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A bomba de Hiroshima, o clássico de John Hersey e os cidadãos 'de bem'

Getty Images/iStockphoto
Imagem: Getty Images/iStockphoto
Página Cinco

Rodrigo Casarin é jornalista e especialista em Jornalismo Literário. Escrevendo sobre livros, já colaborou com veículos como Valor Econômico, Aventuras na História, Carta Capital, Revista Continente, Suplemento Literário Pernambuco, Jornal Rascunho e Cândido. Integrou o júri do Oceanos ? Prêmio de Literatura em Língua Portuguesa em 2018, 2019 e 2020 e o júri do Prêmio Jabuti em 2019, na categoria Biografia, Documentário e Reportagem. Vive em São Paulo, em meio às estantes com as obras que já leu e às pilhas com os livros dos quais ainda não passou da página 5.

Colunista do UOL

06/08/2020 09h32

"No dia 6 de agosto de 1945, precisamente às oito e quinze da manhã, hora do Japão, quando a bomba atômica explodiu sobre Hiroshima, a srta. Toshiko Sasaki, funcionária da Fundição de Estanho do Leste da Ásia, acabava de sentar-se a sua mesa, no departamento de pessoal da fábrica, e voltava a cabeça para falar com sua colega da escrivaninha ao lado. Nesse exato momento, o dr. Masakuzu Fujii se acomodava para ler o 'Asahi' de Osaka no terraço de seu hospital particular, suspenso sobre um dos sete rios deltaicos que cortam Hiroshima; a sra. Hatsuyo Nakamura, viúva de um alfaiate, observava, da janela de sua cozinha, a demolição da casa vizinha, situada num local que a defesa aérea reservara às faixas de contenção de incêndios; o padre Wilhelm Kleinsorge, jesuíta alemão, lia a 'Stimmen der Zeit', revista da Companhia de Jesus, deitado num catre, no terceiro e último andar da casa da missão de sua ordem; o dr. Terufumi Sasaki, jovem cirurgião, caminhava por um dos corredores do grande e moderno hospital da Cruz Vermelha local, levando uma amostra de sangue para realizar um teste de Wassermann; e o reverendo Kiyoshi Tanimoto, pastor da Igreja Metodista de Hiroshima, parava na porta de um ricaço de Kobi, bairro do oeste da cidade, para descarregar um carrinho de mão cheio de coisas que resolvera transferir para ali por temer o maciço ataque dos B-29, que a população aguardava. Uma centena de milhares de pessoas foram mortas pela bomba atômica, e essas seis são algumas das que sobreviveram. Ainda se perguntam por que estão vivas, quando tantos morreram. Cada uma delas atribuiu sua sobrevivência ao acaso ou a um ato da própria vontade - um passo dado a tempo, uma decisão de entrar em casa, o fato de tomar um bonde e não o outro. Agora, cada uma delas sabe que no ato de sobreviver viveu uma dúzia de vidas e viu mais mortes do que jamais teria imaginado ver. Na época não sabiam nada disso"

É dessa forma que John Hersey inicia "Hiroshima", uma das reportagens mais importantes e veneradas de todos os tempos. Um ano após os Estados Unidos atacarem com bomba atômica a cidade japonesa - a estupidez completa 75 anos neste 6 de agosto -, o repórter foi para o Japão apurar a história de pessoas que sobreviveram à covardia que deixou mais de 100 mil mortos. Focado na história dos personagens apresentados no parágrafo acima, o texto de Hersey ocupou toda a edição de 31 de agosto de 1946 da "The New Yorker". A tiragem inicial de 300 mil exemplares sumiu das bancas em pouquíssimo tempo. O preço de capa da revista era de quinze cents, mas alguns lugares a vendiam por até 20 dólares. Quando a matéria foi transformada em livro, um clube para leitores distribuiu um milhão de cópias entre seus associados.

O texto de Hersey é precursor do que veríamos mais tarde no trabalho da turma do New Journalism, formada por nomes como Gay Talese, Norman Mailer e Truman Capote (este eticamente problemático). "Hiroshima" é um dos exemplos mais bem-acabados da potência que pode ter a junção do rigor jornalístico com a estética literária. Em suas páginas, o leitor mergulha na vida dos personagens, transformados em símbolos daquele crime. Números impactam, histórias causam empatia e fazem com que outras pessoas compreendam a real dimensão de algo como uma bomba que, ao explodir, dizima uma cidade. Na leitura, é possível sentir o pavor e o desnorteio de Toshiko, Masakazu, Hatsuyo, Wilhelm, Terufumi e Kiyoshi, bem como entender os percalços da sobrevivência.

A edição de "Hiroshima" que tenho em mãos saiu pela coleção "Jornalismo Literário", da Companhia das Letras, em 2002, com tradução de Hildegard Feist. Nela, além da reportagem clássica, há uma segunda matéria do jornalista sobre o assunto. Hersey voltou à cidade japonesa quarenta anos depois do ataque para ver o que tinha se passado com seus personagens ao longo de quatro décadas.

O volume conta ainda com posfácio assinado pelo também jornalista Matinas Suzuki Jr. No texto, Matinas resgata um pertinente trecho do que o "The New York Times" escreveu a respeito da obra-prima de Hersey: "O que aconteceu com 100 mil é evidente. Eles morreram. O que aconteceu com os seus afortunados é um exemplo de quanto o ser humano pode resistir e não morrer. Todo americano que tem se permitido fazer piadas sobre bombas atômicas, ou que as tenha visto apenas como um fenômeno sensacional que pode ser aceito como parte da civilização - como o avião e o motor a gasolina -, ou que tenha se deixado especular interiormente sobre o que nós deveríamos fazer com elas se fôssemos forçados a entrar em uma nova guerra, deve ler John Hersey".

Cidadãos - certamente semelhantes aos que hoje se intitulam "de bem" - que riam do atentado ou justificavam a utilização da bomba atômica. Soa familiar neste Brasil onde milhões ignoram mortandades ou tripudiam das maiores tragédias, isso quando não apoiam e legitimam massacres. A literatura - e jornalismo, e o jornalismo alçado à literatura -, em todo caso, segue como aposta para deixar certos seres um pouco mais humanos.

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** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL