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Sequestro e tráfico de bebês: crimes da ditadura que você precisa conhecer

"Grito, de Oswaldo Guayasamin - Reprodução
'Grito, de Oswaldo Guayasamin Imagem: Reprodução
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Rodrigo Casarin é jornalista e especialista em Jornalismo Literário. Escrevendo sobre livros, já colaborou com veículos como Valor Econômico, Aventuras na História, Carta Capital, Revista Continente, Suplemento Literário Pernambuco, Jornal Rascunho e Cândido. Integrou o júri do Oceanos – Prêmio de Literatura em Língua Portuguesa em 2018, 2019 e 2020 e o júri do Prêmio Jabuti em 2019, na categoria Biografia, Documentário e Reportagem. Vive em São Paulo, em meio às estantes com as obras que já leu e às pilhas com os livros dos quais ainda não passou da página 5.

Colunista do UOL

08/07/2020 09h03

No ano passado, o jornalista Eduardo Reina publicou "Cativeiro Sem Fim". O livro-reportagem traz casos de 19 bebês, crianças e adolescentes sequestrados por agentes da ditadura durante último período em que o Brasil esteve reconhecidamente sob o coturno dos militares. É uma das obras recentes mais importantes a respeito daquela fase mórbida.

""Para algumas das vítimas, a sobrevivência provocada pelo não cumprimento da ordem de extermínio funcionou como um prêmio. Mas as manteve longe das famílias biológicas e com um passado desconhecido. Esses brasileiros sequestrados vivem até hoje num cativeiro sem fim", escreve Reina, lembrando de pequenos que não foram assassinados pelos militares.

"Cativeiro Sem Fim" saiu pela Alameda, mesma casa que agora publica "Júlia - Nos Campos Conflagrados do Senhor", novo romance de B. Kucinski (a editora já havia lançado em 2019 "A Nova Ordem", o penúltimo de Kucinski). Na narrativa, o assunto abordado por Reina em seu livro-reportagem aparece ficcionalizado pelas mãos do autor do badalado "K - Relato de uma Busca". O aparato formado por policiais, oficiais do Exército, burocratas e Igreja, dentre outros, acreditava (ou usava a desculpa) que o rapto e a venda de crianças, filhos de pessoas ligadas à esquerda, seria uma forma de combater o comunismo.

Cavucando o apartamento herdado dos seus pais, Júlia descobre documentos que a colocam em contato com um passado misterioso. Enquanto se aprofunda nos horrores da ditadura, descobre: é uma vítima colateral das ações criminosas dos militares. A revelação destroça sua vida. Como tantas outras pessoas em situação semelhante, passa a buscar por fragmentos da verdade para tentar fazer uma colagem que possibilite olhar com alguma nitidez para a própria história espatifada.

O romance de Kucinski se passa em cidades paulistas como Jacareí, São José dos Campos, Taubaté, Santos e São Paulo e se alterna em dois tempos: o presente de Júlia no começo dos anos 1990, com o Massacre do Carandiru e a Era Collor no pano de fundo, e os sigilos de sua família ao longo da ditadura. Prisões secretas, torturas, execuções, cemitérios clandestinos, censura, complacência da imprensa e o famoso congresso de Ibiúna são alguns dos elementos encontrados no título.

Júlia - Divulgação - Divulgação
Imagem: Divulgação
Um dos focos desse tempo mais distante está em Durval, pai de Júlia, engenheiro que estende a mão àqueles então perseguidos pelo Estado brasileiro. "Se foram presos sem processo, sem nada, a questão era moral, não era política", reflete o personagem sobre prisões arbitrárias. "Prender estudantes e dirigentes sindicais já é coisa feia: maltratar e amontoar num porão alagado e fedendo urina é assustador", constata. "Salvar a moçada era um imperativo moral, concordar ou não com o que os estudantes faziam era uma opção política", confia.

A predisposição de Durval em agir conforme princípios éticos ora conflita ora converge com outro elemento da história: a Igreja Católica. A cisão entre a ala Carismática e a ala da Libertação marca "Júlia" desde as conflitantes epígrafes: "Ninguém pode ser ao mesmo tempo socialista e um bom católico", de Papa Pio XI, e "Não vejo como ser cristão sem ser revolucionário", de Frei Tito de Alencar. Representativo: no romance, justamente a vertente da Igreja contrária aos gestos humanistas dos adeptos da Libertação que articula o tráfico de crianças para fora do país. O esquema contava não apenas com a conivência, mas com a participação ativa das autoridades que tinham tomado o Brasil para si.

Desde o já mencionado "K-Relatos de Uma Busca", baseado no desaparecimento de sua irmã, Kucinski é visto como um dos ficcionistas que melhor se apropria dos podres da ditadura militar para construir narrativas incisivas, que jogam luz em importantes aspectos daquele período tenebroso. Um ponto quase fora da curva foi "A Nova Ordem", distopia com toques de "Laranja Mecânica" e Ignácio de Loyola Brandão. A história se passa num futuro totalitário, numa exacerbação de nosso presente misturado com o que há de pior do nosso passado.

"Júlia", por sua vez, merece elogios pelos temas enfrentados, porém apresenta problemas. Uma atenção maior com o texto poderia evitar repetições e ecos desnecessários. Coincidências e acasos decisivos são um tanto forçados. Uma cadência mais precisa, menos acelerada, cairia bem. Também não agrada a opção por fontes tipográficas diferentes para marcar os tempos narrativos. A escolha é didática demais.

Por outro lado, num país em que até pessoas que viveram o período negam ou relativizam os horrores da ditadura, facilitar ao máximo a vida de qualquer potencial leitor talvez seja uma alternativa não só válida, mas necessária.

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