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'Jesus Sobe no Pé de Goiaba': o que aconteceu com o livro de Damares Alves?

Jesus Cristo. - Reprodução
Jesus Cristo. Imagem: Reprodução
Página Cinco

Rodrigo Casarin é jornalista e especialista em Jornalismo Literário. Escrevendo sobre livros, já colaborou com veículos como Valor Econômico, Aventuras na História, Carta Capital, Revista Continente, Suplemento Literário Pernambuco, Jornal Rascunho e Cândido. Integrou o júri do Oceanos ? Prêmio de Literatura em Língua Portuguesa em 2018, 2019 e 2020 e o júri do Prêmio Jabuti em 2019, na categoria Biografia, Documentário e Reportagem. Vive em São Paulo, em meio às estantes com as obras que já leu e às pilhas com os livros dos quais ainda não passou da página 5.

Colunista do UOL

12/08/2020 09h33

Com o nome em alta após a eleição de Jair Bolsonaro, no final de 2018 Damares Alves anunciou que lançaria um livro. "Jesus Sobe no Pé de Goiaba" resgataria uma passagem de sua infância, quando uma visão mística teria mudado os rumos de sua vida. A obra entrou em pré-venda e o lançamento chegou a ser marcado. No entanto, no começo de 2019, com Damares já nomeada ministra da Família, da Mulher e dos Direitos Humanos, tudo mudou. A assessoria jurídica do Ministério pediu para fazer a leitura e eventuais modificações antes do texto chegar aos leitores. Desde então, não tivemos mais notícias sobre "Jesus Sobe no Pé de Goiaba".

Faço o resgate pois sou parte duplamente interessada na história. Primeiro, porque gostaria de ler o livro. Segundo, porque os R$34,90 que paguei por ele jamais voltaram para meu bolso.

No dia 13 de dezembro de 2018 que recebi o e-mail da Editora Canadense confirmando o pedido #641: "1 x Livro Jesus Sobe no Pé de Goiaba + Frete Grátis". Semanas depois, em 4 de janeiro de 2019, novo e-mail, desta vez assinado por Mauri Filho, proprietário da editora, informando que o livro seria revisado pelo governo. Mauri dava duas opções: aguardar a liberação do departamento jurídico do Ministério ou receber o estorno do valor pago. De cara, optei no reembolso.

Foram necessárias cinco mensagens até que Mauri respondesse, em 17 de abril de 2019, o seguinte: "O livro será lançado em poucos dias. Se preferir podemos depositar o valor pago. Obs: Você é de algum meio de comunicação? Gostaria de obter maiores informações?". Respondi, então, que aguardaria pela obra. Sempre transparente, também contei ser jornalista, colaborador do Uol. Depois disso, mandei outras sete mensagens para Mauri, sendo a última no dia 7 deste mês. Não bastasse ser ignorado, o site da obscura Editora Canadense já não está mais no ar e ninguém atende telefones atrelados ao CNPJ da empresa.

Procurei o Ministério da Família, da Mulher e dos Direitos Humanos para saber se Damares teria algo a dizer sobre "Jesus Sobe no Pé de Goiaba". Repassei o imbróglio e encaminhei as seguintes perguntas: 1) Há alguma novidade a respeito da obra? 2) Ela ainda está sendo analisada pela assessoria jurídica do Ministério? Quais pontos, exatamente, estão sendo observados ou foram observados nessa análise? 3) Há alguma previsão para que ela chegue, finalmente, nas mãos daqueles que a compraram? 4) Ou, se a obra foi cancelada, por qual motivo? 5) Considerando esse eventual cancelamento, como deve proceder quem a adquiriu e ainda espera pela entrega?

Eis a resposta que obtive: "Sobre o livro, não há qualquer novidade sobre o assunto".

Se "não há qualquer novidade", talvez "Jesus Sobe no Pé de Goiaba" ainda esteja sendo revisado, analisado, reescrito ou seja lá o que for. E não reporto tudo isso para pedir meu dinheiro de volta. Quero mesmo é ler - e resenhar - a história que a ministra Damares tem para nos contar. Não é uma postura razoável colocar livro em pré-venda e depois fingir que ele nunca existiu.

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** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL