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Filho da p… tão feio: além de Frida, outra artista sofreu por Diego Rivera

Quiela e Diego. - Arquivo.
Quiela e Diego. Imagem: Arquivo.
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Rodrigo Casarin é jornalista e especialista em Jornalismo Literário. Escrevendo sobre livros, já colaborou com veículos como Valor Econômico, Aventuras na História, Carta Capital, Revista Continente, Suplemento Literário Pernambuco, Jornal Rascunho e Cândido. Integrou o júri do Oceanos – Prêmio de Literatura em Língua Portuguesa em 2018, 2019 e 2020 e o júri do Prêmio Jabuti em 2019, na categoria Biografia, Documentário e Reportagem. Vive em São Paulo, em meio às estantes com as obras que já leu e às pilhas com os livros dos quais ainda não passou da página 5.

Colunista do UOL

17/06/2020 09h45

"Não tenho medo da dor, e você sabe disso. Ela é quase inerente a mim, mas confesso que sofri, e muito, quando você me traiu, a cada vez que você me traiu, não só com a minha irmã, mas com tantas outras mulheres. Como elas se deixaram enganar por você? Você acha que eu fiquei possessa por causa da Cristina, mas hoje confesso que não foi por ela. Foi por você e por mim. Antes de tudo, por mim, porque nunca consegui entender o que você queria e procurava, o que elas davam que eu não sabia dar. Não nos enganemos, Diego, eu te dei tudo o que é humanamente possível dar, e nós dois sabemos disso. De qualquer modo, como você consegue seduzir tantas mulheres sendo um filho da puta tão feio?"

Como Diego Rivera, um dos principais artistas mexicanos da história, conseguia seduzir tantas mulheres sendo tão feio? Essa pergunta rondava minha cabeça sempre que via algo a respeito da difícil relação dele com Frida Kahlo, outro nome incontornável das artes daquele país. Daí minha surpresa ao encontrar a citação pingando a todo momento no meu Twitter. As palavras são da própria Frida, escritas numa carta de desabafo ao calhorda que amou e odiou.

A editora Mundaréu lançou no ano passado uma outra história com essa faceta desprezível do artista: "Querido Diego, Sua Quiela", publicado originalmente em 1978 e que nos chega em tradução de Nilce e Ercilio Tranjan. É o livro mais famoso de Elena Poniatowska. Escritora nascida na França, ela fez sua vida no México e venceu o Prêmio Cervantes de 2013. Na ficção, a autora dá forma ao sofrimento de Angelina Beloff, artista plástica russa que, após uma passagem por Paris, também construiu a carreira na terra de Frida.

Na capital francesa, Angelina (ou Quiela, na intimidade) conheceu Diego Rivera, com quem foi casada por dez anos. Conheceram-se em 1909, casaram-se após dois anos e tiveram um filho em 1916 - a criança morreu pouco depois de completar um ano. Em 1921, Diego resolveu retornar ao México. Aí Quiela começou a conhecer o lado mais podre do marido (e olha que ele já tinha tido um filho com uma de suas amigas, traição perdoada pela artista).

Elena parte de uma carta real para criar uma novela epistolar construída por mensagens escritas por Angelina. No começo temos uma mulher que derrama suas saudades, repassa momentos marcantes e conta os dias para receber o sinal do amado convidando para o encontro no México, onde retomariam a vida a dois. As missivas, no entanto, parecem cair num vazio. Diego ignora a maioria dos escritos. Quando dá sinal de vida, geralmente se limita a poucas linhas quase grosseiras acompanhadas de algum dinheiro para ajudar nas despesas cotidianas de Quiela.

Acompanhamos a angústia e o sofrimento de uma mulher que não sabe se seus sentimentos seguem correspondidos ou não. Na dúvida, coloca-se aos pés de Diego. "Sem você eu sou bem pouca coisa, o que determina meu valor é o amor que você tenha por mim, e existo para os demais na medida em que você me ama. Se você deixa de fazê-lo, nem eu nem os outros poderemos amar-me".

Mais adiante, Quiela compartilha suas frustrações e as desconfianças de que o marido não a quer mais. Para de trabalhar. Diz enlouquecer com a situação. Registra tudo isso em uma nova carta, na qual implora honestidade ao "filho da puta tão feio", para lembrarmos Frida. "Diego, ao ver meu desvario, pergunto, e esta é possivelmente a pergunta mais grave que já fiz na minha vida: Você não me quer, Diego? Gostaria que me dissesse com toda a franqueza". Pela forma como Elena constrói esse desprezo, a compaixão pela personagem se dá na mesma intensidade em que sentimos ódio pelo canalha.

'Querido Diego, Sua Quiela' - Reprodução - Reprodução
Imagem: Reprodução
Não só o tom das cartas, mas também as datas indicam que a esperança se esvai. Após Diego deixar a França, Quiela lhe escreve com assiduidade. As primeiras mensagens datam de 19/10, 07/11, 15/11, 2/12 e 17/12 de 1921. Ao começar a aceitar ou se conformar com o abandono, tenta tocar a vida. Se não consegue tirar o artista da cabeça, pelo menos deixa de escrever ao homem com tanta frequência. A penúltima carta de "Querido Diego, Sua Quiela" é de 02/02, enquanto a última foi escrita no dia 22/07 de 1922.

A pergunta permanece: como Diego conseguia "seduzir tantas mulheres sendo um filho da puta tão feio?" Na ficção de Elena, as palavras de Angelina dão algumas pistas. Com lábia e inteligência, o artista parecia hipnotizar os seus alvos. Em muitos momentos Quiela demonstra como admira intelectualmente e artisticamente o marido, alguém que lhe orientava e transmitia segurança para trilhar o próprio caminho nas artes. A maneira como Diego influenciou a noção de lugar no mundo de Angelina diz muitos sobre esse encantamento que parecia capaz de produzir.

"Olha, Diego, durante tantos anos que estivemos juntos, meu caráter, meus hábitos, em resumo, todo o meu ser sofreu uma modificação completa: mexicanizei-me terrivelmente e sinto-me ligada par procuration ao seu idioma, à sua pátria, a mil pequenas coisas, e creio que me sentirei muitíssimo menos estrangeira com você do que em qualquer outra terra". Depois volta ao assunto: "Você foi meu amante, meu filho, meu inspirador, meu Deus, você é minha pátria; sinto-me mexicana, meu idioma é o espanhol ainda que o massacre quando falo. Se você não volta, se não me manda chamar, não apenas o perco, como perco também a mim mesma, tudo o que consegui ser".

Na vida real, Angelina partiu sim para o México, em 1932, quando Diego Rivera já estava casado com Frida Kahlo. Pelo que consta, Quiela jamais procurou por Diego. Não queria aborrecê-lo.

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