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Violência camuflada: esperança e solidariedade marcam romance que engana

Sandra Cisneros - EFE/ Dublinense
Sandra Cisneros Imagem: EFE/ Dublinense
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Rodrigo Casarin é jornalista e especialista em Jornalismo Literário. Escrevendo sobre livros, já colaborou com veículos como Valor Econômico, Aventuras na História, Carta Capital, Revista Continente, Suplemento Literário Pernambuco, Jornal Rascunho e Cândido. Integrou o júri do Oceanos – Prêmio de Literatura em Língua Portuguesa em 2018, 2019 e 2020 e o júri do Prêmio Jabuti em 2019, na categoria Biografia, Documentário e Reportagem. Vive em São Paulo, em meio às estantes com as obras que já leu e às pilhas com os livros dos quais ainda não passou da página 5.

Colunista do UOL

04/07/2020 09h47

"Aqueles que não sabem das coisas chegam na nossa vizinhança apavorados. Eles acham que nós somos perigosos. Eles acham que nós vamos atacá-los com facas brilhantes. É gente estúpida que se perdeu e chegou aqui por engano", lemos em um trecho. "Aqui tem muita tristeza e não tem céu o suficiente. As borboletas também são poucas e as flores também e a maioria das coisas bonitas. Mesmo assim, a gente pega o que dá e faz disso o melhor", encontramos em outro. Lembro de Racionas: periferia é periferia.

Representante da chamada "chicano literature", literatura feita nos Estados Unidos por escritores de origem latino-americana, "A Casa na Rua Mango", de Sandra Cisneros, foi publicado pela primeira vez em 1984 e acaba de sair no Brasil pela Dublinense em tradução de Natalia Borges Polesso. É um livro que engana. A linguagem acolhe. Palavras dóceis e construções simples tracejam a história de Esperanza (nome simbólico, "tão mais macio" em espanhol do que em inglês), protagonista de olhar muitas vezes ingênuo.

Na introdução, a autora lembra de sua crença: "histórias dizem respeito à beleza" e a beleza deve ser admirada por qualquer um. "As pessoas que estão ocupadas tentando ganhar a vida merecem belas pequenas histórias, porque elas não têm muito tempo e estão quase sempre cansadas". Demorei algumas páginas para captar o tom e entrar no ritmo de Cisneros. Diferente de obras recentes com propostas semelhantes, que tratam de problemas sociais de maneira frontal, escancarada, a norte-americana de família mexicana opta pelo relance, pelas entrelinhas. Daí vem o contraste: "A Casa na Rua Mango" apresenta uma narrativa muito mais pesada do que aparenta ser.

É a história de pessoas que vivem em casas velhas demais, onde canos sequer são consertados quando quebram e o banheiro a ser utilizado é o do vizinho. A casa encontrada pela família na rua Mango, num bairro pobre de Chicago, também não satisfaz a narradora, mas é ali que ela passará sua juventude, numa comunidade onde os países de origem de pais e avós fazem parte do imaginário e exercem forte influência cultural sobre todos, causando o inevitável choque com a realidade ianque.

A Casa na Rua Mango - Divulgação - Divulgação
Imagem: Divulgação
Entre a escola, a casa e a rua, ao lado de pessoas que sequer falam inglês, junto a garotas preocupadas em agradar homens mais velhos - nojentos, abusivos - e, quem sabe, arrumar alguém capaz de fazê-las mudar de vida, Esperanza tenta encontrar seu espaço ao mesmo tempo em que mostra dificuldades para compreender o entorno. Como leitor, é boa a experiência de acompanhar o amadurecer - muitas vezes forçado pelas situações da vida - dessa garota. Não que seja fácil. Crueldades diversas passam como brisas, como se compusessem a incontornável história de todos daquela quebrada.

São jovens despedaçados que abandonam a escola por não terem roupas boas, traições que levam a cenas brutais ainda normalizadas em alguns meios e grande descaso com a vida. "Só um peão qualquer que não falava inglês. Só mais um chicano ilegal", lemos após a morte de outro ser humano iludido com o tal sonho americano. E há o machismo, muito machismo.

"Ela era uma mulher de cavalo, também, como eu, nascida no ano chinês do cavalo - o que supostamente é má sorte se você nasce mulher -, mas eu acho que isso é uma mentira dos chineses, que, como os mexicanos, não querem que suas mulheres sejam fortes", saca Esperanza. O conformismo, porém, não está entre as características da personagem."Eu já comecei a minha própria guerra silenciosa. Simples. Certeira. Eu sou aquela que sai da mesa como um homem, sem pôr a cadeira de volta no lugar ou tirar o prato", anuncia.

A disposição para transformar o mundo - ou a realidade ao redor, pelo menos - acompanha esse difícil amadurecimento de Esperanza. "Um dia eu vou ter a minha própria casa, mas eu não vou me esquecer de quem eu sou ou de onde eu vim. Os vagabundos de passagem vão perguntar: Posso entrar? Eu vou oferecer a eles o sótão, pedir a eles que fiquem, porque eu sei como é estar sem uma casa". Apesar de tudo que lhe infligem, a solidariedade permanece como virtude inabalável da garota. Não é fácil, sabemos, mas é admirável.

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