeres, num furor sexual que motiva e justifica todas as ações. Causa espanto esse impulso autodestruidor, cúmplice e ao mesmo tempo competitivo, de mãe e filha pelo prazer, pelo "desejo degenerado. Desejo nocivo. Desejo lunático".

"A Débil Mental" - Reprodução - Reprodução
Imagem: Reprodução
Enquanto a dupla prepara um guisado com a cabeça de algum macho "recém-guilhotinado", o restante do próprio mundo se despedaça. A turbulência psíquica das personagens (que valeu a Ariana comparações com nomes como Virginia Woolf) permanece e surgem elementos que remetem às passagens mais incômodas do cinema de Lars von Trier - o cenário, um povoado no meio do mato, contribui para tal.

"A Débil Mental" é um romance ainda mais impiedoso do que "Morra, Amor". A ideia caricata de família feliz, com "filhas e mães esmeriladas", é chutada pra longe. Não há lugar para crianças babonas de mãos dadas com as mamães ou "já mortas em sua foto escolar", como registra a narradora ao mencionar seres moldados em larga escala. Não, o leitor encontra o que saiu de uma barriga que "criou luto, gestou luto, engendrou uma planta carnívora". O clichê familiar só não é pulverizado por Ariana porque, apesar de todos os conflitos, de toda degradação, de toda idiossincrasia, mãe a filha permanecem de alguma forma unidas.

Romance breve - o texto em si ocupa menos de 90 páginas -, "A Débil Mental" não dá brecha para respiros. Realidade, memória, delírio e pesadelo parecem se misturar num texto ágil e forte, capaz de machucar leitores mais sensíveis. Não é fácil mergulhar na mente e lidar com os impulsos das personagens de Ariana. Seus livros são para quem entende: a arte é muito mais do que um quadro bonitinho para se pendurar na parede da sala.

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** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL