PUBLICIDADE
Topo

Coluna

Página Cinco


Contra o racismo e a escravidão: o lado guerrilheiro de Machado de Assis

O escritor carioca Machado de Assis - Reprodução
O escritor carioca Machado de Assis Imagem: Reprodução
Página Cinco

Rodrigo Casarin é jornalista e especialista em Jornalismo Literário. Escrevendo sobre livros, já colaborou com veículos como Valor Econômico, Aventuras na História, Carta Capital, Revista Continente, Suplemento Literário Pernambuco, Jornal Rascunho e Cândido. Integrou o júri do Oceanos – Prêmio de Literatura em Língua Portuguesa em 2018, 2019 e 2020 e o júri do Prêmio Jabuti em 2019, na categoria Biografia, Documentário e Reportagem. Vive em São Paulo, em meio às estantes com as obras que já leu e às pilhas com os livros dos quais ainda não passou da página 5.

Colunista do UOL

21/07/2020 09h25

Machado de Assis foi um guerrilheiro. Calma, ele não entrou num grupo rebelde para lutar por uma causa. Não há revelação alguma nesse sentido. Com caneta em mãos, porém, o escritor se fez um guerrilheiro das palavras. É o que aponta Eduardo de Assis Duarte, professor e pesquisador da Universidade Federal de Minas Gerais e autor de títulos como "Literatura e Afrodescendência no Brasil: Antologia Crítica", "Literatura Afro-brasileira: Abordagens na Sala de Aula" e "Literatura Afro-brasileira: 100 Autores do Século 18 ao 21".

Eduardo também assina "Machado de Assis Afrodescendente: Antologia e Crítica" (Malê). Publicado pela primeira vez em 2007, o título acaba de ganhar uma nova edição (revista e ampliada) num momento oportuno, com lutas contra o racismo se espalhando pelo mundo e olhares renovados em alguns países ocidentais para a potência do Bruxo do Cosme Velho. No trabalho, o pesquisador mergulha em poemas, crônicas, contos, críticas teatrais e fragmentos de romances de Machado para mostrar de que maneira a questão racial se apresenta em sua obra. Nas análises, uma pá de terra é jogada sobre a ideia recorrente de que o escritor se abstinha de confrontar mazelas como o racismo e a escravidão.

"Ao analisar o tratamento dado por Machado aos afrodescendentes e às relações impostas pelo escravismo, não se pode perder de vista seu horizonte recepcional, formado basicamente por leitores e leitoras da classe dominante. Assim, ao privilegiar a crítica à elite, o escritor está, por vias transversas, abordando a questão e tocando nas origens da grande ferida social de seu tempo. Esse olhar questionador percorre toda a sua ficção, mesmo quando na aparência trata de temas como amor, ciúme ou traição", registra Eduardo.

"Machado de Assis Afrodescendente" - Reprodução - Reprodução
Imagem: Reprodução
Por meio de entrelinhas, sutilizas e da habitual ironia machadiana que as questões raciais são tratadas nos textos do escritor, sustenta o estudioso; denúncias gritadas ou bandeiras escancaradas não fazem parte do universo de Machado. Ele "jamais submete sua ficção às exigências do discurso ideológico, com suas formulações marcadas pela urgência dos momentos de crise política. Deste modo, persiste nos romances o emprego dos procedimentos esquivos, que, em seu conjunto, compõem a poética da dissimulação: o tratamento enviesado, indireto; os negaceios verbais e as alfinetadas ligeiras, mas cortantes; o discurso irônico substituindo a fala explícita ou peremptória; o enfoque universalizante de questões nacionais; a paródia de mitos e narrativas fundadoras de hegemonias; a sátira dos detentores do poder; tudo isto vazado numa linguagem marcada por múltiplos disfarces".

Para Eduardo, tais procedimentos atingem o ápice no romance "Memórias Póstumas de Brás Cubas", que traria em seu âmago a relação entre brancos e negros, por mais que isso não fique evidente numa leitura superficial ou desatenta. O modo como se dava a produção de riqueza num país em que a escravidão ainda era legalizada, bem como o jeito como os negros eram desconsiderados enquanto pessoas, são indissociáveis de toda a narrativa, que, publicada quase uma década antes da abolição da escravatura, anteciparia a mudança histórica que estava por vir. "Aqui toma vulto o motivo recorrente em outros textos e não explorado pela crítica de seu romance mais instigante: Machado mata o senhor de escravos oito anos antes da Abolição", indica Eduardo.

O apontamento está em "A Morte do Senhor e as Memórias Póstumas da Escravidão", ensaio no qual o pesquisador delineia a faceta guerrilheira de Machado. "A obra machadiana reconstitui criticamente a memória de seu tempo, aponta para seu penoso day after e, ao lado de questões afeitas ao ser humano de todos os tempos, não deixa de expressar 'de baixo para cima' a crueza de uma época e de um sistema produtivo que as elites brasileiras tanto fizeram por amenizar. E nesse corte cirúrgico, universaliza a questão sem deixar de narrá-la como de 'seu tempo' e de 'seu país'. Caramujo nem sempre encolhido, e capoeirista da palavra, Machado soube ser o guerrilheiro consciente de suas armas e de seus alvos".

Você pode me acompanhar também pelas redes sociais: Twitter, Facebook, Instagram, Youtube e Spotify.

Página Cinco