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O caso Mark Dawson e a estranha tara do público pela lista de mais vendidos

"O Rato de Biblioteca" - Carl Spitzweg
"O Rato de Biblioteca" Imagem: Carl Spitzweg
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Rodrigo Casarin é jornalista e especialista em Jornalismo Literário. Escrevendo sobre livros, já colaborou com veículos como Valor Econômico, Aventuras na História, Carta Capital, Revista Continente, Suplemento Literário Pernambuco, Jornal Rascunho e Cândido. Integrou o júri do Oceanos – Prêmio de Literatura em Língua Portuguesa em 2018, 2019 e 2020 e o júri do Prêmio Jabuti em 2019, na categoria Biografia, Documentário e Reportagem. Vive em São Paulo, em meio às estantes com as obras que já leu e às pilhas com os livros dos quais ainda não passou da página 5.

Colunista do UOL

29/07/2020 09h57

Mark Dawson, escritor britânico, revelou ter comprado 400 exemplares de "The Cleaner", seu livro mais recente. Com isso, emplacou a obra na oitava colocação da lista de mais vendidos do jornal "Sunday Times". Desembolsou para tal 3.600 libras, quase R$24 mil, o que me faz lembrar de como nossa grana anda valendo pouco pelo mundo, mas isso é papo para outra hora.

A estratégia do autor não pegou bem e a empresa responsável pela organização da lista revisou a contagem. Para se defender, o britânico alegou que revenderia as centenas de cópias para leitores de outros cantos do planeta. Se quisesse mesmo trapacear, teria logo dado um jeito de se catapultar à primeira posição, completou. A história de Dawson foi reportada com detalhes pela Folha.

Pelo sim, pelo não, está longe de ser novidade um escritor calcular e colocar em ação um plano para entrar nessas listas. Casos semelhantes são revelados com certa frequência. Quando enxergam a chance de determinado título se tornar best-seller, editores também gastam muitos neurônios para concentrar vendas e conseguir um lugarzinho no top 10 da semana. Todo o meio editorial sabe: entrar em relações do tipo é uma boa forma de conseguir divulgação espontânea num espaço valorizado por consumidores e, com sorte, ver as cifras multiplicarem. Esses rankings ao mesmo tempo refletem e moldam parte substancial do mercado.

Daí a pergunta: por que os leitores passam a dar tanta bola para livros que aparecem numa lista dessas? Sabemos: parte da crítica adora aquela bobagem de se vende muito, não presta. Por outro lado, tão tosco quanto é pensar que um título é bom só porque está vendendo muito. Adotar o "ler o que todo mundo está lendo" como critério de leitura é uma das melhores formas para não desenvolver o próprio gosto, aos poucos se sentir desinteressado pelos livros e acabar se afastando desse universo. O ideal é que cada leitor construa a própria jornada.

A dica: pesquise. Não tem lista de mais vendidos ou algoritmo que substitua o leitor de confiança. Bons livreiros - profissionais que estão sendo chutados do mercado - são raridades que leitores devem prestigiar enquanto existem; difícil alguém apontar com tanta precisão títulos que valem a atenção de acordo com o perfil de cada um. Ter críticos, resenhistas e entusiastas de confiança também ajuda bastante; explore o universo de gente produzindo conteúdo de qualidade sobre o assunto (aqui, em jornais, revistas, no Youtube, no Instagram, em podcasts...) e identifique quais batem com o seu gosto.

E arrisque: de tempos em tempos, dê chances para obras que você olha com desconfiança, para os livros que não conseguiu vencer numa primeira, segunda ou terceira tentativa. Estar aberto ao diferente, ao aparentemente incômodo, é essencial para crescermos como leitores (momento coach: a máxima que se aplica para outras áreas da vida).

São trilhas possíveis para encontrar bons livros. Melhor deixar as listas de mais vendidos de lado. Sim, de lado, para olhar às vezes e ver o que está rolando; não descartá-la, mas também não viver grudado nela. Daí, tanto faz se um Dawson se alçou ou não de propósito em uma dessas relações.

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