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Trocar o mundo real pelo virtual? Não, obrigado, prefiro esperar

Praga. - Rodrigo Casarin
Praga. Imagem: Rodrigo Casarin
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Rodrigo Casarin é jornalista e especialista em Jornalismo Literário. Escrevendo sobre livros, já colaborou com veículos como Valor Econômico, Aventuras na História, Carta Capital, Revista Continente, Suplemento Literário Pernambuco, Jornal Rascunho e Cândido. Integrou o júri do Oceanos – Prêmio de Literatura em Língua Portuguesa em 2018, 2019 e 2020 e o júri do Prêmio Jabuti em 2019, na categoria Biografia, Documentário e Reportagem. Vive em São Paulo, em meio às estantes com as obras que já leu e às pilhas com os livros dos quais ainda não passou da página 5.

Colunista do UOL

16/07/2020 09h30

Assisto no Jornal Nacional que pesquisadores estão desenvolvendo ferramentas de realidade virtual para diminuir o estresse de quem está confinado por conta da pandemia de coronavírus. O cidadão coloca a geringonça parecida com uma máscara e finge passear pelo parque - ou algo do tipo. A solução, planejam, também auxiliará quem tem certos problemas psicológicos. Digno. Só espero que isso não descambe para, num futuro próximo, alguém me pedindo para trocar o mundo real pelo projetado.

Vejo com certa incredulidade quem se contenta em tomar cerveja com os amigos, cantar parabéns ou "ir" para a balada via aplicativos como Zoom. Uma coisa é olhar para isso e pensar "é o que tem pra hoje, paciência", outra é se entusiasmar, ficar feliz (ou fingir felicidade). Sinto muito, para mim não rola. É preciso tomar cuidado para não se acomodar nessas soluções toscas e se satisfazer com simulacros no tal novo real.

Visitas a museus pelo computador é outro convite dispensável, de chatice rara. Não há arrebatamento. Quem acha que ver um Van Gogh, um Ángel Della Valle ou uma Frida pela tela é a mesma coisa que estar frente a frente com quadros desses artistas não entendeu nada sobre a arte, sobre sua capacidade de encantar e deslumbrar. Isso para não entrar em pormenores perceptíveis diante da pintura em si, não em reproduções.

E tem as viagens. Essas, definitivamente, impossíveis de se emular. Sugerir passear pelo Google Maps só pode ser piada de mau gosto. Rever fotos de passeios antigos? Tá, legal, serve pare reviver emoções. Não é pouco, mas também não é suficiente. Livros? Adoro, todos sabem. Contudo, não há encontro com Borges em "Até o Fim do Mundo", de Paul Theroux, que substitua as praças de Buenos Aires ou "A Última Casa de Ópio", de Nick Toshes, que satisfaça a vontade de perambular pelo sudeste asiático, ainda que ler "O Castelo", de Kafka, de fato altere o modo como interpretamos Praga.

Cantei a bola lá atrás, em maio: do modo como o governo já vinha lidando com o corona, viraríamos bombas de vírus perante o resto do mundo; com as fronteiras fechadas para nós, ficaríamos presos numa espécie de cativeiro gigante. Eis a atual condição do Brasil, e não há alternativa virtual que dê conta de compensar o que estamos perdendo. Não abro mão de bater na mesa e fazer lambança com a cerveja enquanto jogo truco, de levar um bom susto com uma pintura maravilhosa que não conhecia ou de apertar o passo ao me perder por vielas estranhas de alguma cidade a ser descoberta.

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