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Há 25 anos, Nelson Mandela mostrava ao mundo a força política do esporte

Nelson Mandela na final da Copa do Mundo de Rúgbi de 1995. - Arquivo.
Nelson Mandela na final da Copa do Mundo de Rúgbi de 1995. Imagem: Arquivo.
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Rodrigo Casarin é jornalista e especialista em Jornalismo Literário. Escrevendo sobre livros, já colaborou com veículos como Valor Econômico, Aventuras na História, Carta Capital, Revista Continente, Suplemento Literário Pernambuco, Jornal Rascunho e Cândido. Integrou o júri do Oceanos – Prêmio de Literatura em Língua Portuguesa em 2018, 2019 e 2020 e o júri do Prêmio Jabuti em 2019, na categoria Biografia, Documentário e Reportagem. Vive em São Paulo, em meio às estantes com as obras que já leu e às pilhas com os livros dos quais ainda não passou da página 5.

Colunista do UOL

24/06/2020 09h04

Aquele 24 de junho de 1995 foi um dia triste para quem acredita que esporte e política não devem se misturar.

Depois do empate no tempo normal, a Nova Zelândia tomou a dianteira na prorrogação. Logo a África do Sul empatou. A igualdade permaneceu até o finalzinho dos minutos extras. Joel Stransky quem marcou os três pontos decisivos. Pouco depois de colocar a bola oval entre os paus, o jogo acabou. Os sul-africanos se sagraram pela primeira vez campeões mundiais de rúgbi.

Disputado na própria África do Sul, o mundial de 1995 serviu como peça-chave para que Nelson Mandela tentasse reunificar o país historicamente dividido. A seleção de rúgbi era um grande símbolo dos brancos supremacistas que mantinham os negros sob regime de segregação. Os negros eram maioria, contudo os recursos econômicos e culturais, bem como as ferramentas de violência e opressão, estavam nas mãos dos brancos responsáveis pelo Apartheid.

Primeiro presidente eleito na democratização da África do Sul, Mandela espantou muita gente quando acenou com simpatia para os Springboks, alcunha da seleção. Ele "se pôs a surpreender as expectativas, sobretudo na adição de símbolos que eram africâneres [relativos aos brancos descendentes de colonizadores] em sua própria quintessência. Sua enfática - e inesperada - demonstração de apoio ao time nacional de rúgbi na Copa do Mundo foi um dos primeiros exemplos disso". Ao ganhar traços nacionais, o gesto também mostrava que era Mandela, de fato, quem estava no comando do país.

Lemos isso em "A Cor da Liberdade - Os Anos de Presidência" (Zahar, tradução de Denise Bottmann), livro assinado por Nelson Mandela e Mandla Langa. O líder deixou registros dos anos à frente do país. Após sua morte, coube ao escritor reunir esses rascunhos, complementá-los com informações de pessoas próximas a Madiba e consolidá-los. Era um desejo de Mandela, que, com a vida atribulada, queixava-se de não conseguir concluir o relato sobre o tempo como mandatário.

Apesar de a Copa do Mundo de Rúgbi ser um dos eventos mais prestigiados do planeta (em termos de audiência, fica atrás apenas da Copa do Mundo de Futebol e das Olimpíadas), a cena daquele 24 de junho de 1995 que entrou para a história não foi um lance da partida em si, mas a entrega troféu - veja bem, falo da entrega mesmo, não do gesto de erguê-lo. Mandela, o presidente negro, entrou no gramado, deu a taça para o capitão, um sul-africano branco, e apertou sua mão. Um dos maiores momentos do esporte justamente por ser uma ação política. E uma ação política gigantesca, digna de Mandela.

"A imagem de um Mandela sorridente impressa na faixa dos Springboks, na vitória final na Copa do Mundo de Rúgbi em 1995, tornava-se em si mesma o símbolo da reconciliação e da lucidez", lemos em "A Cor da Liberdade" sobre a proximidade do presidente com aquela equipe e seus torcedores. Porque, por mais que alguns batam o sapatênis, esporte e política são indissociáveis.

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