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Cazuza e as pessoas de alma bem pequena do Brasil medieval

Cazuza no Rock in Rio em show do Barão Vermelho - Reprodução
Cazuza no Rock in Rio em show do Barão Vermelho Imagem: Reprodução
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Rodrigo Casarin é jornalista e especialista em Jornalismo Literário. Escrevendo sobre livros, já colaborou com veículos como Valor Econômico, Aventuras na História, Carta Capital, Revista Continente, Suplemento Literário Pernambuco, Jornal Rascunho e Cândido. Integrou o júri do Oceanos – Prêmio de Literatura em Língua Portuguesa em 2018, 2019 e 2020 e o júri do Prêmio Jabuti em 2019, na categoria Biografia, Documentário e Reportagem. Vive em São Paulo, em meio às estantes com as obras que já leu e às pilhas com os livros dos quais ainda não passou da página 5.

Colunista do UOL

07/07/2020 08h50

"Será que eu sou medieval?/ Baby, eu me acho um cara tão atual/ Na moda da nova Idade Média", de "Medieval II". "Eu te avisei, vai à luta/ 'Porque os fãs de hoje/ São os linchadores de amanhã'", de "Vai à luta". "Meu partido/ É um coração partido/ E as ilusões estão todas perdidas/ Os meus sonhos foram todos vendidos/ Tão barato que eu nem acredito", de "Ideologia". "Mas se você achar/ Que eu tô derrotado/ Saiba que ainda estão rolando os dados/ Porque o tempo, o tempo não para", de "O Tempo Não Para".

É fácil bater a mão na obra de Cazuza e retirar algum fragmento que caiba perfeitamente em nossos dias. A Idade Média enfim chegou ao Brasil. Os linchamentos de hoje acontecem sobretudo na arena virtual, onde reina a moda dos cancelamentos. Parece não haver mais espaço para a utopia na política (só parece). Apesar de tudo, há luta.

Desde que esses dias tão estranhos começaram a dar as caras, outra música de Cazuza, cuja morte completa 30 anos hoje, sempre ecoa em minha cabeça. Falo de "Blues da Piedade". O que pensar de alguém, por exemplo, que despreza a pandemia e não quer ser chamado de cidadão por um profissional da prefeitura carioca porque é "engenheiro civil, formado, melhor do que você"?

A impressão é que gente com esse tipo de mentalidade tomou o país de assalto, num caldo de ignorância que começou a se formar com ataques à comunidade LGBTQI+, engrossou com mentiras como a mamadeira de piroca, foi temperado com terraplanismo, incorporou o nazismo de esquerda e agora rejeita qualquer pitada científica ou civilizatória. Acompanho o galope da ignorância ao som de Cazuza (ou Cássia Eller, dona da melhor versão da música): "Vamos pedir piedade/ Senhor, piedade!/ Pra essa gente careta e covarde/ Vamos pedir piedade/ Senhor, piedade!/ Lhes dê grandeza e um pouco de coragem".

É uma oração jogada ao vento para que alguma divindade (ou seja lá o que for) interceda por essas pessoas que parecem tomadas pelo rancor e despidas de qualquer grandeza. Essas "pessoas de alma bem pequena/ Remoendo pequenos problemas/ Querendo sempre aquilo que não têm". Pessoas que não iluminam suas minicertezas. Pessoas que, aparentam, não mudam quando é lua cheia e ficam esperando alguém que caiba nos seus sonhos. Talvez seja gente que esteja no mundo e tenha perdido a viagem.

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